[Bancariosdebase] Texto Rock in Rio
Daniel
tzitzimitl em terra.com.br
Sábado Outubro 1 23:35:04 UTC 2011
O texto abaixo faz parte da edição mais recente do jornal do
Espaço Socialista.
Daniel
"A sociedade que aboliu a aventura tornou a abolição dessa
sociedade a única aventura possível”
anônimo, pichado nos muros de Paris no maio de 1968
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O ROCK ERROU: DE WOODSTOCK AO ROCK IN RIO
“_Meus heróis morreram de overdose! Meus inimigos estão no
poder!_”
Cazuza, “Ideologia”
Entre os dias 23 de setembro e 2 de outubro acontece no Rio de
Janeiro o “Rock in Rio”, que se propagandeia como “o maior
festival de música e entretenimento do mundo”. A edição de 2011
é a 4ª que acontece no Brasil (depois daquelas de 1985, 1991 e
2001), mas é a 10ª no total, pois houve outras seis edições, sendo
quatro em Portugal (2004, 2006, 2008 e 2010) e duas na Espanha (2008 e
2010). Ou seja, já tivemos várias vezes o “Rock in Rio” fora do
Rio, pois se trata de uma franquia, uma marca comercial. Os
organizadores do festival assumem o seu caráter comercial sem o menor
constrangimento: “o Rock in Rio sempre buscou o pioneirismo em seu
modelo de negócios” (http://www.rockinrio.com.br/pt/rock-in-rio
[1]).
O pioneirismo talvez esteja em colocar Cláudia Leitte, Ivete Sangalo
e Rihana num festival de rock (curiosamente, ninguém pensa em
convidar o Metallica para o carnaval...). Grande contraste com o
festival original, de 1985, que teve como atrações nomes de peso
como AC/DC, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Queen, Scorpions, White Snake
e Yes. Mas o maior contraste está no fato de que em 1985 o país e
sua juventude comemoravam o fim da ditadura, com esperanças na
democracia, e Cazuza cantava: “Ideologia! Eu quero uma para
viver!”
Em se tratando de ideologia, o “Rock in Rio” 2011 reproduz o mote
dos anos anteriores: “Por um Mundo Melhor”, para dar a entender
que não se trata de simples comércio e sim de um evento
“engajado” em alguma “causa”. E os organizadores explicam que
estão “visando uma atuação sustentável e socialmente
responsável”, para deixar todos com a consciência tranqüila de
que os jovens estão preocupados com o futuro do planeta. Mas ninguém
questiona o que significa na prática esse mundo melhor, pois basta
propagar vagas preocupações ecológicas e filantrópicas. Na
essência, trata-se de uma celebração do mundo tal como ele é hoje,
de uma vida despolitizada, apática, indiferente, consumista,
imediatista, conservadora, ignorante, subjetivamente pobre,
alcoólatra, drogadita, sexualmente miserável.
Como o mundo pode ser melhor sem a abolição do capitalismo, da
exploração, da alienação, da opressão, do Estado, da guerra, da
violência, do preconceito, da miséria, da fome, das doenças, da
ignorância, em que vive a maioria da humanidade?
Se o “Rock in Rio” 2011 é uma patética imitação do festival
de 1985, que dizer então da comparação com o lendário Woodstock?
Até hoje considerado o maior festival de rock da história, Woodstock
aconteceu entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969 na área rural do
estado de Nova York, entre as cidades de Bethel e Woodstock.
Inicialmente, o festival também foi projetado como evento comercial,
pois também foram vendidos quase 200 mil ingressos. Entretanto, com a
aproximação do evento, 500 mil pessoas ocuparam o local,
transformando-o num festival gratuito e numa gigantesca celebração
dos ideais da juventude daquela época, a paz e o amor. Entre os mais
conhecidos apresentaram-se Joan Baez, Santana, Grateful Dead,
Creedence Clearwater Revival, Janis Joplin, The Who, Jefferson
Airplane, Joe Cocker, Crosby, Stills, Nash & Young, e por último, num
histórico ato de encerramento e de protesto, Jimi Hendrix, que tocou
o hino nacional estadunidense na guitarra, entremeando o som de bombas
caindo no Vietnã.
Para os mais puristas, Woodstock já era uma deturpação da
contracultura, cuja verdadeira celebração aconteceu dois anos antes,
no ainda mais lendário festival de Monterey, na Califórnia, entre 16
e 18 de junho de 1967, com apresentações simplesmente antológicas
de The Mamas & the Papas, Jefferson Airplane, Janis Joplin então
vivendo seu auge, The Who quebrando o palco e Jimi Hendrix
literalmente tocando fogo na guitarra.
Mais importante do que determinar quem foi melhor, Woodstock ou
Monterey, o fundamental é que a juventude daquela época, assim como
seguia os astros do rock nos shows e festivais, seguia Che Guevara e
as lutas do 3º mundo, seguia os pacifistas nos protestos contra a
guerra do Vietnã, seguia os Panteras Negras na luta pelos direitos
civis dos negros, seguia as militantes feministas, seguia os
homossexuais de Stonewall.
A juventude queria mudar o mundo e lutava para isso, mudando sua
própria vida, negando-se a aceitar o mundo do capitalismo consumista
(e em escala mundial, negando também o “socialismo” dos Estados
burocráticos da URSS e satélites, vide a primavera de Praga em
1968). O sexo, drogas e rock n' roll não era apenas marketing, era
uma aposta real num mundo mais humano. “Faça amor, não faça
guerra” era uma palavra de ordem revolucionária naqueles dias de
Guerra Fria e luta contra a repressão sexual. É por isso que a
música e os artistas daquela época permanecem cultuados até hoje,
pois o que cantavam tinha coerência com o que viviam.
A contracultura acabou naufragando, e o rock errou, perdeu sua
essência. O rock não é o gesto de tocar guitarra com um cabelo ou
roupa diferente (coisa que qualquer boneco montado pela indústria
musical pode imitar, vide os Restart e coisas do tipo), o rock é uma
atitude perante a vida, o que tem sido raro no meio artístico.
Mas isso pode mudar, pois os jovens de todo o mundo continuam
aspirando a uma vida autêntica. Novas gerações se levantam hoje na
Europa e nos países árabes, indignados, à procura dos novos Che
Guevaras e dos novos Jimi Hendrix, e como Cazuza, à espera de uma
ideologia, que ponha fim à crise da alternativa socialista, e
construa, pela luta e pelo amor, um mundo realmente melhor, um mundo
socialista!
PS. 1 Woodstock também virou franquia, pois outras duas edições
tão insignificantes quanto os “Rock in Rio” fabricados em série
aconteceram em 1994 e 1999.
PS. 2 “O rock errou” é o nome de uma música e de um disco de
1986 do cantor Lobão, que aliás, infelizmente, também errou, pois
hoje em dia se transformou em mais um aderente da moda reacionária
(entre outras coisas, defendendo a ditadura militar), sob o pretexto
de ser contra o politicamente correto, numa atitude completamente
sensacionalista e sem princípios.
On Qua 28/09/11 14:39 , iraviskaia iraviskaia iraviskaia em hotmail.com
sent:
Oi Dani, Não fiquei com nenhum jornal e preciso do texto sobre
o Rock in Rio prometi levar para uns alunos. Você tem cópia? Não
está na página. Ira
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