[Bancariosdebase] A vergonhosa omissão do Estadão
Mÿffffe1rcio Cardoso da Silva
marciocarsi em yahoo.com.br
Segunda Janeiro 3 11:20:22 UTC 2011
Segue um interessante artigo que diz respeito a "imparcialidade" do citado
periódico.
Um forte abraço.
Márcio
vergonhosa omissão do Estadão
http://www.reformaagraria.blog.br/
Publicado em 21 de dezembro de 2010 — por reformaagraria2
Category (3) Monitor da CPMI e criminalização
por Lúcio Mello
Que o Estadão tem vínculos históricos com o agronegócio, isso não é lá uma
novidade. A relação do tradicional jornal, fundado nos tempos áureos dos
cafezais de São Paulo, com os grandes proprietários de terra voltados à
agroexportação não é também nada de novo.
O que tem assustado os leitores mais esclarecidos que dedicam seu tempo e
dinheiro para ler este jornal – mais que centenário – tem sido um histórico
recente de leviandade nesses últimos anos e uma luta quase que quixotesca
contra fatos e a realidade. As boas análises,com as quais seus editores foram
reconhecidos durante anos, fazia deste impresso uma referência para os grandes
debates da sociedade brasileira e sobre os rumos do nosso País. No entanto, as
análises cada dia mais superficiais estão refletindo em um total
descompromisso com o contraditório e com as matérias-prima do jornalismo: as
informações e os fatos.
Nesta terça-feira, 21 de dezembro de 2010, podemos ver esta contradição no
editorial “Deixem a Agricultura Trabalhar”. Como bem convém aos textos deste
espaço fundamental dos meios de comunicação, há uma mescla de dados com
argumentos, o que, a priori, saudamos e só nos faz enaltecer o papel da
imprensa em nossa sociedade, ampla democrática e com liberdade de expressão. No
entanto, o que assusta, enquanto jornalista e pesquisador, é uma total falta
de sustentação argumentativa no raciocínio, o que não contribui em nada para o
debate e para o crescimento da sociedade brasileira e de suas instituições.
Aos fatos: Em sua argumentação principal, o editorial louva a importância do
Agronegócio na sociedade brasileira, sobretudo na pauta das exportações
brasileiras e na promoção do superávit primário. Até aí, nada de errado. É
reconhecido o papel da monocultura agroexportadora na chamada modernização
conservadora entre 1964 e o fim da década de 70. Particularmente no meio rural
brasileiro, este processo fez-se sentir desde os anos 60. A ideia de uma
produção capitalista no campo surge no contexto da Revolução Verde que, a
partir dos anos 50, se tornou o paradigma dos países desenvolvidos e modelo de
desenvolvimento a ser seguido pelos países periféricos.
O que o editorial ignora, ou omite, é que estes foram os preceitos para a
intensa migração rural rumo as cidades cujos fenômenos foram profundamente
estudados e não podem ser ignorados, dentre eles o inchaço e posterior
favelização dos grandes centros urbanos, com significativo aumento da
violência. Não são poucos os pesquisadores que comparam este processo
migratório a processos de fechamento dos campos (enclosures) na Inglaterra da
Revolução Industrial de um verdadeiro exercito de mão-de-obra, disposto a
trabalhar por um salário mínimo cada vez menor entre os anos 70 e 90 em
condições miseráveis. Não creio que o Estadão ignore tal fato.
O editorial destaca ainda a projeção do atual Ministro da Agricultura, Wagner
Rossi, em ampliar o superávit em R$75 bilhões. Ora, desde os anos 80 a
agricultura tem, de fato, papel significativo nas pautas de exportações
brasileiras e consequentemente no superávit primário. Ao louvar este setor e
sua competitividade relativa ao agronegócio de outros países, o editorial
ignora ou omite que este mesmo setor tem parcela de culpa considerável na
dívida pública brasileira, seja através de sucessivas dívidas simplesmente não
pagas ou através de repasses com ônus ou tesouros de projetos agropecuários
faraônicos e verdadeiros elefantes brancos espalhados na paisagem rural do país
afora.
Dívida Agrícola, Títulos da Dívida Agrária, precatórios, a análise de Hashizume
estima em R$74 bilhões as dívidas em maio de 2008. É como dizer,
tautologicamente, como os biscoitos de tostines: que o superávit é necessário
para pagar a dívida que o mesmo setor acumulou e ainda acumula. A conta,
portanto, parece não fechar, e, mesmo assim, o jornal O Estado de São Paulo
pede para que o Governo Federal dê melhores condições. Além da anistia de
dívidas, juros subsidiados e total apoio político, a pergunta é: o que mais
querem os ruralistas e o agronegócio?
O editorial, ainda, chama o Ministério do Desenvolvimento Agrário, o MST e PT
de representantes da “bandeira do atraso”. A base do argumento qual seria? Não
está claro, mas ele defende o agronegócio por sua “eficiência” e aqui residiria
o avanço em oposição a estes “atrasados”. O avanço do agronegócio, porém, deve
se basear em eficiência política fisiológica, porque, economicamente, como
Guilherme Delgado demonstrou, não é lá essas coisas. Mas voltando ao atraso, o
editorial critica a revisão dos índices de produtividade. Ora, é no mínimo
contraditório, para não dizer paradoxal, um setor que se diz eficiente ter
medo da revisão de um índice criado pela própria legislação do Estatuto da
Terra em que, as já mencionadas “empresas rurais”, deveriam constantemente
melhorar seus índices, processo inerente a qualquer campo da economia
capitalista e baseada na competitividade.
Mas é ao combater a revisão dos índices de produtividades que o “Estadão” zomba
da inteligência do seu principal ativo: seus leitores. Vejamos: o editorial
defende que os brasileiros, a maioria vivendo em grandes cidades, depende de
alimentos bons, baratos acessíveis e de qualidade. Sem dúvida. No entanto,
segundo o jornal paulista é o agronegócio o responsável por estes alimentos.
Aqui o argumento ignora, ou omite que estudos do censo agropecuário de 2006
apontam que 80% dos alimentos consumidos por estes brasileiros das grandes
cidades vêm da produção de agricultores familiares, cerca de 4,5 milhões de
famílias.
O editoral não explicita que estes nunca se opuseram a revisão do índice de
produtividade e o porquê pode ser inferido em um conta bem simples: em 30% do
território estes produtores, com trabalho essencialmente familiar e com
propriedades com até quatro campos de futebol, produzem um volume de riqueza
estimado em 10% do PIB, quando a agropecuária para exportação ocupa 50% das
terras, com uso de agrotóxicos, máquinas, responde por 30% do PIB.
Portanto o “fato inegável” do editorial é negável e não resiste a qualquer
pesquisa de três cliques na internet. O agronegócio não é responsável por
alimentos bons, baratos e de qualidade. Por mais que comamos soja, açúcar, café
e suco de laranja, é o produtor familiar que abastece em sua maioria as cidades
de leite, feijão mandioca, gerando renda e impedindo o aumento do fluxo
migratório para São Paulo, Rio de Janeiro e capitais, com menor endividamento e
o controle por empresas transnacionais da produção.
Desculpem-me se a análise se torna enfadonha, mas agora vamos até o fim e falta
pouco
A “argumentação” ou peça publicitária, se preferirmos, chega então por
inferência lógica , ao menos segundo o autor do editorial, a conclusão que o
Brasil não precisa mais de reforma agrária. Portanto o país, com a pior
distribuição de renda, com cerca de 10% da população morando em favelas, com
30% de pessoas sem acesso a saneamento básico nas cidades inchadas e
sobrevivendo sabe-se lá como, não precisa desta “bandeira do atraso”.
Feita esta análise, ponto a ponto, uma última consideração sobre os aspectos
jornalísticos do momento em que vive a imprensa brasileira. O editorial, a
despeito de seu desejo de enaltecer este setor, incorre em profundos erros de
perspectiva histórica, sociológica e econômica. Claro que não espero do jornal
mais conservador brasileiro que ele negue suas origens, seria até primário.
No entanto, para mim, como jornalista, como pesquisador da geografia agrária e
membro da rede de comunicadores da reforma agrária, não é possível ignorar os
fatos ou tentar tampar o sol com a peneira. Acho que como eu, o sentimento de
um segmento considerável da população brasileira é de que a nossa inteligência
vem constantemente sendo subestimada pela grande imprensa. É cada vez menor os
espaços de análise na grande mídia e quando estas não são coniventes ao
jornais, não ocupam lugar nenhum em suas páginas, como o caso emblemático da
psicóloga e ex-colunista Maria Rita Kehl . Como um jornal que defende a
liberdade de expressão não dá, em suas páginas, o direito ao contraditório? Que
liberdade é essa que um fala e todos escutam?
É por isso que é importante convocar todos os blogueiros e meios de comunicação
alternativos , bem como os estudiosos do meio rural brasileiro a divulgarem
suas análise e contrapontos em nome de uma visão mais criteriosa dos grandes
meios de comunicação com a questão rural. Contem com a Rede de Comunicadores da
Reforma Agrária para isso. Talvez estimular o contraponto ao cada dias mais
precário ponto de vista dos grandes meios , com dados disponíveis e de fácil
acesso na internet, seja o caminho importate de formulação e militância.
O caminho aberto pela internet não pode ser negado e os fatos que não se
sustentam não podem mais ser repetidos como uma mentira até que se tornem
verdades. Que uma outra visão sobre o campo no Brasil possa ser discutida
abertamente na sociedade, com outras vozes, e novas ideias. Aos leitores, está
cada dia mais difícil empurrar-lhes análises distorcidas e engajadas de
veículos cada vez mais distante da realidade e incapazes de promover uma
análise menos rasa e mais sóbria do contexto social brasileiro.
Afinal, com ensina a letra de Zé Ramalho, apesar de viver tão perto da
ignorância, o povo foge dela .E com ensinam os filmes do Mazaropi, ele é capaz
de produzir sua própria sabedoria.
Lúcio Mello é jornalista, servidor público e mestrando em Geografia pela UnB
--
Não façamos da necessidade virtude.
Não transformemos o presente em futuro.
O possível só é dito quando o que é
Nos possibilita dizer:
Socialismo!
_____________Santo cínico__________
__._,_.___
| através de email | Responder através da web | Adicionar um novo tópico
Mensagens neste tópico (1)
Atividade nos últimos dias:
Visite seu Grupo
Trocar para: Só Texto, Resenha Diária • Sair do grupo • Termos de uso
.
__,_._,___
-------------- Próxima Parte ----------
Um anexo em HTML foi limpo...
URL: <https://lists.aktivix.org/pipermail/bancariosdebase/attachments/20110103/ec867ee3/attachment-0001.htm>
Mais detalhes sobre a lista de discussão Bancariosdebase