[Bancariosdebase] Entre 1996 a 2005, a cada 20 dias, um bancário se suicidava
Mÿffffe1rcio Cardoso da Silva
marciocarsi em yahoo.com.br
Sexta Dezembro 31 13:48:25 UTC 2010
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=53327
Sexta-Feira, 31 de dezembro de 2010
26.12.10 - MUNDO
Crise neoliberal e sofrimento humano
Leonardo Boff *
Adital -O balanço que faço de 2010 vai ser diferente. Enfatizo um dado pouco
referido nas análises: o imenso sofrimento humano, a desestruturação subjetiva
especialmente dos assalariados, devido à reorganização econômico-financeira
mundial.
Há muito que se operou a "grande transformação" (Polaniy), colocando a economia
como o eixo articulador de toda a vida social, subordinando a política e
anulando a ética. Quando a economia entra em crise, como sucede atualmente, tudo
é sacrificado para salvá-la. Penaliza-se toda a sociedade como na Grécia, na
Irlanda, em Portugal, na Espanha e mesmo dos USA em nome do saneamento da
economia. O que deveria ser meio transforma-se num fim em si mesmo.Colocado em
situação de crise, o sistema neoliberal tende a radicalizar sua lógica e a
explorar mais ainda a força de trabalho. Ao invés de mudar de rumo, faz mais do
mesmo, colocando pesada cruz sobre as costas dos trabalhadores. Não se trata
daquilo relativamente já estudado do "assédio moral", vale dizer, das
humilhações persistentes e prolongadas de trabalhadores e trabalhadoras para
subordiná-los, amedrontá-los e, por fim, levá-los a deixar o trabalho. O
sofrimento agora é mais generalizado e difuso afetando, ora mais ora menos, o
conjunto dos países centrais. Trata-se de uma espécie de "mal-estar da
globalização" em processo de erosão humanística.
Ele se expressa por grave depressão coletiva, destruição do horizonte da
esperança, perda da alegria de viver, vontade de sumir do mapa e até, em muitos,
de tirar a própria vida. Por causa da crise, as empresas e seus gestores levam a
competitividade até a um limite extremo, estipulam metas quase inalcançáveis,
infundindo nos trabalhadores, angústias, medo e, não raro, síndrome de pânico.
Cobra-se tudo deles: entrega incondicional e plena disponibilidade, dilacerando
sua subjetividade e destruindo as relações familiares. Estima-se que no Brasil
cerca de 15 milhões de pessoas sofram este tipo de depressão, ligada às
sobrecargas do trabalho.
A pesquisadora Margarida Barreto, médica especialista em saúde do trabalho,
observou que no ano passado, numa pesquisa ouvindo 400 pessoas, que cerca de um
quarto delas teve ideias suicidas por causa da excessiva cobrança no trabalho.
Continua ela: "é preciso ver a tentativa de tirar a própria vida como uma grande
denúncia às condições de trabalho impostas pelo neoliberalismo nas últimas
décadas".Especialmente são afetados os bancários do setor financeiro, altamente
especulativo e orientado para a maximalização dos lucros. Uma pesquisa de 2009
feita pelo professor Marcelo Augusto Finazzi Santos, da Universidade de
Brasília, apurou que entre 1996 a 2005, a cada 20 dias, um bancário se
suicidava, por causa das pressões por metas, excesso de tarefas e pavor do
desemprego. Os gestores atuais mostram-se insensíveis ao sofrimento de seus
funcionários, acrescentando-lhes ainda mais sofrimento.
A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de três mil pessoas se suicidam
diariamente, muitas delas por causa da abusiva pressão do trabalho. O Le Monde
Diplomatique de novembro do corrente ano denunciou que entre os motivos das
greves de outubro na França, se achava também o protesto contra o acelerado
ritmo de trabalho imposto pelas fábricas causando nervosismo, irritabilidade e
ansiedade. Relançou-se a frase de 1968 que rezava: "metrô, trabalho, cama",
atualizando-a agora como "metrô, trabalho, túmulo". Quer dizer, doenças letais
ou o suicídio como efeito da superexploração capitalista.
Nas análises que se fazem da atual crise, importa incorporar este dado perverso
que é o oceano de sofrimento que está sendo imposto à população, sobretudo, aos
pobres, no propósito de salvar o sistema econômico, controlado por poucas
forças, extremamente fortes, mas desumanas e sem piedade. Uma razão a mais para
superá-lo historicamente, além de condená-lo moralmente. Nessa direção caminha a
consciência ética da humanidade, bem representada nas várias realizações do
Fórum Social Mundial entre outras.
[Autor de Proteger a Terra-Cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Record
2010].
* Teólogo, filósofo e escritor
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