[Bancariosdebase] A "decadência" estadunidense e a luta pela revolução

Mÿffffe1rcio Cardoso da Silva marciocarsi em yahoo.com.br
Sexta Dezembro 23 01:15:01 UTC 2011






  


 Este texto faz parte do jornal do Espaço Socialista, publicação revolucionária marxista de debates. O jornal do Espaço Socialista é editado bimestralmente e está sob responsabilidade da coordenação do Espaço Socialista. Os textos assinados não necessariamente expressam a opinião da organização. Para ler mais visite nosso arquivo de publicações: http://www.espacosocialista.org/node/16


A “DECADÊNCIA” ESTADUNIDENSE E A LUTA PELA REVOLUÇÃO 

Daniel  Menezes
 
 

 
            Nos
últimos anos tem surgido toda uma literatura em torno de um suposto declínio
dos Estados Unidos como potência hegemônica mundial. Esse discurso emana tanto
de ideólogos burgueses, acadêmicos, economistas, jornalistas, etc., como também
de teóricos e organizações da classe trabalhadora. Em geral tal literatura
apresenta como maior evidência desse declínio a ascensão de novos
"concorrentes" ao papel de liderança mundial, entre os quais um
conjunto de países agrupados sob a sigla de BRICs (ou seja, Brasil, Rússia,
Índia e China). Às vezes, basta apresentar apenas o crescimento da China, que
em algumas décadas saltou para o posto de 2º maior PIB do planeta, para que com
isso se "preveja" em breve a superação dos Estados Unidos.
            As
elaborações dos ideólogos da burguesia não têm qualquer valor científico, pois
tratam os dados estatísticos como se pudessem indicar mecanicamente tendências
que se manteriam supostamente inalteradas pelos próximos anos ou décadas. Como
se não houvesse uma série de variáveis capazes de interferir no curso “natural”
dos acontecimentos, tais como a intervenção consciente de sujeitos históricos
que lutam para reverter ou aprofundar as tendências em andamento em função de
seus interesses de classe. Assim, ignorando levianamente a complexidade do
devir histórico-social, os ideólogos podem arbitrariamente "marcar no
calendário" a data em que a China vai superar os Estados Unidos (2020?
2030?), o Brasil vai entrar para o 1º mundo (2030, 2040?), etc., como se não
pudesse haver qualquer tipo de "acidente de percurso" ou inversão das
tendências.
            
            O
ritmo da decadência
            Entretanto,
no que diz respeito às organizações dos trabalhadores, o discurso que fala em
declínio dos Estados Unidos tem alguns desdobramentos teóricos e políticos
importantes. Em primeiro lugar, é preciso verificar se de fato existe esse
declínio dos Estados Unidos. Do ponto de vista da economia, o peso relativo do
PIB estadunidense já chegou a ser de quase 50% da produção mundial, no pós-II
Guerra (http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Fria).
Inversamente, o PIB dos emergentes representa hoje mais de 43% do PIB mundial,
enquanto os PIBs dos Estados Unidos e Europa somados não chegam a 36% (http://interessenacional.uol.com.br/artigos-integra.asp?cd_artigo=7) .
            Entretanto,
para além da medição quantitativa do PIB, as relações de poder entre os países
são estruturadas também em torno de outros componentes, entre os quais o
poderio militar, a influência política, cultural, etc. Assim, por mais que outros
países estejam experimentando um forte crescimento e os Estados Unidos uma
relativa decadência, isso não se reflete automaticamente numa mudança imediata da hierarquia internacional. Há uma série de outros
fatores que podem retardar a perda da hegemonia estadunidense:
            - os
Estados Unidos são detentores da moeda internacional, o dólar, que apenas
começou a ser desafiado, e está longe de perder o papel de principal meio de
troca (certamente que não ignoramos o crônico endividamento
público e privado como fator de crescente enfraquecimento do dólar) para outros
concorrentes como o euro (que enfrenta sérios problemas, como acompanhamos
diariamente nos jornais);
            - os
Estados Unidos são responsáveis por quase metade dos gastos militares do
planeta, mais do que a soma dos 17 maiores orçamentos militares imediatamente
abaixo (http://www.tribunadaimprensa.com.br/?p=19805). Possuem milhares de
armas nucleares, um gigantesco aparato de tanques, navios, submarinos, aviões e
satélites, um efetivo de milhões de soldados, centenas de bases militares em
todos os continentes, uma vasta rede com milhares de agentes de inteligência e
espionagem (cujas façanhas podem ser vistas no Wikileaks), o que lhes dá larga
superioridade bélica perante qualquer adversário hipotético ou até mesmo sobre
a soma de todos os possíveis rivais;
            - os
Estados Unidos ainda estão na liderança da pesquisa cientifica e tecnológica,
em áreas como computação, biotecnologia, aeroespacial, etc., que são as áreas
de ponta da economia. Juntamente com algumas outras potências imperialistas,
como Japão e Alemanha, ainda dominam o setor produtor de bens de produção, onde
se materializa essa superioridade científica e
tecnológica. Países emergentes se limitam a copiar e reproduzir as técnicas de
produção que vêm dos centros imperialistas, não sendo capazes de desenvolver
produtos por conta própria;
            -
as corporações estadunidenses constituem um verdadeiro Estado paralelo no
interior dos Estados nacionais periféricos, associando-se de diversas formas a
frações da burguesia nacional e corrompendo políticos e instituições, de modo a
poder controlar o fornecimento de matérias-primas vitais, como petróleo e
minérios, commodities agrícolas, etc., ou monopolizando a produção industrial,
o comércio, as finanças, etc., no interior de cada país. Esses laços estão
fortemente consolidados e contam com uma ampla rede de proteção, tanto de suas
forças armadas e de inteligência, mas também dos próprios Estados periféricos e
suas forças armadas, ou de agentes mercenários, contra as populações locais e
concorrentes estrangeiros;
            - os
produtos da indústria cultural estadunidense avançam sobre as culturas
nacionais do mundo inteiro, com poucas exceções, tanto por meio dos conteúdos
do cinema e da música, como do estilo da programação da televisão, do
jornalismo e da internet, ou mesmo controlando diretamente as empresas locais
de mídia e entretenimento. Assim, a indústria cultural estadunidense molda os gostos e preferências do público, oferece
"heróis" e modelos de identificação, lança modismos e comportamentos,
cultiva aspirações, desejos e motivações, cria uma ética individualista,
competitiva, imediatista, consumista, materialista e venal, construindo um
ambiente ideológico pró-estadunidense ou no mínimo pró-capitalista.
 
            Conseqüências
da disputa interimperialista
            Não
basta, portanto olhar apenas para os números da economia para com isso
determinar que em breve a China vá ultrapassar os Estados Unidos, pois falta
estar em condições de controlar militarmente ou influenciar a política, os
mercados, e a cultura de centenas de países. É graças a esse controle e influência
que os Estados Unidos ainda são a maior potência mundial, inclusive no terreno
da economia.
            Além
disso, a burguesia estadunidense não vai assistir passivamente à erosão de seu
poderio e ao surgimento de desafiantes capazes de lhe arrebatar a supremacia
mundial. Pelo contrário, como já vimos na história, os impérios decadentes se
tornam cada vez mais violentos e belicosos na defesa de seus interesses. Foi
isso que provocou as guerras mundiais no passado. Conforme o desafio se torne
mais concreto e palpável, a tendência é de que o imperialismo desenvolva e
aprofunde as formas que já estamos vivenciando de uma guerra mundial mais ou
menos disfarçada, a qual envolve expedientes como a “guerra ao terror”, “guerra
às drogas”, guerras de ocupação colonial sob o pretexto de “intervenção
humanitária”, criminalização da pobreza, repressão aos movimentos sociais,
esvaziamento da democracia formal, autoritarismo estatal, manifestações de
fascistização social (xenofobia, racismo, homofobia, conservadorismo moral, etc.);
            Mas a
questão mais importante não é apenas determinar se os Estados Unidos estão em
decadência ou não e, em caso positivo, qual potência poderá substituí-los, mas
entender que relação esse processo teria com a luta pela emancipação dos
trabalhadores.
 
            A necessidade de uma ofensiva
socialista
            Boa
parte do discurso da decadência estadunidense adota um tom “comemorativo”, como
se esse enfraquecimento dos Estados Unidos fosse por si só um fato positivo
para os trabalhadores. No interior do movimento operário há vários setores
reformistas que torcem pela decadência estadunidense e a festejam como se o
problema da humanidade fosse um problema de nacionalidade e não de classe
social. Pregam o “antiamericanismo” (sic), como se o problema do mundo fossem
os Estados Unidos e não o capitalismo. Festejam o surgimento de um “mundo
multipolar” (como se a existência de vários pólos imperialistas fosse melhor do
que a de uma única potência), festejam o “novo equilíbrio de poder”, festejam a
“democratização das instituições internacionais”, festejam o surgimento de
“contrapesos” ao domínio estadunidense, festejam a ascensão de “novos atores
globais” (como se a ONU, a OMC, o FMI, o G20 pudessem ser mais favoráveis aos
trabalhadores por terem um peso ligeiramente maior dos BRICs e dos emergentes),
entre outras imbecilidades.
            Essa
comemoração irresponsável omite o problema fundamental, que é quebrar a lógica
do capital. A luta pela revolução socialista deve ser travada não apenas contra
uma determinada potência imperialista A, B ou C, mas contra o conjunto do
sistema capitalista mundial e sua lógica de reprodução social. A classe
trabalhadora não pode se limitar a “torcer” pela decadência dos Estados Unidos
ou por qualquer tipo de “novo equilíbrio” de poderes. De nada adianta atuar
como espectadora passiva da disputa entre as potências. O poder de reconstruir
a vida social não cairá do céu no colo dos trabalhadores por descuido dos donos
do mundo que se digladiam acima: terá que ser arrancado com luta. A classe
trabalhadora precisará se colocar a questão do poder social e da revolução,
contra os Estados Unidos ou qualquer potência que os suceder.
            A
disputa entre as potências imperialistas pode resultar em enfraquecimento
momentâneo do sistema capitalista como um todo e em oportunidade para a
revolução. Mas para que a revolução aconteça e seja vitoriosa é preciso que,
além da crise do capitalismo, haja uma ofensiva da classe trabalhadora pela
transformação socialista, o que exige uma série de pré-requisitos: a construção
de organismos de luta que possam se configurar em instrumentos de poder da
ditadura do proletariado (ou seja, da democracia operária), e no interior dos
quais atuem organizações revolucionárias que funcionem como expressão mais
avançada e sistemática da consciência socialista, a qual deve estar disseminada
o mais amplamente possível. Sem esses pré-requisitos da auto-organização da
classe trabalhadora a revolução não conseguirá ir além da tomada do poder
político e não avançará para uma auto-administração socialista da vida social.
 

 
 
 
 
 
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