[Bancariosdebase] Rio+20 e Cúpula dos povos

Daniel tzitzimitl em terra.com.br
Sexta Junho 15 19:42:40 UTC 2012


  
 Nesses dias em que toda a mídia vai estar falando de Rio+20 e
mostrando um bando de políticos, "intelectuais", burgueses e
celebridades fingindo que se preocupam com o "meio ambiente", segue
uma contribuição para quem quer se aprofundar no assunto.
 Daniel
 _________________________________________ 
 “So, understand! You waste your time always searching for those
wasted years! 
 Face up! Make your stand! And realize your living in the golden
years!” 
 “Então, entenda! Você perde seu tempo sempre buscando por aqueles
anos perdidos! 
 Encare! Tome uma posição! E perceba que você está vivendo nos
anos dourados!” 
 Iron Maiden, “Wasted Years” 
 _________________________________________ 
	Contra a “Economia Verde” dos capitalistas, uma economia vermelha
dos trabalhadores! 
	Crítica ao Eco-Reformismo da Cúpula dos Povos 
	1. A farsa imperialista da Rio+20  
	Nos dias 20 a 22 de junho de 2012 acontece no Rio de Janeiro a
“Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável” da ONU, chamada
de “Rio+20”. A Conferência reunirá centenas de chefes de Estado
para discutir o projeto da chamada “Economia Verde”, que seria
simultaneamente uma saída para os problemas ambientais do planeta e
os impasses da economia capitalista. O projeto está materializado em
um documento intitulado “O Futuro que queremos” (original em
inglês em formato pdf disponível em:
http://www.uncsd2012.org/rio20/content/documents/370The%20Future%20We%20Want%2010Jan%20clean.pdf
[1], sendo que há uma tradução não-oficial disponível em:
http://cupuladospovos.org.br/2012/01/rascunho-zero-do-documento-final-para-a-rio20/
[2]).  

	A função dessas Conferências é garantir a continuidade da
produção destrutiva capitalista, tal como aconteceu com a Rio 92 e
acontecerá também com a Rio+20. Ao mesmo tempo em que se assinam
acordos que mantém intocados os crimes das corporações
capitalistas, consegue-se iludir a opinião pública mundial com
discursos sobre “desenvolvimento sustentável” ou “Economia
Verde”, onde a única coisa que se tenta sustentar é o lucro e a
única coisa verde são os dólares dos capitalistas. Sob o pretexto
de se preocupar com as mudanças climáticas e os problemas ambientais
do planeta, e ainda a fome, a miséria, a exclusão, etc., e um
conjunto de outras causas que aparecem nos discursos e declarações
oficiais, os governantes do mundo estarão garantindo às
corporações capitalistas a continuidade de seus lucros às custas da
destruição do planeta e das vidas humanas.  

	E ainda, estarão ampliando o fôlego da especulação financeira ao
transformar recursos naturais em ativos negociáveis nos mercados
financeiros. A grande novidade no documento da ONU é a possibilidade
da emissão de títulos negociáveis no mercado financeiro vinculados
à conservação de florestas, bacias hidrográficas, reservas de
biodiversidade, recursos naturais em geral, que assim passam à
jurisdição do capital financeiro. A lógica que preside o documento
dos governos e empresas capitalistas é de que é preciso atribuir um
valor econômico-financeiro aos recursos naturais, como florestas,
água, atmosfera, biodiversidade, etc., tornando-os passíveis de
serem negociados nos mercados financeiros, pois somente aquilo que tem
valor econômico pode ser preservado. Essa lógica identifica
propriedade com propriedade privada capitalista, como se não houvesse
outra forma de propriedade, de apropriação dos recursos naturais,
uma forma coletiva, comunista e racional. 

	Está subentendido que os camponeses, povos originários, comunidades
ribeirinhas, pescadores, extrativistas, etc., não sabem fazer bom uso
dos territórios em que habitam, não são capazes de preservá-los,
não merecem continuar usufruindo deles e podem ser expropriados e
removidos pelos meios que forem necessários, inclusive a violência
da polícia, milícias e jagunços, em benefício das corporações
capitalistas como mineradoras, petrolíferas, agronegócio, empresas
de energia, água, etc., que compreendem o verdadeiro sentido de
propriedade. Não se poderia esperar outra coisa de um órgão do
imperialismo mundial como a ONU. 
	2. A Cúpula dos Povos 
	Como contraponto ao evento oficial da Rio+20, acontece também no
Rio, entre os dias 15 a 23 de junho a “Cúpula dos Povos por
Justiça Social e Ambiental e contra a mercantilização da vida”.
Trata-se de um mega-evento que pretende aglutinar todos os setores
contrários ao projeto expresso na Conferência da ONU, aí incluídos
partidos políticos, centrais sindicais, movimentos sociais, ONGs e
outras organizações da chamada “sociedade civil”, tanto
nacionais como internacionais. Um breve olhar sobre a lista de
entidades brasileiras que participam da articulação da Cúpula
(disponível em: http://cupuladospovos.org.br/quem-organiza-a-cupula/
[3]), tais como CUT, CNBB, Via Campesina, Jubileu Sul, etc., ou seja,
componentes do que podemos denominar com muito boa vontade de “ala
esquerda do governo Dilma-PT”; já é suficiente para identificar a
linha política e ideológica que orienta o conjunto do evento.  

	Sobre a falta de combatividade dessas entidades e do evento, basta
lembrar que o governo que apóiam, ou com o qual no mínimo são
coniventes, o governo Dilma, acaba de aprovar o novo Código
Florestal, que seria muito melhor denominado como “código
ruralista”. O código legaliza a destruição da Amazônia, das
áreas de preservação, reservas, margens de rios, encostas e morros,
a grilagem de terras, a expulsão de trabalhadores sem-terra,
indígenas, quilombolas, comunidades ribeirinhas, extrativistas, etc.,
em benefício do agronegócio (nome que se dá à associação do
setor mais reacionário do latifúndio com o capital internacional).
Não vimos nenhuma das entidades organizadoras encabeçar nada além
de uma oposição protocolar ao código, muito menos uma ampla
campanha nacional com ações massivas de luta que seriam necessárias
para barrar sua aprovação. 

	Outro dado relevante para caracterizar a Cúpula é a lista de
apoiadores institucionais, como Caixa Econômica Federal, Fundação
Ford, Oxfam, e as Fundações Heinrich Böll e Friedrich Ebert. A
participação daquelas entidades governistas e dessas empresas
capitalistas leva à conclusão de que se trata de um evento que não
vai se contrapor de fato à Rio+20 oficial. A Cúpula vai funcionar
como uma oposição consentida e “bem-comportada” à Conferência
da ONU, para centralizar setores e organizações sociais e políticas
em torno de uma pseudo-alternativa ilusória. Essa pseudo-alternativa
não fará nenhum enfrentamento real contra o projeto da “Economia
Verde” e vai apenas confundir os setores da opinião pública que
com razão desconfiam da Rio+20.  

	Esses setores críticos vão se deparar com o festival de
pseudo-alternativas da Cúpula e estacionar no meio do caminho, sem
avançar em direção às raízes do problema ambiental. A Cúpula e
as organizações que a promovem funcionam assim como um anteparo
ideológico para impedir que se realize um avanço na consciência
crítica capaz de perceber que só com a superação do capitalismo
por um modo de produção socialista serão possíveis a
sobrevivência da humanidade e a preservação do ambiente
planetário. 
	3. As bases programáticas da Cúpula  
	Para uma crítica mais profunda da concepção expressa na Cúpula
não basta evidentemente apenas aquele breve olhar sobre a lista de
organizadores, é preciso questionar seus fundamentos
teórico-programáticos. Podemos encontrar esses fundamentos no
documento intitulado “Outro Futuro é Possível!” (disponível em
formato pdf em:
http://rio20.net/wp-content/uploads/2012/02/Outro-Futuro.pdf [4]),
produzido pelos Grupos Temáticos do Fórum Social Temático
preparatório da Cúpula dos Povos. Na sua apresentação, o documento
se pretende anti-neoliberal, anti-capitalista, “de esquerda” e
“progressista”, evoca princípios como ética, justiça social,
sustentabilidade e apela para sujeitos como “os povos” e a
“sociedade civil”, contra as corporações, os bancos e as
finanças mundiais. 

	O texto de 32 páginas contém uma série de propostas de reformas
organizadas em tópicos que tocam praticamente todos os temas
abordados na Conferência, tais como educação, conhecimento
científico, extrativismo e energia, agricultura e pesca, empregos
climáticos, consumo responsável, economia solidária, recursos
Comuns (sic), direito à água, saúde, migrantes, cidades,
governança mundial, etc. Não faremos a crítica detalhada das
propostas referentes a cada um desses tópicos, mesmo porque isso
sobrecarregaria por demais este texto e o tornaria tão longo quanto o
original que critica. Partiremos apenas de um dos conjuntos de medidas
propostas para identificar a lógica a partir da qual estão
estruturadas, lógica que preside todas as demais propostas
temáticas. Identificada essa lógica, veremos então quais são as
suas fragilidades políticas, a sua perspectiva de classe e as suas
inconsistências filosóficas. 

	Vejamos portanto inicialmente o que o documento propõe a respeito de
um dos temas particulares, o problema do acesso à água: 

	“- Reafirmamos nossa luta pelo direito à água e contra a sua
privatização ou apropriação indevida em detrimento da livre
circulação para a alimentação dos povos, de forma conjunta com a
luta por um ambiente são e sustentável. 

	- Defendemos a adoção de políticas públicas integradas a nível
local, nacional, regional e internacional, necessárias para garantir
a equidade de acesso e distribuição, a partir de uma ética de
preservação do recurso, do seu uso racional e de equidade social.  

	- O controle social sobre os Comuns (sic) que é a água, no sentido
amplo, é um corolário dessas ditas políticas.  

	- Denunciamos os processos de dessalinização da água do mar, que
não respeitam o princípio de precaução frente a tecnologias
ambientalmente insustentáveis.” (capítulo 18) 

	Essas medidas em si mesmas não parecem erradas. De fato é preciso
envidar medidas contra a privatização da água, contra a poluição,
contra a escassez artificial, pelo acesso à água, etc. Da mesma
forma prosseguem as propostas relativas a todos os demais eixos
temáticos, como agricultura, energia, consumo, etc. Para todos eles
se elencam medidas pontuais que em si parecem capazes de minorar ou
reverter os processos destrutivos em curso. 

	Entretanto, quem vai garantir essas medidas? Quem vai aplicá-las em
nível mundial? Quem vai ser o agente que vai combater a sanha
destrutiva das corporações? Será o Estado capitalista ou serão os
trabalhadores organizados, as comunidades indígenas e camponesas, os
povos em luta? O documento cita a todo momento a necessidade de
empoderar as comunidades locais e os povos do mundo inteiro contra o
Estado e as corporações. Mas qual é o horizonte dessa luta? Até
onde vai a sua oposição ao Estado e às corporações? É o que
veremos no próximo ponto. 
	4. Fragilidades políticas 
	Aparentemente, o documento realiza uma dura denúncia do controle que
as grandes corporações capitalistas exercem hoje sobre as riquezas
do planeta, inclusive os seus recursos naturais. Acertadamente, o
documento denuncia a escandalosa desigualdade social que vigora hoje
no mundo:  

	“Em um mundo em que 50% da população pobre respondem por 1% das
riquezas do planeta, nos quais as três pessoas mais ricas do mundo
têm o mesmo rendimento que os 600 milhões mais pobres, não será
possível erradicar a pobreza nem restabelecer a harmonia com a
natureza.” (capítulo 8) 

	Indo além, o documento preparatório da Cúpula denuncia também a
“Economia Verde” que está sendo proposta na Rio+20: 

	“Em consequência, a Economia Verde trata a natureza como capital
– 'capital natural'. A Economia Verde considera que é essencial
atribuir um preço às plantas, aos animais e aos ecossistemas para
mercantilizar a biodiversidade, a purificação da água, à
proteção dos recifes de coral e ao equilíbrio climático. Para a
Economia Verde é necessário identificar as funções específicas
dos ecossistemas e da biodiversidade para avaliar sua situação
atual, fixar um valor monetário e concretizar em termos econômicos o
custo de sua conservação para desenvolver um mercado por cada
serviço ambiental particular. Para os ideólogos da Economia Verde,
os instrumentos de mercado seriam ferramentas para superar 'a
invisibilidade econômica da natureza'.(idem) 

	E conclui: 

	“A Economia Verde é uma manipulação cínica e oportunista das
crises ecológica e social. Em lugar de tratar as verdadeiras causas
das desigualdades e as injustiças, o capital se está servindo de um
discurso 'verde' para lançar um novo ciclo de expansão. As empresas
e o setor financeiro necessitam que os governos institucionalizem as
novas regras da Economia Verde para assegurarem-se contra os riscos e
criar um marco institucional para abarcar partes da natureza nas
engrenagens financeiras.”(idem) 

	Entretanto, por trás dessa crítica aparentemente radical, se
esconde o mais impotente reformismo. Qual é o agente, como
perguntamos no ponto acima, que vai frear o avanço dessa
privatização desenfreada da natureza, que está dando mais um salto
na Rio+20? Vejamos como se encaminha a resposta: 

	“O desafio da Rio+20 está na definição dos processos decisórios
para a sua implementação, dada a inoperância dos mecanismos
multilaterais de gestão. Siglas como FMI, BM, OMC não estão à
altura desta responsabilidade. A própria ONU, parceira indispensável
das mudanças, encontra-se profundamente fragilizada.”(capítulo 20)


	A ONU é definida como “parceira indispensável das mudanças”.
Mas o que é a ONU senão um rascunho mal-acabado de Estado mundial
que funciona como instrumento das maiores potências imperialistas? O
problema da ONU não é o fato de que ela esteja “profundamente
fragilizada”, mas se deve à sua própria natureza, à sua essência
de instituição que preserva e reproduz as relações de poder
vigentes a serviço do imperialismo mundial. A ONU tal como existe é
irreformável. Em várias passagens, porém, o documento preparatório
da Cúpula reproduz a crença na ONU como instituição capaz de ser
empregada como instrumento dos povos, basta que seja reformada: 

	“É evidente que a governança das relações entre os Estados,
regulada pelo sistema das Nações Unidas depois da Segunda Guerra
Mundial e do período de descolonização posterior, já não responde
aos desafios do presente. (…) As propostas de democratização dos
organismos das Nações Unidas referidas às questões da
sustentabilidade deverão ser definidas e implementadas também nas
questões relativas à paz e à segurança internacional. Deve haver
um reequilíbrio democrático do Conselho de Segurança, com abertura
a novos atores, não somente a Estados que permanecem marginalizados,
mas também aos atores e organizações sociais nos diversos
territórios e regiões, assim como as redes e organizações em
escala mundial.” (capítulo 23) 

	A ONU é encarada como uma espécie de parlamento mundial dos Estados
nacionais. Quando a maioria dos Estados nacionais estiver a favor das
mudanças propostas no programa da Cúpula, estes vão, por sua vez,
transformar a ONU no instrumento que vai garantir a sua aplicação em
escala mundial, que seria capaz de disciplinar os Estados
recalcitrantes. Como se fosse possível impor algum tipo de medida,
por exemplo, contra os componentes do Conselho de Segurança, que
pudesse forçá-los a aceitar uma divisão democrática de poderes.
São justamente os mais poderosos Estados imperialistas, como Estados
Unidos, Japão e União Européia os que mais se beneficiam da ordem
capitalista vigente e os que controlam todos os mecanismos da ONU. Em
todas as questões decisivas a ONU é absolutamente incapaz de impor
qualquer medida que contrarie os interesses da tríade imperialista.
Basta lembrar as incontáveis resoluções contra o bloqueio
estadunidense a Cuba ou contra o genocídio dos palestinos nas mãos
de Israel, as quais viram letra morta, pois nenhuma resolução é
capaz de se impor contra os poderes prevalecentes.  
	5. Perspectiva de classe 
	5.1. A crença no Estado 
	A crença na ONU é, por sua vez, um subproduto da crença no Estado
como agente de mudanças que possam beneficiar os trabalhadores e os
povos. Essa crença no Estado transparece a todo momento no documento
preparatório da Cúpula, em trechos como o seguinte: 

	“Um Estado respeitoso dos direitos dos cidadãos é condição de
institucionalidade democrática do poder. (...) Os sistemas de
representação vigentes não correspondem às exigências de uma
participação ativa. O prioritário é potenciar a participação
implantando sistemas de informação transparentes e mecanismos de
consulta abertos para que a tomada de decisões seja eficaz. Mas
trata-se de ir mais fundo. É preciso radicalizar a democracia, tanto
das instituições estatais como da sociedade em seu conjunto. Assim,
progressivamente, se irá transformando o Estado e os sistemas de
representação repensando novas instituições políticas.”
(capítulo 23) 

	A chave da questão é a concepção de que se pode ir
“transformando o Estado” em direção às mudanças necessárias.
Ora, o Estado nacional, qualquer que seja ele, imperialista ou
dominado, é a instituição das instituições, o pilar fundamental
da ordem capitalista. Qualquer possibilidade de que os trabalhadores
se apossem de porções do Estado para fazer valer seus interesses vai
se deparar com a reação brutal das classes dominantes, como já
aconteceu em outros momentos da história, com o fascismo e as
ditaduras militares.  

	Não há outra solução a não ser “quebrar a máquina do
Estado”, como já ensinou Lênin em “O Estado e a Revolução”.
As “novas instituições políticas”, por sua vez, não podem ser
outras que não as organizações surgidas do próprio processo de
luta dos trabalhadores e dos povos. Os conselhos de trabalhadores da
cidade e do campo devem ser os organismos que vão administrar
coletivamente e racionalmente os recursos naturais, e não as
instituições do velho Estado capitalista “reformadas”. 

	Chegamos assim ao limite que impede o documento preparatório da
Cúpula de propor soluções reais para os problemas sociais e
ambientais do planeta, a sua crença na capacidade de agir por dentro
das instituições do Estado e de reformá-las para colocá-las a
serviço das mudanças necessárias. A concepção que orienta o
documento preparatório da Cúpula realiza um imenso exercício de
contorcionismo teórico para evitar a menção do único processo que
poderia viabilizar as mudanças, ou seja, quebrar a máquina do Estado
e construir novas instituições: a revolução socialista. 
	5.2. A questão da democracia  
	Ao invés disso, o método em que se aposta é a “democracia”,
compreendida como algo absolutamente abstrato: 

	“A democracia é guiada pelos princípios e valores éticos da
liberdade, igualdade, diversidade, solidariedade e participação,
todos juntos e ao mesmo tempo. O método democrático pode transformar
tudo o que se afirmou anteriormente como fundamentos civilizatórios
em uma utopia possível, potenciando o surgimento de uma nova
arquitetura de poder, do local ao mundial.” (capítulo 3) 

	Essa democracia não tem qualquer caráter de classe. Ou seja, não
está especificado se se trata da democracia burguesa tal como existe
hoje ou da democracia operária que precisa ser posta em prática.
Fala-se simplesmente em “democracia”, como se a democracia que
existe hoje não tivesse um caráter de classe, ou seja, como se a
democracia representativa e o Estado burguês não fossem
essencialmente impermeáveis a qualquer mudança radical. Como se a
burguesia não fosse capaz de abrir mão de métodos democráticos
assim que lhe convier (lembramos acima os casos do fascismo e das
ditaduras) para preservar seus interesses. Como se no próprio
processo da crise econômica em andamento a burguesia não fosse capaz
de impor os governantes que lhe interessam ao arrepio do processo
democrático formal e das vontades dos eleitores, como acabamos de ver
na Grécia e na Itália. Como se a democracia hoje em vigor não fosse
capaz de empreender a mais dura repressão contra os trabalhadores em
greve ou os movimentos sociais em luta, com tropas de choque,
prisões, mandados judiciais, processos administrativos,
perseguições, etc., todos desencadeados dentro da mais absoluta
legalidade democrática. 
	5.3. A questão das classes 
	Essa crença no Estado burguês e na sua democracia decorre de uma
debilidade programática ainda mais fundamental, a falta de uma
perspectiva de classe claramente definida. O documento preparatório
da Cúpula não especifica quem é o agente social das medidas
necessárias para a reorganização social e ambiental, nem o processo
político e o regime social necessários para obtê-los. Ao invés
disso, passeia sem o menor rigor sobre uma paisagem pós-moderna
repleta de “atores” e “múltiplos sujeitos”: 

	“Múltiplas dimensões do que pode e deve ser uma nova
subjetividade vem sendo forjados nestas lutas anti-sistêmicas e devem
ser tematizadas conscientemente, se quisermos apresentar uma
alternativa dotada de credibilidade. Devem ser debatidas e
sistematizadas como valores, formas de conhecimentos, visões de mundo
e cultura contra-hegemônica.”(capítulo 2) 

	Ao falar em subjetividades que “estão sendo forjadas nas lutas
anti-sistêmicas”, não se trata simplesmente de agregar novos
sujeitos sociais aos processo de luta. Se trata de criar algo que não
só pode como “deve ser uma nova subjetividade”. O documento está
evidentemente rejeitando a subjetividade do movimento operário e da
revolução socialista. Isso está expresso com todas as palavras num
outro trecho: 

	“Não há solução para os dilemas societários fora das lutas
sociais e das grandes disputas políticas. Mas esta visão, que
orientou a quase totalidade das mobilizações progressistas da
história, não é suficiente. (...) Emancipação, libertação,
eliminação de todas as formas de exploração e opressão são
objetivos que os movimentos progressistas se propõem alcançar,
socialistas ou de esquerda com força cada vez maior ao longo dos
últimos séculos. Mas retomar hoje esses objetivos requer muito mais
do que reavivar os ideais de 'liberdade, igualdade e fraternidade' ou
de eliminação da exploração do trabalho pelo capital. Requer
questionar as bases sobre a qual se assentou a modernidade, o
capitalismo e a dominação europeia do mundo, requer uma revolução
mental que abale a infraestrutura intelectual compartilhada não só
pelas elites capitalistas, mas também por boa parte dos movimentos
que procuraram até hoje combatê-las.” (idem) 

	Ora, é perfeitamente legítimo que os proponentes do projeto
político expresso no documento preparatório da Cúpula pretendam
substituir a revolução socialista e a classe operária por um outro
processo de transformação a ser realizado por um outro sujeito
social (ou conjunto de sujeitos). Mas fazer essa substituição requer
no mínimo um balanço consistente e circunstanciado dos motivos que
levaram ao fracasso dos processos baseados no projeto socialista e no
movimento operário, como por exemplo, a Revolução Russa. Se se
trata de descartá-los, é preciso dizer porque não funcionaram e
não servem mais. Não encontramos nem sinal desse balanço no
documento preparatório da Cúpula. Não encontramos nenhuma tentativa
de balanço que explique os motivos internos e externos da derrota da
Revolução Russa, de seu isolamento e burocratização, sua posterior
decomposição, etc. Não encontramos em conseqüência disso nenhuma
explicação de porque as derrotas históricas de processos como a
Revolução Russa servem como justificativa para descartar a
revolução socialista como projeto e para substituir esse projeto e
seu sujeito social por algum outro. 
	5.4 A diversidade da classe trabalhadora 
	Essas questões transcendentais são simplesmente ignoradas. A
emergência dos “novos sujeitos” capazes de por em prática um
outro projeto de transformação social é tratada como uma evidência
definitiva e estabelecida, e como se fosse por si só suficiente para
descartar a necessidade desse espinhoso debate sobre os lineamentos do
projeto societário a ser construído. Como corolário, também fica
ausente um outro debate: a emergência das “múltiplas dimensões”
de uma “nova subjetividade” que “vem sendo forjados nestas lutas
anti-sistêmicas” é necessariamente incompatível com o projeto
socialista orientado a partir da classe operária? 

	Para dizer claramente e dar nome aos bois, a luta dos povos
originários, dos camponeses, das comunidades ribeirinhas e
extrativistas, dos remanescentes quilombolas, das minorias étnicas e
religiosas marginalizadas e discriminadas em cada país, dos
trabalhadores sem terra, sem teto, das mulheres, dos negros, dos
homossexuais, da juventude, dos coletivos de artistas e mídia
independente, etc., são necessariamente incompatíveis com o projeto
socialista orientado a partir da classe operária? Ou ao contrário,
todos esses movimentos não tem muito mais a ganhar ao se lhes
acrescentar a dimensão programática da abolição da propriedade
privada, da socialização dos meios de produção, do controle social
e racional dos recursos naturais e tecnológicos, da abolição do
Estado e implantação da democracia direta, etc.; dimensões que são
patrimônio histórico do movimento operário e suas organizações de
perfil socialista revolucionário? Isso não contribuiria para superar
o atual isolamento desse diversos movimentos específicos e não
possibilitaria lutas muito mais massivas e unitárias? Não tornaria
todos esses movimentos mais próximos de atingir suas metas
específicas? 

	Entendemos que sim, por isso discordamos da perspectiva expressa no
documento preparatório da Cúpula. As reivindicações específicas
desses movimentos não são apenas palavras de ordem táticas para
engrossar o movimento socialista, são a expressão de necessidades
vitais de setores da classe trabalhadora, que não podem ser colocadas
sob a “subordinação” ou “em obediência” a outros setores.
Essas reivindicações precisam ser incorporadas e desenvolvidas em
toda sua radicalidade pelo movimento socialista e suas organizações,
se se deseja realmente avançar para novas relações sociais
efetivamente emancipadas. A questão é que as reivindicações gerais
e específicas só podem ser atendidas por um movimento que supere a
ordem capitalista (o que não significa que devem esperar pela
revolução socialista para serem postas em pauta). É o próprio
curso da luta que vai determinar qual o eixo de luta, se de natureza
sindical ou social, vai ter maior poder de mobilização sobre a
classe trabalhadora e vai fazê-la se chocar com a ordem estabelecida,
colocando na ordem do dia a tomada do poder e a transformação
social. 

	Mas é preciso ir além. Não basta apontar a ausência (na verdade
rejeição) do projeto socialista e da classe operária na concepção
expressa no documento preparatório da Cúpula, é preciso apontar as
deficiências intrínsecas dessa concepção, o que faremos a seguir. 
	6. Inconsistências filosóficas 
	O trecho citado acima diz que o projeto de emancipação deve não
apenas rejeitar ou superar o “velho” movimento operário e o
“velho” projeto da revolução socialista, pois: “Requer
questionar as bases sobre a qual se assentou a modernidade, o
capitalismo e a dominação europeia do mundo, requer uma revolução
mental que abale a infraestrutura intelectual compartilhada não só
pelas elites capitalistas, mas também por boa parte dos movimentos
que procuraram até hoje combatê-las.”  

	Ou seja, sob o pretexto de realizar uma crítica ainda mais profunda
e radical do conjunto da civilização, o documento preparatório da
Cúpula evita o debate concreto sobre qual civilização estamos
falando (capitalista), quais os poderes que a governam (Estados
imperialistas), quais os instrumentos de que se servem para sua
dominação (democracia burguesa), quais as suas instituições
fundamentais (propriedade privada), qual a sua situação atual (crise
estrutural), qual a correlação de forças vigente (a crise
capitalista coincide com crise a da alternativa socialista), quais os
processos necessários para a superação dessa ordem (revolução
socialista), qual o sujeito desse processo (a classe trabalhadora com
todos os seus segmentos).  

	Ao invés desse debate complexo, empreende-se uma pretensiosamente
audaciosa refundação filosófica do projeto emancipatório. Dentro
dessa refundação, a própria “infraestrutura intelectual” dos
movimentos que procuraram até hoje combater a ordem capitalista
precisa ser reformulada, pois é preciso “questionar as bases sobre
a qual se assentou a modernidade”, não apenas o capitalismo.
Trata-se de questionar os valores que herdamos do Renascimento e do
Iluminismo, mais do que apenas os valores impostos pelo capitalismo. O
problema da humanidade não seria a apropriação privada da
produção coletiva, realizada pelo capitalismo, mas o desrespeito à
“Mãe Terra” por conta da pretensão cientificista e eurocêntrica
de tudo conhecer para dominar e produzir além dos limites. 
	6.1 O deslocamento para a cultura 
	Eis como se anuncia essa refundação filosófica: 

	“O primeiro passo desta tarefa é profundamente filosófico:
necessitamos renovar nossa visão da humanidade para situar as
atividades humanas dentro do contexto mais amplo da Vida e da Mãe
Terra. Como seres humanos, somos somente uma parte desta matriz
interdependente que nos dá fonte de vida, nos integra e nos abre os
horizontes de um destino comum planetário em relação indivisível,
complementária e espiritual com os demais seres vivos. Cada ser, cada
ecossistema, cada comunidade natural, espécie e outras entidades
naturais, se definem por suas relações como parte integrante da Mãe
Terra. Essa é a fonte de vida, alimento, ensinamento, de onde provém
tudo o que necessitamos para um bem viver justo e equilibrado.”
(capítulo 16) 

	Podemos concordar que é necessário repensar as atividades humanas
numa escala planetária e histórica. Mas essa história é concreta e
possui momentos determinados, como a sociedade de classes e o
capitalismo. Vejamos como é compreendido o capitalismo dentro desse
novo projeto filosófico: 

	“O capitalismo é mais que um modo de produção. É uma lógica
social e política que se irradia por todo o corpo social. Sua lógica
não só estrutura instituições e concentra poder, mas também está
internalizado em nós. Atravessa os nossos corpos. Coloniza as nossas
mentes. Ocupa a nossa terra. Emancipar-se dessa colonização e
eliminar todas as formas de dominação é o objetivo a ser alcançado
pelos movimentos progressistas. Isso requer questionar as bases sobre
a qual se assentou a modernidade. Requer uma revolução mental que
abale a infraestrutura intelectual vigente. Também temos que
modificar a nós mesmos, já que as instituições e as lógicas
mercantis se reproduzem nos indivíduos e são eles que mantêm essas
estruturas funcionando.”(capítulo 2) 

	Todas essas afirmações são aparentemente irretocáveis. Mas, ainda
que o capitalismo seja “mais que um modo de produção” ele
continua sendo um modo de produção, que precisa ser combatido
enquanto tal, ou seja, por meio de uma revolução política e
econômica. Para evitar o problema da revolução política e
econômica (expropriação da burguesia, destruição do Estado,
ditadura do proletariado etc., ), o problema é deslocado do âmbito
das relações de produção em que vige o capitalismo para o das
esferas culturais. O inimigo da humanidade seria um certo viés
cultural, o “eurocentrismo”, que desrespeita as culturas locais,
coloniza os continentes, escraviza os negros, extermina os povos
originários, submete as mulheres ao patriarcado, destrói a “Mãe
Terra”, etc. Não se percebe que esse “eurocentrismo” não é a
fonte dos males, mas a sua forma ideológica, a expressão de
determinadas relações de produção muito precisas, as relações
capitalistas. São essas relações que, para se desenvolver, exigem a
opressão das culturas locais, dos negros, dos povos originários, das
mulheres, etc., bem como a destruição do meio ambiente.  

	Mais grave do que isso, não só o problema é deslocado para a
esfera das relações culturais, como a “solução cultural” que
se dá para a colonização mental capitalista está radicalmente
equivocada. Não negamos que a superação do capitalismo por
relações emancipadas exigirá uma profunda reformulação cultural,
muito pelo contrário. Será preciso sim repensar as relações
políticas e econômicas, mas também as relações sociais em geral,
relações entre os povos, entre as gerações, entre os gêneros, o
direito, os costumes e comportamentos, a moral, a sexualidade, as
concepções de ciência, arte, etc. Sem reformular todas essas
esferas não se supera a alienação capitalista.  
	6.2 A questão da ciência 
	A questão é que a “revolução mental” proposta não avança na
direção de realizar essa necessária desalienação e
descolonização dos corpos e mentes, mas ao contrário. Ao invés de
partir dos elementos críticos da cultura existente e de seu potencial
de negação da sociedade capitalista, rejeita-se essa cultura como um
todo, os elementos críticos inclusive. A herança cultural da
sociedade em que surge o capitalismo, a sociedade européia, traz
consigo, além dos valores liberais do individualismo burguês, os
valores do humanismo e do iluminismo. Em certos momentos o documento
parece oscilar entre uma condenação total desses valores e um
resgate parcial deles. Vejamos o que diz sobre a ciência: 

	“A ciência é um padrão de conhecimento eurocêntrico que se
alicerça no pressuposto de que se deve conhecer para se transformar e
submeter, um padrão de conhecimento indelevelmente antropocêntrico e
patriarcal, avesso à democracia e tecnocrático, porque fundado na
separação entre os que conhecem e os que não conhecem? Ou a
ciência é portadora de valores cognitivos úteis para compreendermos
a Terra e sua dinâmica, valores que ainda carregam um potencial
emancipatório e são importantes para o estabelecimento de uma
sociedade sustentável?” (capítulo 5). 

	Aqui existe uma flagrante confusão entre a ciência como método
cognitivo e a ciência como conjunto de atividades vinculadas ao
processo produtivo capitalista. A ciência não está fundada numa
separação entre os que conhecem e os que não conhecem. É a
apropriação privada da ciência pelo capitalismo que impede que os
conhecimentos científicos sejam apropriados coletivamente por todos.
É a propriedade privada capitalista que cria a separação entre os
que conhecem e os que não conhecem. Quanto ao método científico em
si, é absolutamente contingente que um determinado cientista realize
uma descoberta e naquele momento imediato “saiba mais que os
outros”. Não está na natureza desse conhecimento que ele exclua
todos os demais segmentos sociais. Isso está na natureza das
relações sociais que vigoram na sociedade em que o cientista
trabalha.  

	São essas relações que tem que ser rompidas para que o conjunto da
sociedade se aproprie daquele conhecimento particular. Para que a
própria ciência como método cognitivo se desenvolva, seria
fundamental que todos os cientistas pudessem trabalhar em
cooperação, partilhando livremente suas descobertas parciais, em
direção a conhecimentos mais totalizantes. A cooperação é muito
mais produtiva do que a competição capitalista hoje em vigor, com os
cientistas assalariados pelas corporações e suas descobertas
patenteadas e escondidas da sociedade. A ciência é uma das forças
produtivas cujo desenvolvimento está bloqueado pelas relações
capitalistas. Não se trata pois de rejeitar a ciência, mas de
libertá-la das relações capitalistas. 
	6.3 Os “direitos da Mãe Terra” 
	Entretanto, o documento preparatório da Cúpula não oscila por
muito tempo entre a condenação e o resgate da ciência, ele foge
desse falso dilema realizando a negação dos valores em que o método
científico está fundado. Nega-se o humanismo, ou seja, a capacidade
do homem de conhecer o mundo e determinar seu destino sem depender de
nenhuma outra força. O humanismo é rejeitado com o nome de
“antropocentrismo”. O homem deve ser deslocado do centro do
projeto emancipatório em favor do reconhecimento de direitos a uma
outra entidade superior, a “Mãe Terra”. Os direitos humanos, na
verdade, são incompatíveis com os direitos da “Mãe Terra”: 

	“Não se pode seguir falando em termos genéricos sobre os direitos
humanos como se fossem um conjunto de conquistas plenamente
compatíveis entre si, e cuja extensão/ampliação/defesa
significassem necessariamente um avanço no caminho para a
emancipação humana. Uma lógica de permanente expansão dos direitos
humanos não é compatível com os direitos da Mãe Terra (se for
efetivamente uma janela para outro padrão civilizatório, e não só
uma consigna), é absolutamente necessário repensar de forma radical
toda a tradição dos direitos humanos que, além do seu núcleo
liberal, é profundamente antropocêntrica.” (capítulo 15) 

	Ora, a tradição dos direitos humanos possui um núcleo liberal, a
idéia da emancipação como emancipação meramente política, no
âmbito do reconhecimento da cidadania, que confere direitos iguais
aos indivíduos entendidos como abstrações descoladas de relações
de produção determinadas. Como se o comprador e o vendedor de força
de trabalho fossem iguais apenas porque a lei os reconhece como
iguais. A superação desse núcleo liberal consiste em ir além da
emancipação política e lutar pela emancipação humana, não apenas
no campo dos direitos dos cidadãos, mas no campo das relações
materiais efetivas em que os homens reproduzem a sua existência.
Exige portanto aprofundar o humanismo e não negar o
“antropocentrismo”.  

	Contraditoriamente, a concepção expressa no documento preparatório
da Cúpula quer exatamente reconhecer a “Mãe Terra” como sujeito
de direito e reconhecer-lhe a cidadania política como mais uma
personalidade abstrata, no mesmo plano da concepção liberal que
aparentemente critica. Ao invés de tratar concretamente da relação
produtiva do homem com a natureza, uma relação que deve ser
reequilibrada (corrigindo os danos causados pela produção destrutiva
capitalista), trata-se abstratamente da “Mãe Terra” como sujeito
de direito dotado de uma personalidade própria. 

	“É por isso que expomos aos povos do mundo a revalorização dos
conhecimentos, sabedorias e práticas ancestrais dos povos indígenas,
afirmados na vivência de um bem estar enraizado no conceito de 'Bem
Viver'. Da mesma forma, as economias devem estabelecer medidas de
precaução e restrição para prevenir que as atividades humanas
conduzam à extinção de espécies, à destruição de ecossistemas
ou alteração dos ciclos ecológicos. Como corolário deve garantir
que os danos causados por violações humanas dos direitos inerentes a
Mãe Terra sejam expostos e que os responsáveis prestem contas para
restaurar a integridade e a saúde da Mãe Terra.” (capítulo 16) 
	6.4 O humanismo em questão 
	De acordo com a concepção acima, é em respeito à “Mãe Terra”
e sua saúde que se deve parar com a destruição do meio ambiente.
Pede-se que o homem seja comedido em sua relação com a natureza, em
nome de uma ética abstrata entre dois sujeitos de direito igualmente
abstratos, o homem e a natureza. Mas o homem não é uma abstração,
é um homem concreto, que vive numa situação histórica concreta,
sob o império de relações de produção determinadas, as relações
capitalistas, que não respeitam qualquer limite em sua expansão. Sem
falar em termos concretos, tudo que se pode fazer é uma predicação
moral para que o homem “respeite a natureza”. Mas qual é a medida
desse respeito? Quantos milhões de toneladas de aço se pode extrair
respeitosamente da “Mãe Terra” e quantos representam um
desrespeito? Como fixar essa medida, em relação a qualquer recurso
natural? Se fosse possível calcular essa medida, como fazer qualquer
país respeitá-la? Como estabilizar uma medida aceitável de consumo
de recursos naturais num planeta em que as condições de vida variam
da miséria ao extremo luxo? 

	Só é possível responder às questões acima tendo como referência
as necessidades do homem, e não da natureza. A relação responsável
e equilibrada com a natureza é uma necessidade humana, mas que não
pode ser satisfeita sob as atuais relações de produção. É o homem
que deve ser o centro das reflexões e das propostas. O humanismo (que
tem origem no Renascimento, avança no Iluminismo e desde o século
XIX sobrevive no projeto socialista) reafirma a prerrogativa do homem
de dispor da natureza para aumentar seu bem estar material. Nesse
sentido, o humanismo é uma conquista histórica em relação a todos
os modos de pensar religiosos, obscurantistas, supersticiosos,
reacionários, que prescreviam limitações a essa prerrogativa
humana. Uma conquista histórica à qual não podemos jamais
renunciar! O que se trata de determinar é se o uso que se faz da
natureza pode ser prolongado indefinidamente ou não. Não está
implícito no humanismo que o uso da natureza seja feito de forma
destrutiva. Isso é uma característica da produção capitalista. 

	Dentro das relações de produção capitalistas os produtos do
trabalho humano têm a forma de mercadorias, com um duplo caráter de
valor de uso e valor de troca. A condição das mercadorias de
portadoras de um valor de uso está subordinada à sua função de
realizar o valor de troca nelas contido, concretizando a reprodução
ampliada do capital. Isso significa que o valor de troca tende a se
impor sobre o valor de uso até sua quase completa anulação. As
mercadorias deixam de ter relação com necessidades reais e passam a
visar apenas a realização do lucro. Daí a fabricação constante de
novas necessidades artificiais, bem como a obsolescência programada
das mercadorias (produtos com tempo de vida útil cada vez mais curto,
que precisam ser substituídos por novos produtos, e assim
sucessivamente). O capital só pode existir em expansão permanente,
daí sua necessidade de produzir e vender sempre cada vez mais
mercadorias, mesmo que o valor de uso real de tais mercadorias seja
reduzido ao mínimo. Durante um certo período histórico, o impulso
do capitalismo para produzir sempre mais foi um avanço. Desde o
século XIX, quando surge o projeto socialista, com uma proposta de
controle social sobre as forças produtivas, o capitalismo é um
retrocesso das forças produtivas humanas, que se tornam forças
destrutivas. 

	Para completar o raciocínio em relação ao humanismo, a faculdade
de dispor da natureza não significa necessariamente a sua
destruição. Ao contrário, a emancipação do homem, que é o motor
do humanismo, é inseparável da manutenção de condições que
garantam a sua sobrevivência material. Ou seja, o humanismo
pressupõe um intercâmbio com a natureza que possa se prolongar
indefinidamente. Ou seja, só o humanismo pode garantir a
preservação da natureza. Não se trata pois de rejeitar a
centralidade do homem, em favor do culto à “Mãe Terra”, mas de
reafirmar o humanismo. Mas que fique bem claro, trata-se do humanismo
socialista. 
	6.5 A manipulação da sensibilidade ecológica 
	Voltando ao documento preparatório da Cúpula e sua prédica contra
o “antropocentrismo”, reafirmamos que não é preciso descartar a
ciência para deter a destruição capitalista da natureza, ao
contrário. Ao invés de um balanço crítico da relação entre a
ciência e o capitalismo, o documento prefere “jogar fora o bebê
com a água do banho” e rejeitar a ciência como parte do bloco das
relações capitalistas. Em seu lugar, enunciam-se como postulados
outros princípios alternativos capazes de estruturar um intercâmbio
mais equilibrado do homem com a natureza. Esses princípios são os do
“Bem Viver”, expressos na forma de mandamentos éticos: 

	“Harmonia e equilíbrio entre todas as pessoas e com elas;  

	Complementaridade, solidariedade, e equidade;  

	Bem estar coletivo e satisfação das necessidades fundamentais de
todas as pessoas em harmonia com a Mãe Terra;  

	Respeito aos direitos da Mãe Terra e aos Direitos Humanos;  

	Reconhecimento do ser humano pelo que é e não pelo que tem;  

	Eliminação de toda forma de colonialismo, imperialismo e
intervencionismo;  

	Paz entre os Povos e com a Mãe Terra.” (capítulo 16) 

	Esses princípios foram enunciados na Conferência Mundial dos Povos
sobre as Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra organizada
na Bolívia, em abril de 2010. A Bolívia é a sede do governo de Evo
Morales, um dos integrantes da onda do nacionalismo burguês reciclado
que contagiou a América do Sul no início da década passada. Esse
nacionalismo burguês reciclado, que tem como base social os
camponeses e povos originários, os trabalhadores mais pobres, as
vítimas que mais sofrem com a exploração capitalista, é um projeto
que na verdade não avança em nenhuma reforma significativa contra o
capitalismo (por isso nem sequer merece ser chamado de reformista).
Esse mesmo nacionalismo burguês que não rompe com o capitalismo, mas
canta odes ao “socialismo do século XXI”, é o mesmo que reprime
os povos originários em conflito contra a exploração mineira no
Equador de Rafael Correa ou contra a abertura de estradas na mesma
Bolívia de Evo Morales, que garante a implantação de indústrias de
celulose na Argentina de Cristina Kirchner, que persegue dirigentes
sindicais independentes na Venezuela de Chávez, entre outras
façanhas... 

	Pois bem, assim como o Brasil de Dilma e do Código ruralista sedia
uma Cúpula dos Povos, a Bolívia de Evo Morales também sediou a sua
Conferência. Se a Rio+20 realiza uma “manipulação cínica e
oportunista das crises ecológica e social” para avançar na
“Economia Verde”, essas Cúpulas e Conferências dos Povos
realizam uma manipulação sentimental da sensibilidade ecológica
para mascarar alternativas políticas centristas e vazias de qualquer
conteúdo anticapitalista. Como adorno dessa manipulação, tenta-se
erigir a cosmovisão dos povos originários em alternativa filosófica
ao projeto socialista no combate à ideologia capitalista. 

	A cosmovisão dos povos originários pode ter sentido progressivo ou
conservador, assim como qualquer religião. Pode levar os indivíduos
que nela acreditam a se colocar em luta ou colocá-los contra a luta.
O catolicismo teve a Teologia da Libertação e hoje tem o
reacionário Papa Ratzinger, para citar um exemplo. As aspirações
por emancipação dos indivíduos, ainda que tenham raízes em sua
situação material, podem ser expressas em linguagem religiosa (por
vezes com muita poesia e força motivacional). Os indivíduos podem
achar que estão construindo o “Reino de Deus na Terra” ou
defendendo a “Mãe Terra”, mas estão enfrentando a dominação do
capital. Por isso, a religião deve ser respeitada como questão de
foro íntimo (até que se chegue a um mundo que não precisa da
religião). Mas não será com sermões sobre a Mãe Terra que se vai
convencer os executivos das corporações capitalistas a deixar de
destruir a natureza para perseguir os seus lucros trimestrais... 
	7. Por uma economia vermelha dos trabalhadores 
	Conforme dissemos no ponto 5, não é legítimo questionar o projeto
socialista sem realizar um balanço dos processos que tiveram o
socialismo como referência, em especial a Revolução Russa. Esse
balanço está ainda em aberto no movimento socialista. Não há hoje
nenhum setor ou corrente do movimento socialista que possa reivindicar
ter encontrado a resposta definitiva para os impasses que levaram às
derrotas do movimento no século XX. O que temos hoje são apenas
respostas parciais, nenhuma das quais adquiriu autoridade de resposta
conclusiva. Isso porque essa resposta não será uma elaboração
meramente teórica (pois para os marxistas a prática é o critério
de verdade), mas um conjunto de métodos de ação capazes de superar
aqueles impasses e construir um processo realmente emancipatório
capaz de se colocar de fato como alternativa concreta à ordem
estabelecida. Essa exigência da prática não dispensa os setores do
movimento socialista de buscar elaborações teóricas que deem conta
dos novos desafios (pois para os marxistas não há prática
revolucionária sem teoria revolucionária). Os avanços da teoria
devem caminhar paralelamente aos da prática, e vice-versa. 

	Assim, é preciso realizar de fato uma profunda auto-crítica e
rearmamento teórico do movimento socialista para dar conta dos
desafios práticos da realidade do século XXI. Entre esses desafios
está inequivocamente a questão ambiental, pois o grau de
degeneração imposto ao meio ambiente planetário pela produção
destrutiva capitalista alcança uma proporção catastrófica. E o que
é mais grave, as calamidades ambientais só podem ser solucionadas
por iniciativas de porte global, já que os desequilíbrios afetam
ecossistemas cuja constituição não respeita as fronteiras entre os
Estados nacionais (como os rios, florestas, reservas de
biodiversidade, etc.) ou se desdobram numa escala global (como os
oceanos e a atmosfera). Os apelos contidos no documento preparatório
da Cúpula dos Povos em relação a ética, justiça, solidariedade,
etc., e outros valores abstratos, são uma tentativa ilusória de
fugir da questão crucial da revolução mundial. A luta contra o
capitalismo tem a forma de revoluções nacionais, mas o seu conteúdo
é uma transformação mundial, que vai necessariamente transformar as
relações do homem com a natureza. 

	Ou em outras palavras: 

	“A crise do capitalismo é uma crise que afeta a totalidade do modo
de vida. A resposta da classe trabalhadora precisa também, além de
defender as condições imediatas de vida, repensar a totalidade do
processo de reprodução social. O atual padrão de consumo
perdulário e destrutivo precisa ser substituído por uma forma
racional de gestão dos recursos naturais e tecnológicos, que coloque
a produção a serviço das necessidades humanas, e contemple
inclusive a reversão dos danos ambientais provocados pelo
capitalismo, a busca de fontes de energia renováveis em
substituição aos combustíveis fósseis, e a garantia do
fornecimento de uma alimentação saudável e produzida de forma
sustentável para todos os seres humanos.” (resoluções
internacionais da Conferência 2009 do Espaço Socialista) 

	Mais do que simplesmente atenuar os danos causados pelo capitalismo,
é preciso sim repensar a lógica da produção de mercadorias. Ao
invés de produtos fabricados com o objetivo de serem trocados no
mercado para realizar valor de troca, precisamos de produtos
fabricados com o objetivo de atender necessidades humanas. A mudança
não é apenas quantitativa, ou seja “mais bens para todos”, como
promete a propaganda enganosa da publicidade capitalista, mas “os
bens de que realmente necessitamos”. Isso significa que: 

	“(...) o socialismo não pode ser uma realização dos sonhos de
consumo do capitalismo pelo simples fato de que tal realização é
materialmente inviável e ambientalmente insustentável. O socialismo
não poderá dar a todos os seres humanos do planeta o padrão de
consumo perdulário e destrutivo da classe média estadunidense, por
exemplo, porque isso simplesmente esgotaria o globo terrestre em dois
tempos. O socialismo pressupõe o emprego racional dos recursos, o que
significa o contrário do desperdício irracional da abundância
capitalista. É evidente que o socialismo procurará atender às
necessidades materiais, extraindo recursos da natureza e
transformando-a, mas o fará numa medida compatível com a capacidade
do meio ambiente planetário de continuar fornecendo os recursos
indispensáveis à vida da espécie humana numa escala de tempo
infinita. O consumo de recursos como aço, petróleo, minérios,
madeira, borracha, terras férteis, água, etc., não será feito na
mesma quantidade e terá um caráter radicalmente diferente, pois não
estará comprometido pelo desperdício individualista, pela
poluição, etc. A própria tecnologia para manipulação dos recursos
naturais, liberta das relações de propriedade burguesas e portanto
muito mais avançada, tornará mais fácil o uso racional de tais
recursos.  

	“(...) uma sociedade socialista irá necessariamente reformular a
própria definição daquilo que se consideram 'os recursos
indispensáveis à vida da espécie humana'. Isso porque essa
sociedade os utilizará para desenvolver uma categoria diferente de
objetos, e não mais os perdulários automóveis individuais e outras
bugigangas multiplicadas irresponsavelmente pelo consumismo
individualista burguês, os quais serão substituídos por bens e
serviços de utilização coletiva. Uma sociedade socialista não vai
apenas expropriar a indústria automobilística, precisará ir além e
questionar o pressuposto da atividade desse ramo de produção, que é
o de que cada ser humano do planeta precisa ter um automóvel. Ao
invés disso, será preciso redirecionar as forças produtivas sociais
para atender racionalmente as necessidades humanas, substituindo o
automóvel pelo transporte coletivo. E assim sucessivamente, em todos
os ramos de produção.” (“A luta pela cultura e a cultura pela
luta”, Revista “Primavera Vermelha”, nº2, 2011) 

	A substituição de mercadorias de consumo individual por bens de uso
coletivo requer uma substituição também da mentalidade e da
relação que os indivíduos desenvolvem com os objetos que utilizam
para viver. Essa mudança da mentalidade e das relações sociais só
é possível por meio de uma transformação profunda que torne os
indivíduos conscientes das suas possibilidades e também das suas
responsabilidades. É a essa transformação que damos o nome de
revolução. E essa revolução só é possível se partir de uma base
social concreta que possa realizar os valores da coletividade e da
solidariedade. Não temos dúvida em afirmar que essa base social é a
classe trabalhadora, com toda a sua diversidade e também com sua
oposição radical à lógica do capital. 
-------------- Próxima Parte ----------
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