[Bancariosdebase] [paraisoconcreto:1170] Uma nota sobre o cretinismo "internético"
Daniel
tzitzimitl em terra.com.br
Sexta Junho 25 21:09:51 UTC 2010
Alguém precisava mesmo dizer umas poucas e boas sobre a internet.
Daniel
On Qua 23/06/10 13:48 , "Walter N. Braz Jr." w42739 em yahoo.com.br
sent:
Uma nota sobre o cretinismo "internético" [1]
Atilio A. Boron
Qui, 22 de abril de 2010 18:18
Atilio Boron
Tornou-se lugar comum crer que a Internet é o âmbito por
excelência da liberdade em nosso tempo. Muitíssima gente, e não
poucos teóricos, sustentam que se trata de un espaço libérrimo, no
qual as antigas restrições que o papel impresso impunha à
produção e circulação das ideias ficaram definitivamente
superadas. Basta ler algumas passagens do livro de Hardt e Negri,
_Império_; ou os três tomos de Manuel Castells, _A Idade da
Informação: Economia, Sociedade e Cultura, _para apreciar a
profundidade e as ramificações desta crença._ _Dizem os primeiros,
numa passagem memorável - e não precisamente pelo acerto - de sua
obra, que "a rede democrática é um modelo completamente horizontal
e desterritorializado. A Internet (...) é o principal exemplo desta
estrutura democrática em rede. (...) Um número indeterminado e
potencialmente ilimitado de nós interconectados que se comunicam
entre si sem que haja um ponto central de controle. (...) Este modelo
democrático é o que Deleuze e Guattari chamaram um rizoma, uma
estrutura em rede não hierárquica e sem um centro." (pp. 277-278)
O livro de Castells se edifica íntegralmente sobre essa
superstição. Mas, contrariamente ao que assegura a charlatanisse
pós-moderna, a Internet nem é horizontal, descentralizada ou
desterritorializada. O que aqueles autores se empenham em negar é
que a Internet é uma estrutura que tem centros de monitoramento e
controle, e na qual certo tipo de comunicações estão bloqueadas,
quase todas vigiadas e algumas censuradas. Só espíritos muito
ingênuos podem supor outra coisa, ainda que também possa ocorrer
que tão desastrado diagnóstico responda à incessante busca de
originalidade e singularidade que caracteriza a labor de muitos
intelectuais - o "afã de novidades", cujas perniciosas
consequências já haviam sido notadas por Platão? - que, afetados
por uma fenomenal sobrevaloração da importância de sí mesmos e de
suas ideias, se obstinam em formular alambicadas teses sobre nossa
época, mas abstendo-se de falar do capitalismo e do imperialismo. Do
ponto de vista da ciência social, isso é tão absurdo como o intento
de um astrônomo que quisesse predizer o curso dos planetas
prescindindo por completo de levar em conta o Sol. Em termos de
pensamento crítico, uma operação deste tipo constitui uma
lamentável capitulação, mas não se pode negar que outorga um
banho de respeitabilidade a quem, ao promover semelhantes disparates,
desarma ideologicamente os milhares de milhões de vítimas do sistema
que, por outra parte, retribui generosamente os serviços de quem
predica tais fantasías. Uma das teses mais importantes deste tempo
é, precisamente, exaltar a Internet como o reino da liberdade,
convertendo assim um dos preceitos da ideologia dominante numa
verdade supostamente irrefutável.
Mas as evidências que destroem esse mito são abrumadoras. Por
exemplo, muitas das mensagens emitidas nestes últimos dias desde o
PLED, anunciando um painel sobre o rol da Colômbia na geopolítica
imperial, padeceram de suspeitosas dificuldades. Chegaram
informações de amigos e companheiros que queriam difundir o
aconteceimento mas, ao pôr "Colômbia" no assunto ou no corpo da
mensagem, isso simplesmente desaparecia da tela ou ia diretamente
para a lixeira. Estamos também experimentando dificultades em
receber adesões para nossa campanha de solidariedade com Cuba, e
são vários que apelaram a chamadas telefônicas para fazer-nos
saber de sua impossibilidade de registrar sua assinatura através do
envio de uma mensagem ao endereço preparado para tal efeito. São
muitas as experiências que refutam o caráter democrático e
libertário da rede. Sem ir mais longe, quem quiser utilizar o
programa Skype em Cuba não pode fazê-lo, e muito menos acudir ao
Google Earth, porque, em tal caso, aparecerá um cartazinho dizendo
que "da localização em que você se encontra neste momento não
pode ter acesso a este programa." O mesmo ocorre com muitos outros
programas. Quem tenha dúvidas a respeito, não precisa mais do que
enviar uma mensagem incorporando no texto certas palavras
supostamente vinculadas a atividades terroristas e já verá o que
ocorre. Talvez Hardt, Negri ou Castells considerem essas coisas como
transitórias anomalias, mas não é assim. É o funcionamento
"normal" de uma rede que, a despeito das ocorrências daqueles
autores, tem centros que a controlam e dominam. A chamada do dia 19
de Abril no topo de _Página/12_, "Montañas", agrega nova evidência
a favor desta tese. Nela se informava de que "uma página aberta em 25
de março (e que descrevia seu dono como o "príncipe dos mujadins")
fora alcançada, na sexta-feira passada, ao ter mais de mil
seguidores. _Facebook_ admitiu que não tinha elementos para
determinar se o titular era verdadeiro ou apócrifo, mas igualmente
anunciou que o sitio fora desativado: desde ontem, Osama Bin Laden
já não tem espaço na rede social de Internet."
Numa passagem brillante de seu _O Dezoito Brumário de Luis
Bonaparte_ Marx definia o cretinismo parlamentar como "uma doença
que aprisiona como por encantamento os contagiados num mundo
imaginário, privando-lhes de todo sentido, de toda memória, de toda
compreensão do rude mundo exterior". Uma doença que agora reaparece
e se apodera de alguns teóricos de nosso tempo, que os encerra num
mundo imaginário, no qual a Internet é o reino da liberdade e da
democracia, reino edificado, por certo, sobre uma sociedade
capitalista que a cada passo demonstra sua incompatibilidade cada vez
mais irreconciliável com a liberdade e a democracia, mas que, graças
ao cretinismo "internético", intenta renovar sua deteriorada
legitimidade. Este cretinismo é muito mais daninho que o
identificado por Marx e deverá ser combatido com muita inteligência
e muita militância no marco da batalha de ideias. A luta contra a
ideologia dominante e os oligopólios mediáticos terá também que
se livrar na Internet.
_www.atilioboron.com [2]_
Fonte: Rebelión [3]
Tradução: Sergio Granja
http://www.socialismo.org.br/portal/comunicacao-social/89-artigo/1470-uma-nota-sobre-o-cretinismo-qinterneticoq
[4]
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