[Bancariosdebase] Enc: Linguagem da esquerda e a linguagem pra mudar o mundo

Daniel tzitzimitl em terra.com.br
Sexta Abril 23 00:24:29 UTC 2010


  Livro discute as dificuldades da esquerda para se comunicar de
maneira compreensível e produtiva com sua base social, a classe
trabalhadora.
 Daniel
LINGUAGEM PARA TRANSFORMAR O MUNDO

Por Sheila Jacob, 08.04.2010
	Dicionário de Politiquês é o novo livro de Vito Giannotti,
escritor e coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC).
Escrita em parceria com Sérgio Domingues, a publicação é um manual
prático de linguagem para ser usado todos os dias por quem deseja se
comunicar com muitas pessoas. Sãocerca de 3500 verbetes
incompreensíveis traduzidos para a língua dos “normais”, ou
seja, para agrande maioria da população que não passou mais do que
oito anos nos bancos escolares. 

	Vito Giannotti já escreveu outros livros sobre o tema. Essa
preocupação vem do reconhecimento da importância da linguagem na
disputa de hegemonia, ou seja, na disputa por uma nova visão de
mundo, por novos valores, para que se chegue à organização da
classe trabalhadora para a transformação. “Temos que convencer
vários milhões de que é necessário mudar os rumos, participar, se
mobilizar e tomar o poder das mãos dos nossos inimigos de classe.E
como se convence? Comunicando. Em que língua? Na que todos
entendem”, afirma o autor. 

	Como surgiu a ideia de escrever esse Dicionário de Politiquês? 

	A necessidade de escrever esse livro vem da constatação de que
muitas vezes a linguagem que os sindicalistas, os jornalistas
sindicais e os militantes de esquerda falam se torna muito difícil
para aquelas pessoas que eu costumo chamar de “normais”. Ou seja:
a maioria. Essa constatação é evidente, basta perguntar a quem
está assistindo a uma palestra ou um debate. Provavelmente essa
pessoa vai confessar que entende muito pouco do que está ouvindo. 

	Isso também acontece com a escrita. Se alguém vai ler um texto e
não conhece sete, oito ou dez palavras, acaba se distraindo e não
consegue entender o sentido geral daquela mensagem. Isso eu descobri
quando trabalhava como metalúrgico em São Paulo, durante uns vinte
anos. Percebi que o discurso feito por nós, militantes de esquerda,
revolucionários, era muito bom, muito bonito, tinha um conteúdo
muito rico, mas tinha um pequeno problema: o público-alvo. Aqueles
que queríamos convencer não conseguiam compreender nossa mensagem
sobre a necessidade de mudança e a importância da luta. 

	E essa preocupação vem desde quando mais ou menos?  

	Desde a década de 1970 comecei a discutir esse assunto com outros
companheiros que faziam comigo os boletins clandestinos, os jornais
sindicais. Nós até inventamos a palavra operariês, que é
exatamente o contrário do intelectualês. E percebemos que havia
ainda outros ês: o juridiquês do advogado; o economês, típico dos
economistas; o politiquês etc. Vimos então que era essencial se
preocupar com a linguagem. A partir daí escrevi vários livros ao
longo desses anos para tratar dessa questão. O primeiro deles foi O
Que é o Jornalismo Operário (Brasiliense) . Depois veio o Manual de
Linguagem Sindical (NPC) escrito com Claudia Santiago e Sérgio
Domingues, que foi um ensaio de dicionário. A argumentação de
todos eles é a mesma: a necessidade de falar a língua que o pessoal
entende. 

	Aí vem uma velha questão, que é muita gente achar que estamos
“rebaixando” a linguagem. Não se trata de rebaixar, mas sim de
traduzir. É muito simples: eu falo casa com quem entende a língua
portuguesa, mas não adianta falar casa com franceses. Com estes
tenho que falar maison, se não a mensagem não será transmitida. Ou
seja, você tem que saber muito bem duas línguas: a que você está
falando, e aquela para a qual você quer traduzir. Isso não é
rebaixar, é fazer entender. Por exemplo: como você vai usar a
expressão “Calcanhar de Aquiles”? 95% da população nunca viu
Aquiles, não sabe quem foi ele, o que isso significa. Você pode,
então, substituir por “o nosso ponto fraco”, “nossa
dificuldade”. Pode falar da maneira que quiser, mas não
“Calcanhar de Aquiles”. Este só para doutores, ou quem conhece
mitologia grega. 

	Você citou outros livros já escritos sobre essa questão – como
o Muralhas da Linguagem, por exemplo. Qual seria a principal
diferença desses anteriores para esse Dicionário? 

	O Muralhas da Linguagem é bem diferente. São cerca de 250 páginas
de argumentação e de explicação do porquê dessa dificuldade de
alguns de se entender uma linguagem mais elaborada. A ideia central
do Muralhas é que a causa dessa diferença está no nível de
escolaridade. O problema é que um engenheiro ficou nos bancos
escolares durante 25 anos… A mesma coisa um médico, um psiquiatra,
um dentista etc. E a imensa maioria dos trabalhadores do mundo,
quantos anos estudaram? A média no Brasil é seis anos. Quem ficou
seis anos não entende “calcanhar de Aquiles”,
“irreversível”, “irreconciliável” . Então tem que
traduzir! 

	Quando você quer usar uma palavra que considera importante, pode
introduzi-la, mas depois explica, traduz logo em seguida. Eu posso,
por exemplo, dizer “na atual conjuntura, ou seja, na situação em
que vivemos hoje…”. Assim eu uso um termo novo, e não estou
impedindo a compreensão. Mas é preciso ter cuidado para não
exagerar. Em um artigo de duas laudas, posso fazer isso uma ou duas
vezes, no máximo, se não o nosso artigo se torna uma aula de
português. 

	Voltando à questão da diferença entre os livros sobre linguagem.
Podemos dizer que enquanto Muralhas da Linguagem discute a teoria, o
Dicionário é um manual para o dia-a-dia de quem vai se comunicar? 

	Isso. O primeiro é uma conversa para mostrar a necessidade de se
usar uma linguagem compreensível por todo mundo. Já o Dicionário
de Politiquês é prático: após uma rápida introdução, entra uma
lista de cerca de 3500 verbetes, relacionados a uma ou duas frases que
dizem a mesma coisa de maneira clara. Então este dicionário não é
para ensinar a usar as palavras difíceis, mas sim para o contrário:
para aprender a traduzir. Se tem lá “irreversível”, não é para
usar essa palavra, mas sim para usar outro termo ou expressão no
lugar.. 

	Para quem você indica o Dicionário de Politiquês? 

	Ele é para professores, jornalistas, sindicalistas, formadores,
militantes políticos que vivem o tempo inteiro falando com muita
gente.. Ou seja: é para todo mundo que quer conversar com o povo.
Para quem estudou mais de doze anos, ou então para quem já aprendeu
a falar outra língua, quem tem uma certa vivência política e social
e frequenta reuniões, debates, seminários, cursos, encontros,
palestras… Essa pessoa também precisa de dicionário. 

	E como você foi recolhendo essas expressões, essas palavras? 

	Em cada curso que dou pelo Brasil afora escuto dezenas de palavras
complicadas. Então cada vez que eu escutava um termo ou frase,
anotava.. E não foi só ouvindo não, foi também muitas vezes lendo
artigos de jornais para metalúrgicos e até mesmo para professores de
escolas públicas. Assim juntei essas 3500, mas teria muito mais.
Quero chegar a 5000, e isso não é difícil. 

	Como você disse, essa preocupação com a linguagem já tem uns 40
anos. Vocêacha que a esquerda em geral, os movimentos sociais e os
sindicatos não aprenderam a se comunicar? 

	Não é que nós da esquerda não aprendemos não. Na verdade nunca
quisemos aprender, porque isso não interessa. Na visão geral da
esquerda essa discussão de linguagem é besteira, porque o
“importante é a política, é a mensagem, e o povo tem que
entender”. Também acho que o povo tem que entender, mas quais são
as condições que existem para essa compreensão? Bem, a culpa é
nossa porque, primeiro, a nossa luta ainda não foi suficiente para
que no Brasil haja uma maior escolaridade. Segundo: ainda não nos
convencemos que esse problema da linguagem é real e é sério. Nos
sindicatos, nos meios de esquerda, a atitude geral é a seguinte: o
importante é o conteúdo, é a mensagem… Com isso se deixa de lado
a forma, a preocupação com a língua que se fala. Não adianta
transmitir uma mensagem maravilhosa se for em uma língua que
ninguém entende. Por isso a importância de se traduzir. 

	É claro que temos que fazer crescer o nível de conhecimento, e
para isso temos que lutar por escolas decentes, universais, que
ensinem de verdade, que ensinem o significado de todos esses termos.
Mas infelizmente não é isso que temos no Brasil hoje. Na última
estatística mundial do PISA [Programa Internacional de Avaliação
de Alunos], de 55 países o Brasil ficou em último lugar em
interpretação de textos. Esse é o quadro do nosso ensino. Com ele
o povo não vai entender expressões como, por exemplo, “uma luta
fratricida”. Então, precisamos lutar pelo acesso de todos e todas
a uma educação de qualidade. Mas esse não é o papel dos nossos
boletins, dos jornais, dos discursos… Nestes devemos usar as
palavras que todos sabem. 

	E você acha que, por outro lado, a burguesia se preocupa mais com a
linguagem?  

	A direita não tem muito problema para transmitir sua mensagem. A
sua preocupação em manter a hegemonia é primeiramente na força.
Eles têm a polícia para fazer obedecer, o exército para impor sua
vontade, o judiciário para impor as leis da classe hegemônica…
Mas às vezes a coerção não é suficiente, e então vem a
preocupação com o convencimento, com a comunicação. E elesse
preocupam mais do que nós com a comunicação. Basta prestar
atenção no Jornal Nacional, analisar as palavras usadas e o tamanho
das frases. Muito dificilmente você encontra uma com mais de 20
palavras. E essa é outra norma da linguagem. Além de não usar
palavras complicadas, as frases têm que ser curtas. 

	Alguns estudos já provaram que uma frase longa é chata, deixa de
ser interessante, não desperta atenção, e a pessoa se distrai
facilmente. A direita sabe disso, e aplica quando quer convencer.
Nós de esquerda, que queremos fazer uma luta contra-hegemô nica,
temos uma obsessão “politicista”, ou seja, o importante é a
política, e o resto é secundário. O conteúdo é importante sim,
mas se não for comunicado para as chamadas “massas” acaba
ficando restrito a um pequeno grupo de “entendidos”. 

	Então a linguagem está diretamente ligada à disputa de hegemonia?
 

	Claro. Disputar a hegemonia significa, primeiro, disputar a visão
de mundo, os valores, e levar a novas atitudes para se contrapor à
atual forma de organização do mundo. Ou seja: mudar. Nessa nossa
batalha contra-hegemô nica, nós precisamos de duas coisas, como
dizia Gramsci: precisamos ter convencimento da classe com a qual nós
queremos fazer a transformação. 

	E também precisamos de força, como a organização em partidos, em
centrais, em sindicatos, em governos. Mas, para isso, temos que
convencer vários milhões de que é necessário mudar os rumos do
mundo, participar, se mobilizar e tomar o poder das mãos dos nossos
inimigos de classe. E como se convence? Comunicando. Em que língua?
Na que todos entendem. 

	(*) Entevista publicada originalmente na página do Núcleo
Piratininga de Comunicação (NPC). 
	Desde meus primeiros contatos com a militância, a forma como a
esquerda se comunica é uma das minhas maiores preocupações. Isso
passa pela linguagem que usamos, como está bem explicado acima. Não
só a linguagem escrita, mas todo o tipo de linguagem: a oral, a
visual, a multimídia, e todas as suas variações. 

	Pra quem me conhece um pouco sabe que eu adoraria ver, em rede
nacional, um telejornal naquele mesmo formato do Jornal Nacional, com
a mesma técnica, mas avesso no seu conteúdo, que use a linguagem
oficiosa do Jornal da Globo, mas que transmita o noticiário pelo
ponto de vista dos trabalhadores organizados em sindicatos e partidos
que lutam contra o capitalismo. 

	Para minha alegria, eu vi algo parecido: uma propaganda política do
PSTU que passou na tv em 2009. Ela começa como se fosse um
noticiário, depois acaba caindo naquele formato de propaganda
política. Assistam ao vídeo. É um ótimo exercício para os
militantes notarem a diferença que faz a linguagem usada pra
transmitir a mensagem (no youtube: http://www.youtube. com/watch?
v=CrHriF7hEOM&feature=related ) 

	Outro programa de televisão que valeu a pena assistir foi o
Direitos de Resposta. Esse programa foi produzido por diversos
seguimentos da sociedade, as chamadas minorias. Não tem uma
orientação política de luta contra o capital, mas é uma conquista
democrática. Resumindo, a RedeTV! foi obrigada, por decisão
judicial, a conceder, durante um mês, de segunda a sexta-feira, o
horário das 16 às 17, para que organizações civis de diversos
setores veiculassem direito de resposta contra as atrações do
programa "tarde quente", comandado por João Kleber, onde se incitava
a violência contra as mulheres com o quadro teste de fidelidade, e
contra os homossexuais, nas pegadinhas onde aparecia no video frases
como "bicha safada apanha por fazer gracinha na rua". Procurem no
youtube os programas. Segue um video que fizeram com trechos do
programa, onde dá pra entender mais ou menos como foi:
http://www.youtube. com/watch? v=hTPddDInpvw 

	Enfim, essas são provocações que faço àqueles que querem lutar
por outra sociedade. Espero que elas despertem a atenção de outros
militantes para que a nossa linguagem se torne mais próxima à da
maioria da população. 
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