[Bancariosdebase] campanha salarial 2011

Bancários de Base bancariosdebase em yahoo.com.br
Quarta Agosto 17 13:18:16 UTC 2011


 


Colegas bancári em s


Estamos nos aproximando dos momentos mais importantes da campanha salarial 2011, em que se discute a possibilidade de greve. 


Nós do Coletivo Bancários de Base estamos apresentando para discussão algumas das idéias que temos debatido em nossas reuniões e nos nossos locais de trabalho.


Gostaríamos que os colegas nos dessem suas opiniões, comentários e críticas ao longo desta semana, para que tenhamos uma síntese do que vamos defender na campanha.


A GREVE QUE NÃO QUEREMOS


Nos últimos anos nossas campanhas salariais têm tido um mesmo formato: pouca organização, pouca mobilização, pouca participação. Em função disso, a direção do nosso sindicato, que é também a direção nacional da categoria, consegue aprovar acordos que são insuficientes em relação a nossas demandas, e ainda apresentar tais acordos como “vitórias”. A falta de respaldo dessa diretoria é tamanha que, para encerrar as campanhas, precisa convocar em massa os gerentes e fura-greve, em assembléias no horário da noite, para aprovar os acordos, pois os grevistas jamais aceitariam as propostas rebaixadas.


A greve que temos em São Paulo é na verdade uma greve de fachada, com uma faixa de greve na frente das agências e os bancários trabalhando no seu interior. É uma greve que barra os clientes das agências, privando a população dos serviços bancários, mas não paralisa os lucros dos bancos. Os bancários continuam trabalhando nas agências “fechadas”, os clientes de alta renda continuam sendo atendidos normalmente, as metas de vendas continuam sendo cumpridas. Há gerentes que facilitam a “greve”, pois a ausência de clientes (pobres) ajuda a fazer negócios, configurando uma situação de “lock-out” (greve patronal), ao invés de uma greve de trabalhadores. Além disso, o auto-atendimento e a internet continuam funcionando, de modo que a greve tem um efeito insignificante no resultado dos bancos.


Isso não significa que os bancários não queiram fazer greve, pois a adesão tem sido razoável em várias campanhas. Um número importante de bancários não vai trabalhar, estando nominalmente em greve. Mas esses bancários, em sua maioria, não comparecem às atividades de greve, não vão a piquetes para ajudar a parar outros locais de trabalho, e não vão às assembléias. Fazem greve porque não suportam mais as condições de trabalho e precisam de “descanso”, mas não porque acreditam no movimento reivindicatório.


Evidentemente, isso está relacionado à pouca representatividade da diretoria do sindicato que negocia em nosso nome. A direção do nosso sindicato e do movimento nacional da categoria tem como prioridade defender os interesses do partido político que está no governo federal e é patrão de metade da categoria, os funcionários dos bancos públicos. A direção do sindicato não tem autonomia e independência. Funciona como uma correia de transmissão do governo, patrão de metade da categoria, no interior do movimento. Por isso, essa direção não encaminha as lutas de modo que possam se chocar com seu partido. Da mesma forma, essa direção não enfrenta os bancos privados, cujos lucros têm disparado na última década. 


A maior prova de que essa direção não está interessada em organizar o movimento dos trabalhadores é o modelo de organização da campanha que tem sido adotado. A campanha começa com um questionário via internet para saber quais são as reivindicações. Ora, o fato de que as pessoas respondam qualquer coisa na internet não implica em um compromisso real de participação. A disposição de luta não pode ser medida ou organizada via internet, mas no mundo real, por meio do contato corpo a corpo com os bancários.


Para nós está claro que a direção do sindicato não realiza reuniões e assembléias preparatórias abertas e democráticas, e se esconde por trás de uma pesquisa na internet, porque não tem o reconhecimento dos bancários e não quer de fato que os trabalhadores se manifestem e tragam suas idéias.


A GREVE QUE PRECISAMOS


É preciso que haja reuniões nos locais de trabalho, reuniões por banco e por região, plenárias e assembléias preparatórias. E é preciso que esses eventos sejam democráticos, abertos, com direito a fala para todos, para que os trabalhadores possam apresentar propostas e debater coletivamente formas de organizar a luta. Todos os anos surgem propostas de campanha de venda zero, operação padrão, medidas para paralisar o auto-atendimento, a compensação, entre outras, que realmente afetem o lucro dos bancos. Essas propostas precisam ser discutidas, pois somente assim os bancários se sentem responsáveis e se colocam como sujeitos de sua própria vida. Essa seria a forma de acumular forças, para que se chegue ao momento decisivo da greve em condições de realmente enfrentar os banqueiros.


Infelizmente, não tivemos esse processo prévio de organização. A campanha salarial de 2011 começou como as anteriores, sem organização e participação, com eventos preparatórios “oficiais”, congressos e conferências, nos quais os bancários, que estão efetivamente nos locais de trabalho, não puderam participar. Sem assembléias amplamente convocadas e envolvimento dos delegados sindicais e ativistas, os congressos e conferências não passaram de rituais para que os mesmos dirigentes de sempre pudessem formalizar a mesma pauta rebaixada que temos tido nos últimos anos. A exceção foram os Encontros da Frente Nacional de Oposição, em março, em Natal-RN, e em maio, em Recife-PE, em que os trabalhadores puderam discutir uma pauta alternativa que realmente representa as nossas necessidades. No mais, o que tivemos foram dirigentes sindicais que estão há anos ou décadas afastados do dia a dia do trabalhador e que se reuniram para
 discutir as “nossas reivindicações”.


Mesmo assim, achamos que a greve é necessária. Os trabalhadores não suportam mais a situação nos locais de trabalho, as cobranças, as ameaças, o assédio moral, a sobrecarga de serviço, que estão provocando o adoecimento físico e psicológico, com casos de LER-DORT e depressão, stress, etc., e até mesmo mortes, como tivemos no Banco do Brasil. Em função dessa situação, precisamos da greve. Não há outro meio de mudar essa situação a não ser a luta coletiva.


Mas precisamos de uma greve que seja de fato organizada pelos bancários e para os bancários. Por isso as medidas democráticas de organização do movimento e das assembléias são fundamentais. Somente por meio de medidas organizativas que dêem voz aos bancários os trabalhadores poderão se sentir motivados a participar, sentindo que a greve é sua. A greve é dos trabalhadores, não é do sindicato. São os trabalhadores que devem decidir os rumos e as formas do movimento.


Propomos as seguintes medidas para ajudar a organizar o movimento:


- dialogar com os clientes e a população em geral, usando os vastos recursos do sindicato, sua arrecadação milionária, gráfica, etc., para editar cartas aos clientes, anúncios e outdoors, explicando que nossas reivindicações também favorecem os trabalhadores que demandam serviços bancários, para trazê-los para o nosso lado;


- democracia nas assembléias, com direito a fala para todos os bancários, independentemente das correntes políticas, partidos e centrais, e que todas as propostas sejam colocadas em votação, com direito a defesa. A campanha salarial é um dos poucos momentos em que a categoria pode se encontrar ao longo do ano, por isso é importante que haja debate, sem a ditadura do microfone, em que a diretoria fala durante horas e os bancários comparecem apenas para levantar o crachá;


- sem seguranças na quadra: a greve é dos bancários, a quadra é dos bancários, o sindicato é dos bancários. Não há porque a diretoria se esconder atrás de seguranças para protegê-la de quem ela supostamente deveria representar;


- comando de greve aberto diário e aberto antes das assembléias;


- representantes na mesa de negociação eleitos em assembléia, podendo ser renovados a cada negociação;


- informes da paralisação em outros estados antes das assembléias;


- durante a greve, assembléias diárias e no horário das 16:00hs até o fim da campanha salarial, para barrar gerentes e fura-greves. Aqueles que não acatam a assembléia que delibera pela greve não têm o direito de deliberar pelo fim da greve!


- Nas assembléias em que houver proposta, SEPARAR AS VOTAÇÕES:
PRIMEIRA VOTAÇÃO: aceitar ou não o índice da Fenaban, comum à toda categoria;
SEGUNDA VOTAÇÃO: encerrar a greve ou continuar, pois definido o índice, os bancários podem continuar a greve pelas questões específicas de cada banco.


Por meio de medidas como essas, que resgatam as práticas da democracia dos trabalhadores, teremos a participação necessária para que o movimento ganhe força e tenha condições de realmente enfrentar os banqueiros e o governo. É necessária uma maior participação dos bancários, pois somente com massiva presença nas assembléias conseguiremos impor nossas reivindicações;


NOSSAS REIVINDICAÇÕES


Por mais que a direção propagandeie “aumento real”, a cada ano nossos salários são corroídos pela inflação, que se manifesta no preço dos aluguéis, das passagens de ônibus, dos alimentos, que sobem numa porcentagem muito maior do que os índices que são divulgados, o que resulta numa visível queda do padrão de vida dos trabalhadores.


Por isso, a reivindicação fundamental é a defesa do salário. O aumento salarial é repassado para todas as demais verbas: FGTS, INSS, férias, 13º, ticket, auxílio-creche, etc. Uma vez aumentado, o salário não pode ser rebaixado. Se o salário correspondesse ao necessário, os trabalhadores bancários não precisariam fazer dívidas no cheque especial, cartão de crédito, CDC, etc.


Os trabalhadores chegam na época da campanha salarial tão endividados que aceitam qualquer proposta oferecida pela patronal, para sair logo do vermelho. Comemoram a PLR, mas não consideram que no ano seguinte, se não houver o reajuste necessário, estarão novamente endividados.


Além disso, a transformação da campanha salarial em campanha por PLR tem outro efeito nefasto: vincula os rendimentos do trabalhador ao lucro da empresa. Consolida-se o princípio da remuneração variável. Com isso, fica ideologicamente legitimado o discurso de que o trabalhador deve se esforçar ao longo do ano, para somente assim receber a remuneração que merece. Esse discurso legitima a superexploração, a cobrança de metas, o assédio moral, as ameaças, etc. 


O movimento sindical não pode aceitar a vinculação da remuneração do trabalhador ao desempenho da empresa, pois com isso estaria aceitando o discurso da classe patronal de que “estamos todos no mesmo barco”, todos devem “vestir a camisa da empresa”, etc. É preciso deixar claro que não estamos do mesmo lado! A superexploração dos trabalhadores tem gerado lucros bilionários, que batem recordes a cada ano, sem reverter em qualquer benefício para os trabalhadores e para o restante da sociedade. Os banqueiros, públicos e privados, não estão do nosso lado, são nossos inimigos de classe!!


A defesa do salário é também a defesa dos planos de carreira, da aposentadoria, da assistência à saúde, que estão sendo cada vez mais sucateados pelos bancos.


Isso não significa se colocar contra a PLR, mas ela não pode ser o centro das reivindicações. Defendemos que a PLR seja linear, e desvinculada das metas, etc. Também defendemos a isonomia, a reposição de perdas, a volta das substituições no BB, etc., e todas as demais reivindicações gerais e específicas da categoria. As reivindicações econômicas devem ser o nosso parâmetro, e não podem jamais ser abandonadas. Mas sem que haja a discussão das condições de trabalho, o economicismo acaba por não armar os trabalhadores para enfrentar o discurso da patronal de que “estamos no mesmo barco”.


O economicismo é insuficiente para combater a superexploração, a cobrança de metas, o assédio moral, as ameaças, a sobrecarga de trabalho, o adoecimento, etc., que infernizam o dia a dia dos bancários. É preciso colocar em discussão esse dia a dia durante a campanha salarial. É preciso lutar por mudanças na relação do trabalhador com seu trabalho. É preciso sair da busca por saídas individuais, por comissões e promoções a qualquer custo. Os trabalhadores precisam refletir, se organizar, se assumir como coletivo e como sujeitos de suas vidas, para sair do pesadelo da superexploração e mudar sua vida.


Por último, é preciso lembrar que a situação de divisão que vive hoje a categoria, que está separada entre bancos públicos e privados, é a causa de uma enorme fragilidade da nossa luta. Os trabalhadores dos bancos privados não têm condições de se organizar para lutar contra um dos setores mais poderosos da classe patronal. E as atuais direções sindicais não têm qualquer intenção de organizá-los, para isso. Essa situação nos impõe que seja colocada no centro da luta a estabilidade no emprego para os trabalhadores dos bancos privados. É preciso lutar por cláusulas na convenção coletiva que proíbam a demissão imotivada. E também é preciso lutar pela organização no local de trabalho, por meio do reconhecimento de delegados sindicais também nos bancos privados, com estabilidade, para fazer o trabalho cotidiano de organização, com reuniões periódicas, fóruns deliberativos, etc.


POR UM PROJETO PARA OS BANCOS


Ir além do economicismo significa discutir um projeto para os bancos.


A superexploração, a cobrança de metas, o assédio moral, as ameaças, etc., não são resultado da maldade de um ou outro gestor isolado. Não são acidentes, exceções, falhas pontuais que podem ser corrigidas por meio de acordos. Essas práticas estão consolidadas como instrumento de gestão. São o resultado de uma lógica que está sendo imposta sobre os bancos públicos, que é a lógica do lucro a qualquer custo.


Logo, não se trata apenas de enfrentar este ou aquele gerente, e de lutar apenas por um aumento “x” ou “y” dos salários, mas de lutar por um projeto de banco público que não esteja calcado na superexploração dos trabalhadores, na extorsão dos clientes por meio de práticas como venda casada, juros e tarifas abusivos, em práticas anti-sociais, como a terceirização, a precarização do trabalho, os correspondentes bancário, etc. 


É preciso questionar a fonte dos lucros dos bancos, e também o seu destino. Banco do Brasil e Caixa Econômica são controlados pelo Tesouro Nacional. O lucro gerado por eles é usado para pagamento dos juros da dívida pública (fraudulenta), ou seja, vai direto para os especuladores. A função dos bancos públicos não pode ser alimentar a especulação privada!


Os bancos precisam estar a serviço da população, fornecendo crédito barato aos trabalhadores e proporcionando serviços de intermediação financeira, ao invés de privilegiar o atendimento da burguesia! Os bancos podem pagar melhor aos seus funcionários e oferecer melhores condições de trabalho e ao mesmo tempo cumprir um papel social, desde que não estejam a serviço da burguesia!


Esse projeto para os bancos é certamente uma discussão para longo prazo. Mas é preciso levar os trabalhadores a refletir sobre isso, pois se trata de uma questão estrutural que vai estar permanentemente conosco.


As propostas que fazemos não são apenas para o momento imediato. São para uma luta que deve se
estender para além da atual campanha salarial. Devemos continuar nos organizando e debatendo para criar força para os enfrentamentos que continuarão acontecendo. 


O convite que fizemos no início se estende, pois, para um debate que continuaremos fazendo depois da campanha salarial, e ao longo dos próximos anos, sobre como organizar nossa categoria.


Saudações


Coletivo Bancários de Base
São Paulo, agosto de 2011

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