[Bancariosdebase] Artigo para o Jornal do BdB
hugoscabello em riseup.net
hugoscabello em riseup.net
Quarta Setembro 8 23:31:53 UTC 2010
Desculpe-me Marcio... Segue o texto no corpo, contudo ainda preciso fazer
uma versão curta pra por no jornal (acho que tá nos 7000 caracteres). Sem
falar de alguns retoques e tal...
Peço sugestões!
E, estou pensando em publicar no passa-palavra
(http://passapalavra.info/), tudo bem? Eles tão preparando uma serie de
artigos sobre burocratização de movimentos sociais, daí cairia
perfeitamente meu texto.
Hugo
Autonomia sindical e as eleições
Sempre que o espetáculo eleitoral entra em cartaz, assistimos
passivamente o desenrolar do mesmo roteiro de sempre: velhos e novos
rostos sujam nossos espaços públicos com velhas promessas ocas, nos
forçando a escolher como será a distribuição dos privilégios e poderes
entre as diferentes facções mafiosas do atual cenário político.
Lideranças comunitárias aderem à campanhas, grandes empresas as
financiam, associações de bairro se enchem de faixas, alguns
trabalhadores cansados agitam bandeiras nas avenidas, enquanto outros
distribuem panfletos; em todo lugar, e a todo momento, candidatos esmolam
votos para seus números identificadores. E tudo isso – todos nós sabemos
– sumirá, num passe de mágica, ao termino de um punhado de meses: a
interação com o espetáculo da política parlamentar voltará a ser, para a
grande maioria do povo, uma série de shows transmitidos pelos canais de
televisão estatais (tevê senado, tevê câmara, tevê justiça, etc.), aos
quais os jornais e revistas dão especial atenção. Com a redistribuição de
cadeiras terminada, a oligarquia dos representantes retorna as frias,
secas, e distantes câmaras palacianas do planalto para continuarem seus
vis jogos de poder e opressão.
Nosso mundo sindical não foge a regra, é igualmente tomado pela sazonal
febre das urnas: os espaços de nossas sedes são usados para comícios
eleitorais, showmícios, ou mesmo como base estratégica de candidaturas;
congressos sindicais são usados como apoio para presidenciáveis, centrais
sindicais apoiam e participam abertamente de campanhas eleitorais;
revistas e jornais servem como veículos de propaganda, diversos
sindicalistas anunciam suas candidaturas. Todo espaço sindical sofre
constante ameaça de ser transformado num palanque eleitoral. Enfim, a
estrutura sindical inteira do país, a qual deveria servir exclusivamente
para defender os interesses das diversas categorias que constituem a
classe trabalhadora, é colocada a serviço das camarilhas eleitorais.
Inclusive, já tomamos essa sequência de cenas como normal e cotidiana –
afinal de contas até nosso atual presidente, nosso patrão maior da
política, fez seu nome no sindicalismo.
Contudo, quanto mais o fenômeno da parlamentarização se dissemina pelo
movimento sindical, mais seus males tornam-se realidade, e, portanto,
ficam facilmente visíveis. Estes “efeitos colaterais” podem ser
entendidos como consequências de duas contradições intrínsecas ao
sindicalismo eleitoral: 1. os interesses particulares dos conluios
eleitorais constantemente entram em conflito com os da categoria, e, de
maneira geral, os sobrepõem; 2. O movimento sindical (assim como qualquer
outro movimento social) constrói sua força política através da
mobilização de massas, sendo assim, ele não deve, de maneira alguma, se
tornar a extensão de um partido eleitoral – pois no universo de qualquer
categoria de trabalhadores existem eleitores de diferentes partidos (ou
mesmo de nenhum partido), e sindicato nenhum pode se dar ao luxo de
contar apenas com eleitores simpatizantes duma determinado facção, sem
pagar o preço de perder sua força política.
Quanto mais os trabalhadores são colocados em segundo plano, e seus
interesses traídos incessantemente, menos estes se sentem representados
por suas entidades (que de fato não o representam), menos veem a luta
coletiva como alternativa para melhora da situação da categoria e da
classe como um todo, resultando numa busca de melhoria de vida através de
saídas individuais (ascensão na hierarquia da empresa por exemplo). A
consequência final do sindicalismo eleitoreiro é uma apatia
despolitizadora da categoria em geral, um distanciamento cada vez maior
da direção à base da categoria (que tende a ser tratada como gado).
Distancia esta que, pouco a pouco, se transforma em repúdio.
Não por acaso o ápice de combatividade – e também da capacidade de
mobilização – do sindicalismo CUTista fora nos anos oitenta, precisamente
quando as ambições parlamentares das pessoas envolvidas na CUT/PT não
passavam de sonhos longínquos. Durante esses anos, esta central conseguiu
mobilizar diversas greves fortes e importantes. Mobilizou, até mesmo,
greves gerais, as quais foram importantíssimas para a situação política
nacional, e também para conquista de direitos para a classe trabalhadora.
Nossa categoria, por exemplo, arrancou sua merecida jornada de trabalho
de seis horas nessa época. Contudo, quanto mais o projeto CUT/PT se
orientava para a conquista de espaço – e aceitação – dentro da
instituição política da classe dominante (o Estado), mais os interesses
da classe trabalhadora entravam em conflito com os interesses
partidários. Até chegarmos aos dias atuais: como justificar, perante os
interesses da categoria bancária, um calendário de “enrolação permanente”
que se estende até depois do primeiro turno eleitoral? Isso sendo sabido
que o momento imediatamente anterior ao eleitoral é estrategicamente
benéfico aos trabalhadores e suas reivindicações; a eleição é um momento
de vulnerabilidade para os poderosos, pois estes são forçados a evitarem
atitudes antipopulares, ao custo de perderem votos e, consequentemente,
espaço na máquina estatal.
A única explicação plausível para a nossa campanha salarial ser jogada
para depois das eleições é a priorização dos interesses partidários em
detrimento dos interesses dos trabalhadores bancários. Nossos dirigentes
não querem: 1. correr o risco de que uma greve forte em instituições do
governo federal venha a manchar a imagem da candidata deles a sucessão do
trono brasiliense; 2. trabalhar numa campanha salarial no momento, pois,
é nítido que estes preferem dedicar seu tempo as suas próprias
candidaturas do que à defesa de nossos direitos trabalhista. Apesar
disso, não devemos nos surpreender com esta postura das pessoas
envolvidas na CUT/PT, já que, hoje, o interesse principal desse grupo
tornou-se a manutenção de sua inserção na máquina estatal, isto é, manter
os privilégios, o poder, e as mamatas, conferidos aos “iluminados” de
Brasília.
Também não por acaso que o auge do movimento sindical, em terras
brasileiras, tenha se dado no primeiro quarto do século passado. Os
nossos pioneiros sindicalistas, já nessa época, tinham consciência da
importância da autonomia para a construção da força do movimento. E de
fato este princípio permeou toda a malha de organizações de
trabalhadores: estava presente nos documentos organizativos de
sindicatos, federações e confederações. A força deste sindicalismo 'sem
rabo preso” fora demonstrada em diversas manifestações, greves (a
primeira greve geral do Brasil fora deflagrada ainda em 1913), e até
mesmo numa desastrada, porém corajosa, tentativa de insurreição em 1918
no Rio de Janeiro. Os frutos colhidos pela classe trabalhadora advindos
desse período intenso de luta abrangem todos os direitos trabalhistas,
que futuramente serão concentrados e “oficializados” pela Consolidação
das Leis Trabalhistas (CLT) – a jornada de trabalho de 8 horas, por
exemplo, fora conquistada já em 1908 pelos trabalhadores da construção
civil.
Entretanto, gostaria de deixar claro que meu esforço não é no sentido de
glorificar de maneira mistificadora o passado brasileiro do movimento dos
trabalhadores, mas sim de estudar os acertos e as limitações das
diferentes propostas sindicais já tentadas na nossa terra, de maneira a
termos um terreno sólido para edificarmos um novo sindicalismo capaz de
superar a atual crise do movimento. Crise esta caracterizada pela
burocratização, partidarização (subordinação do sindicalismo aos
interesses eleitorais) e engessamento despótico da estrutura sindical, e
que tem, como outra face da moeda, a apatia, a despolitização, e o
repúdio ao sindicalismo.
Fora eleitoreiros dos sindicatos!
Sindicato é pra lutar, não pra eleger novos e velhos abutres de colarinho!
Bancários de base por um sindicalismo classista, autônomo e democrático!
> Segue anexado.
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> "Autonomia sindical e as
> eleições"_______________________________________________
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