[Bancariosdebase] [Fwd: Artigo - Movimentos sociais , burocratização e poder popular]

hugoscabello em riseup.net hugoscabello em riseup.net
Quinta Outubro 7 01:48:40 UTC 2010


Ola compas,

Encaminho um artigo escrito por um compa da FASP (também da OPA) sobre
burocatização de movimentos sociais e poder popular. O texto é meio
extenso (40 páginas) e também é, na minha opinião, denso em teoria, apesar
de ter preocupações bastante práticas, e trechos menos teoricos (mais pro
fim). Bem, recomendo a leitura, acredito que ajuda no embasamento de nossa
atuação sindical.

Reitero o pedido dele: Não publiquem o texto em lugar algum, pois o
passa-palavra exige que os textos publicados sejam inéditos.

Deixo, como aperitivo, um trecho mais do final do texto, no qual ele faz
um fechamento das teses discutidas:

20 Teses sobre o Poder Popular

Toda a reflexão realizada anteriormente em relação aos processos de
burocratização e o possível programa antiburocrático está vinculada
intimamente à discussão sobre poder popular.

Pois acredito que o poder popular só pode existir a partir de uma prática
antiburocrática dos movimentos sociais e, portanto, para sua construção,
será necessário aplicar, na prática, tanto para a criação, quanto para o
trabalho com movimentos já existentes, os contra-mecanismos e
contra-processos explicitados.

Relacionando o poder popular com o programa antiburocrático proposto, a
partir de alguns teóricos contemporâneos que desenvolveram teoria sobre o
poder popular (Mauro, 2006; Mechoso, 2009; Lopez, 2001; FAU-FAG, 2009;
FAU-FAG, 2010; Samis, 2010; Corrêa, 2010), é possível elaborar algumas
teses, que contribuem para sua compreensão, a partir da noção que defendo,
e também para o entendimento de sua relação com o programa antiburocrático
proposto.

1. Defender o poder popular implica reconhecer que a sociedade presente é
uma sociedade de classes, separada entre classes dominantes e classes
oprimidas, cujas relações de dominação forjam-se em seu seio e apontam
para um processo de luta de classes permanente, envolvendo questões
econômicas, políticas e culturais-ideológicas.

2. Essa sociedade, conforme vem demonstrando a história, não caminha para
a autodestruição e, portanto, é a vontade das classes oprimidas,
organizadas nos movimentos sociais, que pode oferecer uma possibilidade de
mudança na correlação de forças da atual sociedade.

3. Os movimentos sociais são espaços privilegiados de organização das
classes oprimidas e, portanto, os organismos a partir dos quais essas
classes poderão acumular força social e aplicá-la no conflito de classes,
visando superar a força das classes dominantes.

4. Construir o poder popular implica, assim, desde já, organizar novos
movimentos sociais e integrar movimentos já existentes, defendendo uma
posição de fortalecimento permanente. E ele só poderá surgir e realizar-se
com e pelo povo, enquanto classe.

5. Ainda que o poder popular seja um projeto de longo prazo (quando a
força das classes oprimidas supera as forças das classes dominantes), ele
começa a desenvolver-se e se fortalece a partir das experiências de
mobilização e luta de curto prazo, forjadas sobre necessidades imediatas
da população. Portanto, construir o poder popular exige uma atuação
imediata e não de espera em relação a outros fatores que possam trazê-lo
sem maiores esforços, pois é na sociedade presente que se desenvolve o
embrião da sociedade futura.

6. O poder popular se fortalece na medida em que os movimentos sociais
utilizam a democracia direta como método decisório, ao tomarem decisões de
maneira igualitária e coletiva, fortalecendo a construção pela base, ou
seja “de baixo para cima” ou “da periferia para o centro”, e acabando com
as relações de dominação que existem dentro deles. Neste sentido, a
construção do poder popular envolve um processo de democratização dos
organismos de base, “um exercício da democracia solidária, de participação
direta e de construção da consciência de classe”, que só tem sentido a
partir de uma associação voluntária. Processo que se fortalece pelo
exercício permanente da autogestão e do federalismo, em “organismos
amplamente democráticos e participativos”, apropriando-se da política que
privilegia a esfera do Estado.

7. O fortalecimento do poder popular se dá a partir de iniciativas que têm
por objetivo dar protagonismo aos movimentos sociais, atuando pela ação
direta – e, portanto, fora das instâncias da democracia representativa –,
e com autonomia em relação a instrumentos, instituições e/ou indivíduos,
sendo capaz de autodeterminação e de auto-sustentação.

8. Democracia direta, ação direta e autonomia são mecanismos que, nos
movimentos sociais, criam horizontalidade, conhecimento e envolvimento com
os processos de luta, e, por isso, fortalecem o poder popular.

9. Esses mecanismos permitem exercitar, no seio das lutas dos movimentos
sociais, novas práticas, valores e sentimentos, que estimulam uma cultura
popular que contribui com a consciência de classe – em um processo que
surge a partir da luta das próprias classes oprimidas, de sua “‘práxis’
inovadora, lutas/reflexão, prática/consciência, erros/acertos” – e com
diversas outras práticas diferentes daquelas estimuladas pela atual
sociedade.

10. O poder popular constrói-se a partir de uma noção de dupla função dos
movimentos sociais: as lutas pelas questões de curto prazo e a perspectiva
de longo prazo e, portanto, envolve objetivos de curto e longo prazo.
Assim, o poder popular cresce à medida que os movimentos sociais
envolvem-se nas lutas imediatas e, superando a noção de curto prazo, são
capazes de aliar-se com outros, forjando as bases de uma ampla associação
das classes oprimidas, atuando conscientemente em proveito próprio e
buscando o socialismo.

11. As conquistas de curto prazo, que se poderiam chamar reformas, só
contribuem com o poder popular na medida em que são conquistadas pelos
movimentos sociais organizados pela base e, portanto, possuem função
pedagógica ao estimular o conjunto da militância “pensar, propor e fazer o
seu próprio destino e os destinos da comunidade, da região e de um país,
respeitando-se as diferenças culturais e as individualidades”.

12. Assim, o socialismo só pode ser uma ideologia que surge dos movimentos
sociais na construção do poder popular, envolvendo “lutas, mobilizações de
amplos setores populares em resistência. Não é ciência, mas ideologia, e,
portanto, envolve aspirações, valores e esperanças de classes, coletivos e
povos oprimidos.” Assim, entende-se que “a ideologia não vem de fora, se
produz no próprio seio das práticas, nas idéias e nos comportamentos que o
povo vai realizando através de seus diversos enfrentamentos.” Esse
socialismo só pode ser buscado a partir de uma perspectiva revolucionária,
que necessariamente envolve a defesa do poder popular.

13. O poder popular como socialismo realiza-se plenamente “em uma nova
sociedade de igualdade e liberdade, ou seja, uma sociedade em que o
domínio não exista e as associações e organizações sejam voluntárias,
não-alienadas e que não haja mais exploração e dominação; uma sociedade em
que haja liberdade individual, mas que esta se dê dentro da liberdade
coletiva.” E dessa forma, constitui-se como uma democracia popular, “um
permanente exercício de construção de hegemonia da classe trabalhadora, o
mais horizontal possível”.

14. Construir o poder popular implica uma reflexão crítica acerca dos
meios a serem utilizados, pois eles devem necessariamente apontar para os
fins escolhidos, ou seja, deve haver uma coerência entre meios e fins.
Isso implica um trabalho coerente de escolha de objetivos (curto e longo
prazo), de estratégias e táticas.

15. Meios equivocados levam a fins equivocados. Portanto, há “meios,
orientações, uso de instrumentos, utilização de instituições, forma de
organização de atividades sociais, que devem ser dispensados”. Utilizar a
lógica do atual sistema significa ser incorporado por ele, já que os
dispositivos atuais do poder vigente “absorvem, exprimem, fazem funcional
o que entra em sua circulação”. O conjunto institucional atual está “cheio
de produções constantes a favor de manter e reproduzir um tipo de ordem
social. De manter a dominação. Não parece ser uma boa estratégia escolher
as vias, os lugares e os trajetos que têm dono e o poder de imprimir seu
selo ao que ali entra.”

16. “‘Usar todos os meios’ pode ser uma maneira efetiva de assegurar que
não possa emergir nenhuma estratégia antagônica, portadora dos elementos
de desestruturação do sistema vigente”. Assim, o caminho é “não entrar no
núcleo duro do sistema com vistas à mudança” e, portanto, a atuação por
meio dos mecanismos institucionais do Estado deve ser descartada.

17. Meios que contribuem para o desenvolvimento do poder popular devem
necessariamente ser coletivos. Devem “criar novas formas de relações
humanas, novas relações societárias, novas relações políticas”,
cotidianamente, com foco em “como se orienta e concretiza o trabalho
político e social permanente”. No seio das classes oprimidas são
produzidas diariamente novas relações sociais, implicando mudanças
culturais significativas, relações essas que devem contribuir com os meios
de se construir o poder popular e condizer com seus objetivos. Em suma,
“se queremos liberdade, o nosso fazer tem que ser libertário”.

18. É, portanto, no seio das lutas que se constrói o poder popular e, por
conseqüência “outro sujeito histórico, tanto no pessoal como coletivo”. Um
sujeito que “não é determinado a priori, mas historicamente”, no seio das
lutas dos movimentos sociais.

19. A construção do poder popular implica a necessidade de uma
potencialização da força social dos indivíduos e dos movimentos sociais
que nela trabalham. Envolve, portanto o “bom aproveitamento de seus
recursos (materiais, humanos e organizativos), estruturas e processos”.

20. O estabelecimento de objetivos de curto e longo prazo, a coerência
entre meios e fins e a potencialização da força social apontam para a
eficiência dos movimentos sociais na construção do poder popular, por meio
do bom aproveitamento de seus recursos, das estruturas e dos processos
adequados.


Abraço,
té amanhã!
hugo
--------------------------- Mensagem Original ----------------------------
Assunto: Artigo - Movimentos sociais     , burocratização e poder popular
De:      Felipe Corrêa <felipe em riseup.net>
Data:    Qua, Outubro 6, 2010 12:35 pm
Para:    felipe em riseup.net
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* Com anexo.

Pessoal, escrevi um texto, a convite do Passa Palavra, que será publicado
em uma série de 5 artigos. Envio ele completo anexo, para quem tiver
interesse em ler. No entanto, não publiquem em lugar nenhum, visto que o
PP pede exclusividade até que tudo seja publicado (acho que isso levará
pouco mais de um mês, visto que sai um artigo por semana).

Espero que gostem. Comentários são bem-vindos.

Abraço,
Felipe


-------------- Próxima Parte ----------
Um anexo não-texto foi limpo...
Nome: Movimentos Sociais Burocratizacao e Poder Popular                  0910.doc
Tipo: application/msword
Tamanho: 256000 bytes
Descrição: não disponível
URL: <https://lists.aktivix.org/pipermail/bancariosdebase/attachments/20101006/d38e78d6/attachment-0001.doc>


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