[Bancariosdebase] [redeestudantilclassista] Manual da redação: 10 regras da grande imprensa ao abordar ‘movimentos sociais’

Daniel tzitzimitl em terra.com.br
Sexta Fevereiro 26 22:44:51 UTC 2010


 Em tempos de perseguição política ao MST, repassando texto da
agência Adital
 Daniel
	Manual da redação: 10 regras da grande imprensa ao abordar
‘movimentos sociais’ 
 Osvaldo da Costa * 
 Adital -  

	Convenções básicas (quem não cumprir está sujeito à
demissão):  

	1ª) Toda OCUPAÇÃO de terra deve ser chamada de INVASÃO 

	Ao invés de usar o termo adotado pelos movimentos sociais,
"ocupação" - manifestação de pressão para o cumprimento da
Constituição pelo Estado e denúncia da existência de
latifúndios- é mais eficiente para o objetivo de defesa do
princípio da propriedade privada a utilização da palavra
"invasão" - tomar para si pela força algo que não lhe pertence. 

	Dessa maneira, implicitamente, estamos dizendo que discordamos dessa
prática e a consideramos ilegal, e conseguimos gerar a sensação de
pânico generalizado em todos os donos de propriedade, sejam elas
rurais e produtivas, ou até mesmo propriedades urbanas.  

	Observação: essa regra não é generalizável. Para os casos em
que os Estados Unidos invadem países, destroem a infra-estrutura e
matam a população, deve-se utilizar o termo "ocupação".  

	2ª) Regra do efeito dominó: fale só do maior para bater em todos 

	O acordo da grande imprensa é manter somente o Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na pauta dos noticiários, e
evitar sempre que possível falar da existência de outros movimentos
sociais. Para isso, quando se tratar de movimentos do campo, basta
usar sempre a expressão genérica "movimento dos sem terra", ou
falar dos "sem terra", sem mais detalhes. 

	Se a pauta exigir o detalhamento do movimento, recomenda-se
associá-lo sempre ao alvo principal, com expressões como "movimento
dissidente do MST". 

	Essa regra ainda colabora para a desunião entre os movimentos, pois
os menores se incomodam pela invisibilidade e pelo fato de terem suas
ações relacionadas sempre ao MST. 

	3º) Reforma Agrária deve ser tratada como questão de polícia 

	Movimentos sociais e reforma agrária devem, sempre que possível,
ser tratados na página policial, no caso de jornais impressos, e no
bloco do crime e dos desastres, no caso dos telejornais. 

	Caso não seja possível enquadrá-los na seção policial ou em
espaço próximo, use títulos para editorias que lembrem o
belicismo, como "campo minado". Não importa o que diga sua matéria,
os títulos devem falar por ela, mesmo que não tenham relação com o
conteúdo. Use tons sensacionalistas e fatalistas. 

	4º) Nunca divulgue os artigos progressistas da Constituição
Federal 

	Os artigos da Constituição Federal que tratam da função social
da terra, que integram o código agrário - 184 a 191 - nunca devem
ser mencionados em reportagens sobre os movimentos sociais, para
evitar a compreensão de que a ação de invasão de terras pode ter
algum respaldo legal. 

	É sempre recomendável lembrar da lei de Segurança Nacional e da
necessidade de uma legislação contra o terrorismo no Brasil. O
termo "Estado de Direito" é ideal para isso. Considere qualquer
manifestação uma afronta ao Estado de Direito, mesmo que ele seja
apenas o Direito do Estado. 

	Se falar do Estado de Direito e suprimir os artigos progressistas da
Constituição não for suficiente, convém colocar as reportagens
próximas à cobertura de ações terroristas ou, levantar a suspeita
de que há relação do movimento social com uma organização
terrorista ou guerrilheira estrangeira. 

	Conjunto de regras para serem selecionadas e aplicadas conforme a
conjuntura exigir: 

	5º) Levante a bola para o oportunista de plantão 

	Não é verdade que o papel da imprensa é apurar a verdade dos
fatos. Todo aspirante deve saber que a imprensa tem poder para gerar
os fatos. 

	Além disso, apurar fatos implica em sair da sua cadeira e nem todos
eles podem ser apurados por telefone. Basta fazer uma reportagem
suspeitando de algo, e procurar um oportunista que queira
protagonizar a indignação pública para a suspeita ganhar dimensão
de notícia. 

	Sempre há alguém à disposição esperando para se deslumbrar com
as luzes dos holofotes.. O exemplo bem sucedido mais recente foi o
caso da requentada pauta da suspeita da legalidade do financiamento
público para cooperativas da reforma agrária, em que o presidente
do Superior Tribunal Federal (STF) desempenhou o papel de porta-voz
da bancada ruralista, dando respaldo para a suspeita, e de quebra,
aproveitando para atacar o governo federal. 

	Se não houver ninguém do Judiciário ou algum deputado, não
importa, qualquer um, sem nunca ter ido a um assentamento ou
acampamento pode ser transformado em "especialista" em questão
agrária: sociólogos, filósofos e até jornalistas. 

	6º) Nem sempre devemos apurar os dois lados da notícia 

	Quando já conseguimos incutir um pré-julgamento na opinião
pública sobre o caráter marginal das ações dos movimentos
sociais, podemos reforçar essa opinião entrevistando somente o lado
agredido pelas ações, as vítimas dos movimentos. Fica implícita a
informação de que, como os integrantes dos movimentos são foras da
lei, quem deve escutá-los é a polícia e o poder judiciário. Se
ainda assim tiver que ouvi-los, seja breve e descontextualize a
frase. 

	7º) Não deve existir noção de historicidade, nem de causa e
conseqüência em nossas reportagens 

	Não abordar as razões da ação dos movimentos sociais, evitar a
divulgação da nota à imprensa. Não importa há quanto tempo às
famílias estejam acampadas, quais promessas foram feitas pelo
governo, se a terra é do banqueiro que saqueou os cofres públicos
ou do coronel que vive do trabalho escravo. Se detenha nas
conseqüências da ação. 

	8°) Dramatização da repercussão das ações dos movimentos
sociais 

	Retire o foco das motivações estruturais e causas históricas e
centre a abordagem nas conseqüências para os indivíduos donos ou
empregados das propriedades invadidas ou atacadas. 

	- fale do prejuízo econômico para o proprietário, e se possível
faça uma entrevista com o mesmo ou com um familiar próximo para
mostrar a comoção da família diante do ataque bárbaro. É
importante mostrar o estado de choque emocional, e o ideal é que a
pessoa esteja chorando. 

	- surte grande efeito a entrevista com trabalhadores da fazenda ou
da empresa. O maior exemplo é o caso da ação no horto da
multinacional Aracruz no Rio Grande do Sul, em que uma técnica de
laboratório se fez passar por pesquisadora e, em prantos (!),
afirmou que a destruição das mudas de eucalipto acabou com mais de
vinte anos pesquisa. 

	Nesse caso, as reportagens conseguiram colocar os movimentos sociais
como contrários à ciência e ao desenvolvimento tecnológico,
evitando a pauta concreta da ação, que se centrava na expansão
ilegal das terras da empresa e na depredação da natureza com o
monocultivo de eucalipto. 

	9º) Campanha de desmoralização permanente dos movimentos sociais 

	É sempre bom manter semanalmente pautas de desgaste aos movimentos
sociais, mesmo que não haja uma ação que renda manchete. Nesses
casos, a regra é trabalhar com associação, encaixando uma
reportagem que fale sobre um movimento após ou entre matérias que
falem, por exemplo, de casos de corrupção no Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária (Incra), venda de terra e
desmatamento em assentamentos da Amazônia Legal, etc. 

	Bata nas mesmas teclas, insista nas mesmas teses permanentemente,
mesmo que elas já tenham sido usadas antes. Insista, por exemplo,
que o MST irá romper com o Governo Lula desta vez, mesmo que o
movimento afirme e demonstre desde o primeiro dia de governo que
nunca esteve atrelado. 

	E quando não for possível tomar como alvo os movimentos sociais,
vale mirar nas bandeiras de luta deles, alegando estarem
ultrapassadas, deslegitimando-as como parte da solução atual para
os problemas do país. Nesse caso, pode-se até reconhecer o valor
histórico que bandeiras como reforma agrária cumpriram no Brasil e
em outros países, mas deve-se usar essa manobra apenas para recusar
essas propostas no presente. 

	10º) É fundamental saber manipular a dimensão subjetiva do
telespectador ou do leitor 

	Não é apenas com a manipulação dos fatos e com a edição das
entrevistas que podemos influenciar na interpretação que os nossos
consumidores farão. Na TV, a expressão facial e o tom de voz dos
repórteres, dos comentaristas e, sobretudo, dos âncoras, é
determinante. A adoção do semblante sério e do tom de voz grave
deve indicar a importância do tema.  

	Além da performance dos jornalistas como atores, é recomendável
que o pano de fundo do cenário também traga imagens que gerem medo
e desconfiança. O exemplo do Jornal Nacional é o mais ilustrativo:
para falar da reforma agrária e dos movimentos que lutam por ela:
aparece uma cerca rompida e três vultos disformes - "afinal não
são pessoas, são sombras" -, empunhando ferramentas de trabalho
como se fossem armas, numa ação de invasão da propriedade (e da
casa do espectador). 
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