[Bancariosdebase] O caso Uniban
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Quinta Fevereiro 11 22:27:03 UTC 2010
Olá comp em s
Conforme conversamos no último sábado, depois da reunião, durante
o almoço, escrevi um texto sobre o caso Uniban, que publico a seguir
e em anexo.
Um abraço
Daniel
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SAIA JUSTA NO CENTRO DO ESPETÁCULO
O espetáculo e os fatos
No clássico “Sociedade do Espetáculo”, de 1967, Guy Debord
identifica um salto de qualidade nos mecanismos de mistificação
ideológica, por meio do qual se criou uma esfera que concentra em si
toda a representação do mundo, substitui a representação real,
impede a manifestação do real e impõe o domínio da
falsificação. É a essa esfera que Debord denomina espetáculo.
Não se trata de uma simples explosão quantitativa do volume de
produção e influência da indústria cultural e dos meios de
comunicação, mas da conformação de toda uma estrutura que permeia
de alto a baixo as relações sociais, da cultura até a política.
A característica central do mundo do espetáculo é a
falsificação. O inautêntico se impõe como verdade e bloqueia a
aparição do autêntico. Todas as relações sociais trazem a marca
da encenação, do inautêntico, do falsificado. O fetichismo da
mercadoria se concretiza como império da imagem, da narrativa e da
encenação. Tudo é performance e nada é ação. De cada um se
espera que cumpra o seu papel.
A ruptura com a ordem espetacular exigirá a ação coletiva e a
afirmação de indivíduos reais capazes de estabelecer relações
autênticas. As rupturas parciais, que não afetam em profundidade a
ordem do capital, acabam sendo assimiladas pela lógica do
espetáculo. Os fatos são deglutidos pelos factóides. A função do
espetáculo é sobrepor-se ao fato e torná-lo incompreensível, ou
pior do que isso, inacessível à consciência.
O recente fato acontecido na faculdade Uniban e sua transformação
em espetáculo expõe/oculta várias camadas de falsificação nas
quais estão enredadas as relações sociais na atual etapa
histórica de capitalismo mundializado e em plena crise estrutural.
No dia 22 de outubro de 2009 uma estudante do curso de turismo da
faculdade Uniban, do campus de São Bernardo, foi vítima da
agressão de centenas de colegas por estar usando um vestido curto.
Geisy Arruda foi cercada por gritos, xingamentos, ameaças de
estupro, e teve que sair da faculdade escoltada por policiais. As
cenas da agressão vazaram para a internet e se tornaram domínio
público. O incidente ganhou as proporções de um escândalo e se
transformou em assunto nacional.
As engrenagens da indústria cultural digeriram implacavelmente mais
esse incidente, encaixando-o por fim no script pré-fabricado da
moça-pobre-injustiçada-que-consegue-15-minutos-de-fama-e-desaparece.
Conforme o interesse do público na celebridade-mercadoria do momento
arrefece, um novo episódio-escândalo-entretenimento passa a ser
demandado para se tornar o assunto público. Por conta de mecanismos
como esse, é provável que o destino de mais essa celebridade
instantânea seja o mesmo de outros “famosos descartáveis” que
retornam para o anonimato de onde nunca deveriam ter saído tão logo
o interesse do público é dirigido para outro foco. Por trás do giro
interminável das máquinas desse show de horrores e espuma sem
conteúdo, se desenvolvem tendências que revelam mutações no
estado ideológico da sociedade. São essas tendências que devemos
examinar mais atentamente.
O fato e o contexto
No momento da sua maior audiência, as proporções do escândalo na
Uniban foram amplificadas pela atitude da própria direção da
faculdade, que puniu a vítima com a expulsão. A maioria dos alunos
apoiou a expulsão, mesmo os que não participaram da agressão. A
repercussão negativa contra a expulsão foi geral. A resposta contou
com pressões vindas até do Ministério da Educação, que forçou a
faculdade a voltar atrás e readmitir a estudante. Mas o estrago já
estava feito. A Uniban já havia ganho o apelido de “Unitaliban”,
por ser intolerante, ou “Unibambi”, por não gostar de mulheres
com roupas curtas. Empresas começaram a recusar currículos de
estudantes vindos dessa faculdade (e coloca-se a seguinte
interrogação: os currículos provenientes da Uniban estão sendo
recusados porque o incidente mostrou que os seus estudantes e
dirigentes são intolerantes? Ou porque mostrou que seus estudantes
se parecem com a vítima em questão? Ou as duas coisas ao mesmo
tempo?).
Vejamos mais de perto o que é de fato a Uniban. Trata-se de um
simulacro de faculdade em que se vende uma mercadoria, um simulacro
de educação superior, produto certificado por um diploma, cujos
compradores acreditam que servirá como via de acesso para uma
carreira, uma profissão na qual se projetam as esperanças
ilusórias de sucesso material e acumulação de riqueza (capital em
reprodução ampliada), processo que é apresentado como sendo o
ápice da realização humana, ou seja, o ideal de felicidade em
nossa época.
Os clientes da loja de diplomas da Uniban são oriundos da
pequena-burguesia e de estratos superiores da classe trabalhadora.
Eventualmente, alguns filhos de camadas mais baixas do proletariado
conseguem ingressar também na faculdade, à custa de grande esforço
pessoal e familiar. É o caso da própria Geisy, moradora de um bairro
periférico de Diadema, filha de pais trabalhadores braçais e ela
própria balconista de uma loja. Quanto à burguesia, esta
evidentemente tem suas vagas garantidas nas instituições
universitárias públicas, nas quais ainda se pratica algo semelhante
ao ensino superior real, e nas quais um número muito menor de
integrantes das classes subalternas consegue penetrar.
Todos enxergam a faculdade como uma via para a ascensão social,
não porque a instituição universitária oferece algum conhecimento
real sobre o mundo, mas porque fornece um verniz de “formação
profissional” devidamente certificado pelo diploma, que é na
realidade o objetivo final. Os professores, as aulas e o conhecimento
em si são na verdade obstáculos que se interpõem entre os
compradores (supostamente estudantes) e o vendedor (supostamente uma
faculdade) numa transação comercial ordinária. Isso tudo é
sintetizado por uma piada célebre nas faculdades particulares: “os
alunos querem comprar o diploma, a faculdade quer vender, e o
professor é o obstáculo no meio do caminho”.
A irritação dos estudantes da Uniban com a sua colega se deve ao
fato de que a repercussão negativa desvalorizou a mercadoria em que
estão empenhando seu tempo e dinheiro, o ambicionado diploma, que
agora se transformou em uma mancha em seus currículos. Por isso
houve grande apoio dos estudantes à tentativa de expulsar Geisy por
parte da reitoria, a qual, por sua vez, estava também tentando
preservar a atratividade da mercadoria que está vendendo, movimento
que acabou saindo pela culatra.
Quanto a Geisy Arruda, o incidente a arremessou no redemoinho da
indústria de celebridades, o mundo das revistas de fofocas e
programas de TV que vivem de expor a intimidade (combinada com o
exibicionismo calculado) de modelos, artistas de TV, esportistas,
empresários, políticos, arrivistas, aventureiros, alpinistas
sociais e oportunistas de todos os tipos. A indústria do
entretenimento é sempre bastante ágil na busca de carne fresca para
oferecer ao apetite do público. Geisy foi cotada para revistas
masculinas, filmes pornô e desfiles de escola de samba.
Do ponto de vista do público espectador do espetáculo, Geisy deve
fazer exatamente o que a indústria espera que ela faça, ou seja,
aproveitar sua exposição na mídia para faturar. Se alguém fica
famoso, é porque quer ganhar algum dinheiro em cima disso, raciocina
o público. A narrativa-padrão em que o episódio está sendo
encaixado inverte a ordem dos fatos, transformando a vítima em
autora de alguma espécie de golpe. A estudante teria provocado o
incidente propositalmente para obter algum tipo de notoriedade, a
partir da qual poderia extrair algum lucro. O investimento da mulher
em seu corpo-mercadoria (academia, salão de beleza, roupas e
acessórios) deve obter seu retorno. Não há outro comportamento a
se esperar da mulher que não o de encontrar alguma forma de vender
seu corpo (ver textos do blog maçãs podres de 5, 8 e 15 de novembro
de 2009 – http://nucleogenerosb.blogspot.com/ [1]).
A lógica da mercadoria e a ética de Big Brother
O instinto comercial e o pragmatismo explicam as reações da
comunidade da Uniban a _posteriori_ e também a interpretação do
público sobre o comportamento de Geisy. Mas o que explica o fato em
si na sua origem, ou seja, a agressão que vazou para a internet e se
transformou em escândalo? Por que Geisy foi hostilizada a ponto de
precisar de proteção policial? O que há de tão extraordinário no
vestido curto? Não se trata do mesmo tipo de traje que todos estão
acostumados a ver nas ruas? E mais, não estão todos acostumados a
ver mulheres com muito menos roupa a cada minuto na televisão? Os
estudantes da Uniban são simplesmente machistas? São talibans ou
bambis que não gostam de mulheres com pouca roupa? A juventude
retrocedeu para antes dos anos 60, antes da chamada “revolução
sexual”, e se tornou conservadora?
Essas hipóteses são parcialmente verdadeiras, mas o
conservadorismo puro e simples não explica todo o fenômeno. Há
algo mais sinistro do que puro e simples conservadorismo tradicional
em cena. Esse exemplo de proto-fascistização da juventude não é
um fato isolado, e é produto de certos aspectos peculiares da
situação histórica em que vivemos e suas correspondentes
narrativas ideológicas.
A forma-mercadoria é a célula básica da sociabilidade burguesa e
matriz de todas as relações sociais. O sexo é também uma
mercadoria, algo que as mulheres devem vender (tornando-se atraentes,
ao custo de grande sacrifício, e ao mesmo tempo seletivas, repelindo
os homens, exigindo provas de compromisso e viabilidade material em
troca de oferecer seu corpo aos vencedores) e os homens devem comprar
(prometendo casamento, fidelidade e estabilidade material, provando
que são economicamente capazes de prover um lar de contos de fadas).
Toneladas de moralismo religioso, ideologia romântica e hipocrisia
social costuram essa relação entre matrimônio e patrimônio,
colaborando para a imposição do consumismo como razão de viver,
elemento fundamental do conformismo geral que anestesia os
trabalhadores na sociedade capitalista.
No mundo da vendabilidade universal, as mercadorias devem ser
trocadas pelo seu valor equivalente. Essa lei absoluta da esfera da
circulação foi de alguma forma transgredida pela estudante de
turismo ao expor seu corpo daquela forma, o que explica a reação
das demais concorrentes no mercado. Geisy teria supervalorizado seu
corpo-mercadoria, buscando se sobressair na competição por meios
espúrios. Ela “apelou” ao usar o traje que foi pivô da
agressão, e foi punida por ter saído do seu “devido lugar”. A
lógica social que motivou a agressão mistura repressão sexual,
machismo, discriminação (elementos do velho conservadorismo) e uma
nova espécie de ética mercadológico-comportamental. Esse fascismo
de mercado aparece no nível das consciências por meio de uma
“ética de Big Brother”, e aqui nos referimos não ao personagem
do “1984” de Orwell, mas ao do programa de TV (embora este seja
indubitavelmente uma das faces contemporâneas daquele).
O Big Brother da TV sintetiza a concorrência entre os indivíduos
na competição por exposição no mercado. Os participantes do jogo
são julgados pelos espectadores, que aprovam ou rejeitam as
estratégias por meio das quais os jogadores tentam se destacar: há
os “bad boys”, os “santinhos”, os “manipuladores”, etc.
Os critérios pelos quais os espectadores julgam essas estratégias
para escolher os vencedores do show são os mesmos pelos quais esses
mesmos espectadores são julgados numa dinâmica de grupo ou numa
entrevista para vaga num emprego. É preciso ser ao mesmo tempo firme
e humilde, ousado e contido, autêntico e comedido, etc. Uma série de
exigências comportamentais contraditórias desafiam os participantes,
sempre em busca de um equilíbrio impossível entre estratégias de
competição simultâneas e mutuamente excludentes. O Big Brother da
TV é a forma dramática condensada do ambiente das agências de
emprego (ver o texto “My Big Brother” –
http://politicapqp.blogspot.com/2007/05/my-big-brother-o-crtico-de-cinema-da.html
[2] em que se desenvolve essa interpretação e se dá o devido
crédito ao autor).
A geração de universitários educados pelo Big Brother vivencia as
faculdades particulares como uma ante-sala da empresa, com visual de
shopping center e códigos morais de agência de emprego. Existem
regras por meio das quais os estudantes-clientes devem “vender seu
peixe”. Dentro dessa lógica, Geisy teria adotado a estratégia de
se vender como
mulher-que-tem-o-controle-sobre-seu-corpo-e-faz-com-ele-o-que-quiser.
Essa estratégia lhe foi negada pelas demais estudantes, que se
sentiram lesadas na concorrência.
O script do fascismo de mercado
A mulher que usa um traje nos moldes do fatídico vestido vermelho
é socialmente interpretada tanto pelos homens como pelas outras
mulheres como estando “disponível para o sexo”. E aqui é
irrelevante determinar se esse estereótipo é ou não compatível
com a pessoa em questão. Não importa se Geisy tem um comportamento
sexual livre (o qual no caso das mulheres é socialmente valorado de
forma negativa e estigmatizado com epítetos como o de
“vagabunda”, “vadia”, “galinha”, “puta”, etc.)
autêntico e saudável ou se apenas deseja aparentar que o tem. Não
importa se se trata de um comportamento real ou de simples
aparência, mesmo que a aparência signifique a opção por uma
estratégia de exposição que é também uma expressão de
alienação e desejo de aparentar algo que não é (um padrão de
beleza e comportamento que por sua vez constitui uma submissão a
imperativos sociais de dominação impostos sobre as mulheres). Não
importa porque não se pode conceder aos seus agressores o direito de
reprimir aquilo cuja aparência não lhes apraz.
Isso seria o mesmo que dizer que ela mereceu a agressão, porque
provocou, assim como as mulheres que são estupradas provocaram os
criminosos por despertarem seu desejo; ou os torcedores que são
vítimas dos elementos fascistas nas torcidas organizadas mereceram
apanhar porque foram pegos “vacilando” com a camisa de uma
agremiação rival no campo esportivo; ou ainda os jovens “emos”
mereceram ser agredidos pelos carecas do ABC porque se atreveram a
adotar um determinado visual que não os agrada; e assim por diante.
Não se pode ser tolerante com a intolerância e o fascismo, e nesse
sentido a reação das organizações de esquerda e movimentos de
defesa das mulheres foi correta ao organizar manifestações de
repúdio contra a faculdade Uniban (embora a compreensão real das
organizações de esquerda sobre os elementos psicossociais profundos
aqui discutidos seja nula).
Voltando pois ao incidente. As demais estudantes da Uniban negaram a
Geisy o direito de se vestir como lhe aprouver. Ela não tem esse
direito porque pertence a um estrato mais baixo da classe
trabalhadora, porque é filha de migrantes nordestinos, porque não
se encaixa no padrão de beleza ariano-anoréxico vigente, porque
não é uma autêntica patricinha sarada e malhada, mas alguém que
“indevidamente” ousa aparentar sê-lo. O fato de que ela queira
aparentar sê-lo é sem dúvida uma expressão da miséria cultural
da qual ela é produto e da falta de alternativas da juventude, mas
nem por isso os seus agressores tem o direito de perseguí-la, pois
isso expressa uma degradação muito mais perversa. Além de tudo,
trata-se também de preconceito de classe e racismo. Geisy se atreveu
a aparentar distintivos de inserção social que são vedados a sua
classe social. Ao proceder dessa forma, ela supervalorizou sua
mercadoria no cenário do Big Brother universitário capitalista.
Para que fique bem claro, repetimos o que viemos dizendo nos
parágrafos anteriores: a agressão partiu de colegas do sexo
feminino (conforme os relatos mais detalhados que circularam depois
do escândalo – ver por exemplo
http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2088/artigo156256-1.htm [3]).
Depois que as mulheres perseguiram Geisy, vieram seus namorados e
afins, e depois desses toda a massa que apenas gosta de ver o circo
pegar fogo e aproveita qualquer ruptura da rotina para expressar
desejos reprimidos e vontade de destruição (“estupra ela”,
“vamos estuprar”, gritavam).
As mulheres reprimiram em Geisy aquilo que não tem coragem de
expressar através de si mesmas, ou seja, o comportamento sexual
livre insinuado pelo vestido vermelho. A transformação do
recalcamento psicológico individual em força social repressiva é o
mecanismo essencial da psicologia de massas do fascismo. Esse
mecanismo hoje está a serviço de um pragmatismo mercadológico
mesquinho que enquadra a juventude (uma força social contestadora
décadas atrás) no roteiro dramatúrgico barato dos reality-shows,
livros de auto-ajuda e manuais de administração de empresas, entre
outras formas abjetas da apologética vulgar do capital. A seguir,
cenas do próximo capítulo.
Daniel M. Delfino
09/02/2010
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