[Bancariosdebase] cartilha - bancário não é vendedor

Daniel tzitzimitl em terra.com.br
Quarta Março 30 14:57:24 UTC 2011


  Olá comp em s [1] do Bancários de Base
 Segue a cartilha de formação - "Bancário não é vendedor!" - já
com os acréscimos e revisada, conforme discutido em reunião.
 Daniel
 "A sociedade que aboliu a aventura tornou a abolição dessa
sociedade a única aventura possível” 
 anônimo, pichado nos muros de Paris no maio de 1968 
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	BANCÁRIO NÃO É VENDEDOR! 
	APRESENTAÇÃO 
	Diariamente os bancários são convencidos pela patronal, por meio
de discursos nas reuniões, informativos da empresa, cursos de
formação, etc., de que devem trabalhar como vendedores. São
convencidos de que “o trabalhador é quem faz seu próprio
salário”, ou seja, quanto mais vender mais acesso terá a cargos e
comissões mais elevadas, e assim por diante. São levados a construir
um ambiente de individualismo e isolamento entre os trabalhadores. 

	Somos contra esse discurso. O trabalho bancário não é
simplesmente um trabalho de venda. Bancários são prestadores de
serviço, não apenas vendedores. Essa diferença está nos manuais
acadêmicos de qualquer curso de administração ou assemelhados. Para
ficar em apenas um exemplo, vejamos: 

	“O marketing de produtos destina-se a bens de consumo não
duráveis, como alimentação, produtos de higiene pessoal,
vestuário; produtos duráveis, com eletrodomésticos, automóveis,
objetos de arte, moveis. Este bens tem uma característica tangível
ou seja podem ser produzidos, examinados, como colocados em estoque,
transportados pelo comprador antes que a transação seja finalizada
com o vendedor que oferece e, eventualmente efetua a venda.” 

	(...) 

	“Os serviços são intangíveis , isto é, não é possível ver
suas características antes dos mesmos serem comprados e usados pelos
usuários.  

	Ao contrário dos produtos os serviços não podem ser colocados em
" estoque" ou seja, devem ser produzidos e usados no momento da
transação, por exemplo: quando um cliente perde um horário marcado
no médico, o profissional não colocar em estoque a hora ociosa; da
mesma forma se não houver horas marcadas o horário vazio do
profissional será inevitavelmente perdido em termos de renda. 

	A terceira diferença entre serviços e produtos está no fato de
que quem presta o serviço deverá necessariamente estar em contato
com quem recebe, por exemplo: em uma boa aula de ginástica, sempre
haverá um trainner e um aluno.
(http://www.portaldomarketing.com.br/Artigos/Marketing%20de%20servicos.htm)”


	Em resumo, na venda de um produto a relação entre comprador e o
vendedor se encerra com a entrega da mercadoria. Na prestação de um
serviço a relação entre o prestador e o cliente permanece ao longo
do tempo. Ora, os chamados “produtos bancários” criam uma
relação em que os correntistas, donos de cartões de crédito,
seguros, planos de previdência, etc., permanecem freqüentando as
agências bancárias e demandando atendimento dos trabalhadores.
Atendimento significa trabalho por parte do bancário, cuja jornada
não se resume, portanto, ao ato de vender. 

	O banco pressiona os trabalhadores a apenas vender, e faz de conta
que o atendimento não existe. O volume de serviço é subestimado e a
quantidade de mão de obra é subdimensionada. Os bancos têm cada vez
menos funcionários, os quais precisam atender uma quantidade maior de
clientes. Diante da insatisfação dos trabalhadores, os bancos
respondem que a saída é a busca individual por melhores cargos e
comissões. Nós respondemos que a saída é a luta coletiva de todos
aqueles que sofrem com a constante degradação das condições de
trabalho. 

	No texto que apresentamos a seguir fazemos a discussão sobre
algumas das características do trabalho bancário nas últimas
décadas. Na primeira parte, temos um breve histórico das
transformações que os bancos têm imposto à categoria bancária nas
últimas duas décadas. Na segunda parte, fazemos o estudo do
dinheiro, a “matéria-prima” do trabalho bancário e suas
funções na economia. Na terceira parte, finalmente, apresentamos
alguns detalhes sobre os chamados “produtos bancários”. 

	A partir de um estudo científico do funcionamento do negócio
bancário, buscamos fornecer elementos para a luta por melhores
condições de trabalho nas agências e departamentos. 
	Bom estudo a tod em s [2] e a luta continua! 
	Coletivo Bancários de Base 
	São Paulo, abril de 2011 
	I- ATAQUES DOS BANQUEIROS CONTRA A CATEGORIA NOS ÚLTIMOS 20 ANOS 
	1.1.Desemprego em massa. 
	Uma característica dos bancos é uma alta composição orgânica do
capital, isto é, uma maior proporção do capital fixo (imóveis,
máquinas, computadores, terminais eletrônicos, etc) em relação ao
capital variável (salário). O setor bancário é altamente
informatizado, empregando pouca mão-de-obra. Na medida em que avança
a informatização de serviços, menos necessário é o trabalho vivo,
prestado pelos bancários. Por isso que cada reestruturação
produtiva/administrativa vem sempre acompanhada de demissões em
massa. 

	Esse movimento foi muito intenso na década de 1990, com a abertura
do mercado nacional e, ao mesmo tempo, a reestruturação produtiva
das empresas. Essa mudança radical exigiu um aumento ainda maior do
capital fixo em relação ao variável no conjunto da economia. Para
que as empresas tivessem capital-dinheiro para investir, e financiar a
reestruturação produtiva brasileira, foi necessário readaptar o
sistema financeiro e os bancos. Essa adaptação se intensificou após
a implantação do Plano Real, que tornou ainda obsoleta uma grande
quantidade de agências e formas de atendimento de balcão. Havia a
necessidade de “enxugar a estrutura corporativa” 

	O resultado disso foi um forte processo de demissão em massa,
principalmente após 1994. Foram desencadeados diversos planos de
demissão voluntária (PDVs), nos quais milhares de bancários se
desligaram da categoria. Este processo foi ainda mais radical nos
bancos estatais, sobretudo no Banco do Brasil. Sob o governo do PSDB,
além do PDV de 1995, o BB simplesmente demitia sem justa causa. 
	1.2. Fusões e incorporações 
	Ao contrário do que pregam os teóricos burgueses, a
livre-concorrência tende para a concentração de capital e ao
monopólio/oligopólio. As empresas maiores compram as menores ou suas
rivais derrotadas na concorrência, diminuindo o número de
concorrentes no mercado e estabelecendo uma situação de
monopólio/oligopólio. Com o perecimento de várias instituições
financeiras no curso da reestruturação dos anos 1990, alguns bancos
fecharam e outros foram adquiridos pelas instituições maiores. Nos
últimos 20 anos podemos aqui citar as principais aquisições: O
BRADESCO adquiriu, o BCN, FINASA, etc; o ITAÚ adquiriu o BANERJ,
UNIBANCO, BANK BOSTON, o Santander adquiriu o Noroeste, o Banespa, o
Real. O Banco do Brasil comprou o BEP, o BESC, a Nossa Caixa e
ultimamente adquiriu 49% do Banco Votorantim. 

	Cada fusão/aquisição traz a necessidade de uma nova
reestruturação corporativa para viabilizar retornos e maximizar
lucros. Setores “redundantes” nas duas empresas precisam ser
reduzidos para se enquadrar nas necessidades da nova empresa
unificada. Daí a necessidade de demitir em massa, forçar
aposentadorias “compulsórias”, precarizar as relações
trabalhistas e impor uma maior intensificação do trabalho. Com a
diminuição do número de funcionários nos bancos e a
intensificação da exploração sobre a mão-de-obra remanescente, a
saída foi fraudar a jornada de 6 horas, conquista histórica da
categoria bancária, mediante a criação de funções de
“gerência” e “assistentes” com jornadas de 8 horas. 
	1.3. Segmentação da categoria 
	A segmentação da categoria bancária é mais uma criação típica
da ideologia neoliberal, sob a justificativa de “modernizar as
relações de trabalho”. Trata de excluir juridicamente, mas não na
prática, determinados trabalhadores dos bancos. No início, esta
ficção se restringia às atividades que não eram a finalidade da
atividade bancária, como serviços de copa, segurança, telefonistas,
secretaria, etc. Todos os trabalhadores destes setores deixaram de ser
considerados formalmente como bancários, ainda que trabalhem nos
bancos e continuem a contribuir para os lucros bilionários das
instituições financeiras. Essa medida serve para afundar o nível
dos salários da categoria e maximizar os lucros. Os trabalhadores
terceirizados recebem até ¼ dos salários dos bancários de vinculo
direito. 

	Ainda no governo de FHC, o Banco Central baixou a Resolução nº
2.707/2000, a qual permitiu que os bancos terceirizassem
atividades-fim, como processamento de envelopes de depósito e
abertura de contas. Esses serviços passaram a ser feitos por
trabalhadores terceirizados que recebem salários muito inferiores em
relação aos bancários de vinculo direto formal. 

	Por último, os bancos montam estabelecimentos inteiros para
conceder crédito pessoal e para atender os clientes que não têm
condições de abrir contas bancárias e são por isso discriminados
pelos gestores como meros “usuários”. Assim, praticamente todos
os bancos possuem uma financeira especializada em empréstimos para
trabalhadores que precisam pagar suas contas e resolver pendências
administrativas. 
	1.4. Transformação dos bancários em vendedores (comerciários) 
	Conforme vimos, nos últimos 20 anos, os banqueiros fizeram de tudo
que foi possível para afundar o nível dos salários e aumentar a
jornada de trabalho. A terceirização criou uma subcategoria de quase
200.000 trabalhadores com salários rebaixados
(http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:lYTU9n38bzAJ:jus.uol.com.br/revista/texto/13517/empresarios-e-trabalhadores-diante-da-regulamentacao-da-terceirizacao-no-brasil+numero+terceirizados+bancos&cd=3&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&source=www.google.com.br).


	Agora a “moda” é bombardear ideologicamente o bancário para
fazê-lo acreditar que não é bancário, mas um vendedor de produtos,
como se fosse comerciário. Caso os banqueiros consigam convencer os
bancários de que são vendedores, isso trará desdobramentos
práticos desastrosos: os bancários poderiam ser equiparados à
comerciários. Isso implica em mudanças como a remuneração
variável (em que as comissões por venda se tornam cada vez mais
importantes em relação ao salário), trabalho aos finais de semana e
feriados, jornadas infindáveis de trabalho e condições de trabalho
ainda piores, salários rebaixados, etc. A meta dos banqueiros é
acabar com as conquistas sociais da categoria bancária em termos de
jornada, condições de trabalho, etc., de modo que os trabalhadores
deixem de ser bancários, ainda que na prática todos ainda trabalhem
em bancos. 
	II - DINHEIRO COMO MERCADORIA DOS BANCOS. 
	2.1. O que é dinheiro; 
	O dinheiro é, antes de mais nada, uma relação social que se
cristaliza numa mercadoria. Na civilização antiga, o dinheiro
poderia ser qualquer coisa que viabilizasse a troca entre produtos de
diferentes produtores. Os trabalhadores agrícolas, pastores,
pescadores, artesãos de diversos tipos, precisavam de um meio de
troca comum pelo qual pudessem trocar produtos de qualidades
diferentes segundo quantidades mais ou menos fixas. Esse meio de troca
comum é uma mercadoria especial, que assume assim a função de
dinheiro. Diversas mercadorias especiais foram usadas na função de
dinheiro, como o sal, o gado, e por fim os metais preciosos como prata
e ouro. O estabelecimento do dinheiro como meio de troca permitiu que
todas as outras mercadorias pudessem ser reduzidas a uma quantidade
determinada de dinheiro. 

	Com o desenvolvimento do capitalismo, o dinheiro passou a ter
também a função de capital. Mas num sistema socioeconômico fundado
sobre a desigualdade, a quantidade de dinheiro (meio de circulação)
começava a ser um entrave para dar vazão à produção e à
acumulação capitalista, seja pelo esgotamento das minas de metais
preciosos, seja pelo desgastes das moedas metálicas (os valores das
moedas eram medidas pelo seus pesos, o que possibilitaria a fraudes).
Por isso se tornou necessário substituir os metais preciosos por
papel moeda, o que veio junto com o desenvolvimento do sistema de
crédito. A emissão de papel moeda tinha que corresponder a uma
quantidade determinada de metal precioso depositado no Tesouro. Assim,
o papel-moeda não é dinheiro, mas seu símbolo. 

	Não adentraremos nos pormenores da relação do papel-moeda com o
seu lastro, que acabaria por desviar do objetivo central deste
material. Assim, para fins didáticos, adotaremos o papel-moeda como
dinheiro propriamente dito, bem como os créditos e débitos de
acertos contábeis. 
	2.2 Funções do dinheiro: a) meio de compra e b) meio de pagamento;

	Vimos que, antes do capitalismo, o dinheiro era uma mercadoria cuja
única utilidade era viabilizar as trocas de outras mercadorias. Todas
elas eram mensuráveis em dinheiro. Neste sistema de produção e
circulação simples das mercadorias, o movimento era a seguinte:
M-D-M. Traduzindo: as pessoas de posse das mercadorias excedentes,
confrontavam-se comprador e vendedor. Um com dinheiro e outro com a
mercadoria, no momento em que se dá a metamorfose em que a mercadoria
vira dinheiro e o dinheiro se converte em mercadoria ao mesmo tempo.
Mas a preocupação de tanto do comprador quanto do vendedor não era
de fazer da troca um negócio. No presente caso ninguém obteve lucro
com a transação. A preocupação de ambos era resolver uma questão
prática da vida cotidiana numa sociedade pré-capitalista: Ambos
tinham excedentes e ambos precisavam de uma mercadoria específica. 

	Com surgimento do capitalismo, o movimento da riqueza mudou de
qualidade. Antes, o detentor da mercadoria o convertia em dinheiro
para conseguir uma outra mercadoria de sua necessidade. Agora, o
movimento de circulação é D-M-D’, em que D’= d + m, em que m=
mais-valia ou lucro. O burguês entra no mercado com dinheiro, com o
qual adquire mercadorias para vendê-las e com isso extrair da
circulação mais dinheiro do que investiu. Com este montante, o
burguês reinveste na produção, adquire novas mercadorias a serem
trocadas por mais dinheiro, e a circulação recomeça o seu ciclo.
Nesta situação de circulação simples, o dinheiro é empregado como
meio de circulação, ou trocado em miúdos, um
“toma-lá-dá-cá”. O dinheiro é também conhecido como meio de
compra, ou seja, quando a metamorfose de dinheiro em mercadoria e
vice-versa (e ao mesmo tempo) é instantânea, encerrando assim a
efêmera relação comercial. Aqui não há qualquer preocupação de
ambos sobre o que os detentores do dinheiro e da mercadoria vão fazer
com o resultado da transação. Porém, para facilitar os nossos
estudos, o meio de compra, ou meio de circulação, é o nome que se
dá para o dinheiro empregado como recurso próprio para pagamento à
vista, na “bucha”, “uma em cima da outra”. 

	Ocorre que o processo de circulação e acumulação de capital não
funciona como um “reloginho” com sincronia perfeita entre oferta e
procura, seja porque as mercadorias ficam distantes do mercado
consumidor, seja porque o processo de produção de determinadas
mercadorias demanda um longo tempo, etc. Assim, é comum que os
compradores não tenham as mercadorias à sua disposição, ou ainda
que as tenham, não possuem dinheiro para adquiri-las naquele momento.
Manifestou-se assim a necessidade de se vender sem comprar, o que
necessariamente significa que na outra ponta da transação há
alguém que compra sem vender. Isso na pratica significa pagar ou
receber a mercadoria antes da venda ou compra, processo que é
formalizado em algum título (duplicata, por exemplo). Um atacadista
compra um lote de refrigerantes diretamente da indústria, mas não
dispõe de dinheiro para efetuar a transação. No meio comercial, o
negócio é fechado e o produtor entrega o lote pedido de bebidas e
emite uma duplicata com vencimento futuro (30 dias, por exemplo), sem
ter recebido um centavo sequer no ato da entrega das mercadorias para
o comerciante. O pagamento se dará no termo final da duplicata.
Muitas vezes, o prazo para o pagamento leva em consideração as
possibilidades de escoamento das mercadorias para que elas “se
paguem”. O nosso comerciante (nas condições “normais de
temperatura e pressão”) vende todo o lote de refrigerantes e com o
montante obtido das vendas paga a duplicata emitida na entrega das
mercadorias, já deduzidos todas as despesas inerentes (funcionários,
aluguéis, etc). 

	Por outro lado, o industrial entregou as mercadorias, mas o dinheiro
que espera obter com a venda para o atacadista só ingressará após
30 dias, sem que, no entanto, a indústria possa cessar a produção e
deixar de satisfazer todas as despesas ordinárias recorrentes
necessárias para permitir que se vendam mais lotes de refrigerantes.
É necessário que a fábrica de bebidas tenha capital, que pode ser
obtido alienando as duplicatas a receber, ou recorrendo a um fundo de
reserva da fábrica (uma espécie de “poupança”), ou ainda,
poderá recorrer aos empréstimos bancários. Isso também serve para
o atacadista, caso ele não consiga vender o lote de refrigerantes
até o vencimento da duplicata, isto é, quando as vendas “não se
pagam”. 

	Assim, vender sem comprar e comprar sem vender significa
necessariamente falarmos de crédito. E nestes casos, o dinheiro tem a
função de meio de pagamento, pois uma das partes do pólo da
metamorfose da circulação D-M-D’ foi feita antes de se completar o
seu movimento inverso correspondente: o fabricante entrega a
mercadoria (M) antes de receber a quantia correspondente pelo
atacadista (D, mas face ao fabricante, é D’). Caso ambos movimentos
se dessem de forma simultânea, o dinheiro teria função de meio de
circulação, que foi objeto de nosso estudo acima. 

	O dinheiro como meio de pagamento também é usado pelo consumidor
final para compras à prazo e financiamentos. Este crédito pode ser
obtido diretamente com o vendedor, ou também recorrendo aos bancos
mediante crédito direto ao consumidor, por exemplo. Mas nesses casos
o dinheiro cumpre as duas funções e ao mesmo tempo. Os recursos
levantados no banco para a compra de uma TV de plasma são meio de
compra face à loja, e o banco entra no lugar que seria da loja nesta
relação. Assim, as prestações a serem pagas pelo feliz
proprietário do aparelho seriam meio de pagamento face à
instituição financeira que concedeu o crédito 

	Disso se conclui que o crédito é um “milagre” do capitalismo,
pois permite fazer circular as mercadorias sem que haja lastro
correspondente. Isso faz com que se acelere a circulação das
mercadorias e permite maior crescimento econômico... Mas esse
crescimento é fictício, pois o desenvolvimento do mercado de
crédito é acompanhado pelo aumento do endividamento, que é uma
contradição. A sustentação deste processo é a capacidade de
saldamento das dívidas. Uma vez esgotada esta capacidade pela
inadimplência, interrompe-se bruscamente o processo de circulação e
não há mais escoamento de mercadorias, comprometendo todo o sistema
produtivo. São as crises econômicas, como esta que vivenciamos desde
finais de 2007 em escala mundial. 
	2.3 Movimento simples do dinheiro nos bancos DD’ 
	No item anterior começamos a ver como os bancos são importantes
para o desenvolvimento do sistema de crédito e para o funcionamento
do processo de circulação e acumulação do capital. Também vimos
qual a função do dinheiro no processo de circulação. Agora
estudaremos a relação dos bancos com o dinheiro. 

	Como já foi dito, o processo de circulação e acumulação não
funciona em sincronia fina, como um relógio, ou guiado por uma
“mão-invisível”. Muitas vezes, ainda que haja oferta e demanda,
pode haver outros elementos que perturbem este processo, como quebra
de safra, problemas climáticos, falta de infraestrutura, taxas
alfandegárias, etc. Pode inclusive acontecer que, ao contrário,
algumas (ou todas) as condições mudem favoravelmente, de forma que a
oferta seja exaurida muito mais rápido do que se esperava. Assim,
haverá ocasiões no processo de circulação em que determinados
setores da economia terão sobra de capital-dinheiro, bem como haverá
ocasiões em que determinados setores necessitarão recorrer a uma
fonte externa de recursos para manter o processo em funcionamento.
Desta forma, quando há sobra de capital-dinheiro, deposita-se no
banco. Mas quando há falta, recorre-se aos bancos para levantar
capital-dinheiro para dar continuidade ao processo. É esta entrada e
saída de dinheiro que caracteriza o setor bancário: recebe e
repassa. De um lado, os depositantes confiam no banqueiro para que
guardem o vil metal, oferecendo uma pequena remuneração, que são os
juros pagos ao poupador ou aplicador para deixar seu dinheiro
investido; do outro lado, o banqueiro concede empréstimos (com
garantia ou não) utilizando os mesmos recursos depositados na sólida
instituição financeira, recebendo em troca um valor maior em juros. 

	No papel que cabe aos bancos no processo de circulação e
acumulação do capital, a mercadoria utilizada é o próprio
dinheiro, dentro daquele movimento D-M-D’. Como o “M” aqui é
nada mais do que dinheiro, isto é “D”, então a movimentação é
D-D-D’. Simplificando a movimentação acima, então temos DD’,
em que D’= d+l, em que “l” é o lucro do banqueiro. 

	Trata-se do supra-sumo do fetiche capitalista: captar dinheiro para
emprestar e fazer mais dinheiro, mediante cobrança de juros. O banco
capta dinheiro barato (pagando juros baixos aos poupadores) e para
“vendê-lo” mais caro (cobrando juros altos dos devedores). A
diferença entre o juro que é pago pelo banqueiro ao aplicador e o
juro que é recebido pelo banqueiro do devedor é chamado de
“spread” bancário, é a fonte do seu lucro. É a isso que se
resume o trabalho bancário de intermediação financeira. O banco
não produz nenhuma mercadoria física, ele trabalha com uma
mercadoria especial, que é o dinheiro. O lucro do banco, conforme
explicaremos adiante, é uma parte do lucro total do setor
capitalista, que é apropriado pelo setor financeiro em troca desse
serviço de facilitar e acelerar a circulação de mercadorias
adiantando meio de pagamento na forma de crédito. 

	A afirmação de que o bancário não é um prestador de serviços
financeiros, mas um vendedor, não passa de um devaneio, de uma
ignorância sem precedentes. Primeiro porque o banco não produz
mercadorias físicas; e segundo, exatamente por isso, os bancos não
produzem mais-valia. O lucro dos bancos se origina na agiotagem, na
diferença entre juros pagos e juros recebidos, e não na produção
ou circulação de mercadorias. Assim, a afirmação de que o
bancário é um vendedor tem uma função puramente ideológica de
convencer os trabalhadores a aceitar formas cada vez mais intensas de
exploração. 

	Agora convém saber o que determina o lucro dos bancos, isto é, o
juro. Do ponto de vista da aparência, basta jogar uma percentagem
sobre a base de cálculo do montante e a partir daí teríamos o juro.
Ocorre que não nos contentamos com as aparências. Queremos chegar à
essência das coisas. Diante disso, surge outra pergunta: o que
determina que num determinado tempo e espaço a taxa de juros seja
“x”, “y”, ou “z” ? O que determina que alguém fixe um
número como parâmetro para servir de taxa de juros? 

	A resposta é a taxa de lucro, ou lucratividade média dos setores
produtivos de um determinado país ou grupo de países. Quanto maior
é a taxa de lucro realizada pelos patrões, maior é a taxa de juros.
Mas isso serve apenas para períodos de estabilidade econômica. Isso
explica, por exemplo, porque as taxas de juros praticadas pelos bancos
aqui no Brasil são muito maiores do que qualquer país desenvolvido,
pois aqui a taxa de lucro é maior do que nos países desenvolvidos.
É evidente que em tempos de crise cíclica ou estrutural (como a
atual) há outros fatores que também influenciam a alta ou a baixa
dos juros. Em épocas de crise, por exemplo, o dinheiro (na sua forma
de meio de pagamento, ou seja, crédito) é mais escasso, de forma que
as pessoas estão dispostas a pagar juros maiores para captação do
capital-dinheiro, e os bancos, por sua vez, elevam as taxas de juros
pelo fato do meio circulante estar escasso. 

	Até agora, explicamos o movimento simplificado do dinheiro nos
bancos. Capta-se para depois emprestar. Com o desenvolvimento do
sistema financeiro, as formas de captação e de empréstimos são
múltiplas. Porém apenas vamos deter nossas atenções para as formas
de captação de recursos pelos banqueiros, que podem ser públicos e
privados. Por ora, não consideraremos os recursos públicos (como o
Fundo de Amparo ao Trabalhador, que curiosamente é utilizado para o
patrão obter lucros) e privados (como fundos de pensão).
Trabalharemos com as formas de captação de capital-dinheiro surgidas
no dia-dia das agências, causa de tantas doenças e sofrimentos
psíquicos a que nós bancários estamos submetidos. 
	III – “PRODUTOS” BANCÁRIOS (captação) 
	3.1. Impropriedade do termo “produto”; 
	Nas linhas acima vimos, de forma simplificada, que os bancos captam
dinheiro barato e emprestam mediante juros, auferindo, assim, um
lucro. Os banqueiros não colocam a mão no bolso para fazer funcionar
o seu negócio. Os recursos utilizados para tal mister são oriundos,
em boa parte, de sua base própria de clientes depositários. Esta
entrada e saída de dinheiro (seja para meio de compra ou meio de
pagamento) se realiza por meio dos diversos serviços bancários
executados pelos trabalhadores dos bancos. Logo, o nome de
“produto” dados pelos gestores aos serviços prestados de
intermediação financeira pelos bancários é bastante inapropriado. 

	Isso significa que os banqueiros e sua tropa de choque de
administradores são burros? Não, pois a sua ignorância teórica
esconde a esperteza prática de quererem equiparar os bancários a
vendedores. A tentativa de convencer o bancário de que não é um
prestador de serviços, de que não é um bancário, visa impor uma
forma de relacionamento que é a mesma que vigora no comércio
(remuneração variável, trabalho aos fins de semana, etc.), ou seja,
impor a condição de comerciário ao trabalhador dos bancos,
retirando todos os direitos conquistados com muita luta, como, por
exemplo, a jornada de seis horas. Essa transformação gradual de
bancários em comerciários acontece em etapas, por meio de processos
como a terceirização. Ou ainda, o tratamento que classifica como
bancários apenas aqueles trabalhadores que nas agências celebram o
contrato de captação de dinheiro diretamente com o cliente,
excluindo da condição de bancários todos os demais trabalhadores
que não trabalham nas agências, embora estes dêem todo o suporte
necessário para a viabilidade do serviço de captação, como, por
exemplo, análise de documentos para contratação de crédito
imobiliário, etc. 

	Portanto, não são os nomes das funções que determinam o que o
bancário faz, mas é o que ele faz é que determina os nomes, por
mais que os banqueiros e o governo digam o contrário. Por isso, que
os meios de captação nas agências executados por nós SÃO
SERVIÇOS DE INTERMEDIAÇÃO FINANCEIRA e que nós bancários SOMOS
PRESTADORES DE SERVIÇOS, SIM. 
	3.2. O que está por trás do assédio para a contratação de
serviços bancários (fidelização) 
	Com o desenvolvimento do sistema financeiro, combinado com o
processo de concentração de capital na forma de uma tendência ao
oligopólio (domínio do mercado por um grupo restrito de empresas) é
muito comum que as instituições financeiras façam algum teatro de
uma fictícia concorrência, como se houvesse diferenças entre os
serviços que oferecem. No setor bancário, as formas de captação
são exatamente iguais. Os serviços existentes em cada banco são os
mesmos oferecidos por todos os outros. Toda e qualquer instituição
financeira oferece títulos de capitalização, seguros, planos de
previdência, consórcio, investimentos, etc, etc, etc. Todos os dias
somos assediados para “vender” esses “produtos”, bater metas
(muitas vezes pelos métodos mais questionáveis e ilegais) para
alavancar os resultados do banco. Mas se observarmos bem, os
resultados financeiros advindos da prestação destes serviços são
bastante modestos.  

	Vejamos os seguintes números: 

	“No terceiro trimestre de 2010, a participação dos produtos de
seguridade nos lucros do Bradesco foi de 29%, no Itaú Unibanco esse
número foi de 13%. No Banco do Brasil, a participação também é de
13%.” (Fonte: Brasil Econômico – 17/11/2010 -
http://www.blog.leonseg.com.br/seguros-elevam-lucro-dos-bancos/) 

	Ou ainda: 

	“O Bradesco é o banco que prioriza a atividade de seguros e
previdência com mais ênfase dentro do sistema financeiro e por isso
tem o maior ganho entre seus concorrentes. As seguradoras de bancos
como BB, Itaú e Caixa, por exemplo, apresentam, em média, ganho
equivalente a 10% do total consolidado do
conglomerado.”(http://vocesa.abril.com.br/blog/seguro-sa/2011/01/.) 

	O grosso do lucro dos bancos provém da concessão de crédito.
Coloca-se assim uma pergunta óbvia: por que massacrar os bancários
com metas “inúteis” de venda tendo em vista que o impacto da
contratação de tais serviços nos lucros bancários é muito
pequeno? 

	O objetivo do banco com a prestação de tais serviços não é
diretamente a captação de recursos, mas a fidelização dos
correntistas. Tendo em vista que é muito fácil abrir e fechar
conta-corrente, ou então, que é possível ter contas em diversos
bancos, os serviços de captação fazem com que os clientes mantenham
um vínculo mais forte com os bancos que oferecem tais serviços. Ao
contratar um seguro ou título de previdência com determinado banco,
o cliente mantém uma relação mais estreita com este banco,
concentrando seus recursos, viabilizando a captação de recursos por
um longo tempo. Por exemplo, a “venda” de um título da
capitalização em 48 mensalidades transforma o cliente numa fonte
permanente de captação de recursos por 4 anos com uma única simples
assinatura do correntista. Com isso, o banco pode especular para obter
lucros no mercado de crédito ou ainda na bolsa. O raciocínio serve
para os demais serviços de captação prestados por nós bancários,
dentro das características peculiares de cada serviço. 

	Assim, o que está por trás de toda e qualquer meta é transformar
cada correntista em uma fonte mais duradoura possível de recursos,
também conhecido pelo simpático nome de “fidelização”. Mas na
verdade trata-se de lançar ao cliente diversos grilhões para servir
aos bancos. O lucro não está no serviço de captação em si, mas o
que se faz com o resultado dele no ato do recebimento dos juros dos
empréstimos concedidos 

	Vejamos a seguir as principais formas de captação dos banqueiros,
bem como as suas peculiaridades. 
	3.3. Título de capitalização; 
	Trata-se de um contrato bancário em que o correntista se compromete
a fazer depósitos periódicos (mas pode ser depósito único também)
na instituição financeira e em troca, concorre a prêmios em
dinheiro, como se fosse uma loteria. Caso o correntista não seja
sorteado até o final do plano contratado, ele receberá, ou não, o
valor corrigido apenas pela TR, isto é, uma rentabilidade menor do
que a poupança. Torna-se evidente que o atrativo do plano só poder
ser a POSSIBLIDADE de ser sorteado para ganhar uma bolada em dinheiro,
pois como investimento é um péssimo negócio. 

	O fato dos depósitos serem corrigidos apenas pela TR faz com que
sejamos diariamente bombardeados com metas envolvendo este tipo de
contrato. Afinal, o dinheiro que é captado via capitalização é
usado para que o banqueiro empreste a juros exorbitantes. Ademais, o
Título de Capitalização tem sua liquidez bastante reduzida em
comparação com a poupança. Os planos costumam desencorajar a
desistência do correntista antes do final do prazo retendo parte dos
depósitos efetuados. Por exemplo, num plano de 36 depósitos mensais,
caso o correntista queira sair do plano depois de, digamos, 15 meses,
tendo efetuado 15 depósitos, ele não vai receber de volta o total
que depositou, mas, por exemplo, apenas levantará o equivalente à 10
depósitos. Desta forma, por meio dessas cláusulas de retenção, os
bancos “convencem” os correntistas a ficarem até o final do
plano. Na poupança, ao contrário, o correntista faz os depósitos
quando quiser, saca quando quiser e o quanto puder, e permanece com a
conta até quando quiser. Os bancos têm muito menos controle sobre os
correntistas através da poupança, o que faz do título de
capitalização uma de suas alternativas preferidas de captação de
recursos. A pressão pela venda desses títulos é uma das fontes de
tantos adoecimentos da categoria. 
	3.4. Seguros; 
	Trata-se de um contrato de serviços em que o segurado se compromete
a pagar uma mensalidade chamada de prêmio à seguradora, para que
receba alguma indenização, caso haja algum sinistro com o bem
segurado, que pode ser bem diverso (vida, automóvel, imóveis, etc).
Em outras palavras: o pagamento do prêmio é certo, mas a
indenização não. A seguradora cobra como prêmio um valor
suficiente para cobrir as despesas de pagamento de sinistros, suas
despesas administrativas, e auferir ainda uma margem de lucro. Além
do mais, as seguradoras lançam mão da “franquia”, uma taxa que
deve ser paga pelo segurado para fazer uso da indenização, como
forma de dificultar o pagamento da indenização. A franquia nada mais
é do que a participação do segurado no pagamento de sua própria
indenização. 

	Hoje, o mercado de seguros se desenvolveu tanto a ponto de poder
mapear as possibilidades de risco a partir das características
individuais do bem segurado e os hábitos de vida da pessoa do
segurado. Conforme for o maior a possibilidade de sinistro, maior é o
prêmio que o segurado deverá pagar. 

	Esta forma de captação pelos bancos é ainda mais vantajosa, pois
os banqueiros não tem de dar satisfação ao segurado com o que faz
com os recursos recebidos como prêmio (enquanto que no título de
capitalização, há o compromisso de devolver o valor depositado pelo
correntista, ainda que parcialmente) . Findo o prazo do contrato de
seguro e não tendo acontecido sinistro algum, o banco não tem a
obrigação de devolver os valores pagos como prêmio. Ou ainda, se
houver um sinistro, a indenização somente será efetuada se o
segurado pagar a tal franquia.  

	Uma vez que os pagamentos dos prêmios são a única certeza neste
tipo de contrato, o banco não tem obrigação alguma de dar
satisfação sobre os recursos recebidos dos segurados. Se o banco
quiser especular na bolsa, pode. Se quiser emprestar a juros
exorbitantes, também pode. Se quiser dar 152% de aumento para os
diretores da instituição financeira (como aconteceu no BB no início
da década de 2000, quando o funcionalismo já sofria com 6 anos de
congelamento salarial) também pode. 

	É por todas estas vantagens para os bancos é que somos obrigados a
cumprir metas interplanetárias de contratação de seguro. O lucro
obtido com este tipo de contrato é irrisório frente o lucro
conseguido com os juros dos empréstimos. Por ser praticamente de
graça a captação de recursos, os seguros também são fontes de
adoecimentos dos bancários . 
	3.5. Previdência Privada; 
	Primeiramente, só há mercado para planos de previdência privada
por conta da conveniente falência da previdência pública.
Empreende-se um ataque ideológico permanente sobre a previdência
pública com a afirmação falsa de que há um “rombo da
previdência”, que seria o resultado do aumento vertiginoso do
número de beneficiários. Mas na verdade, tal rombo tem como origem o
desvio de recursos da previdência para pagamento de juros da dívida
pública, sem mencionar o fato de que o Estado não dá a sua
contrapartida na contribuição da Seguridade Social como está
determinado na Constituição. Por outro lado, a mesma mídia que
propaga a mentira do “rombo da previdência” omite a informação
que as próprias estatais, assim como os bancos privados, estão entre
as maiores devedoras do INSS. Os cinco maiores bancos privados do
país, “Bradesco, Itaú, Unibanco, Santander e ABN-Amro Real devem,
juntos, R$ 135,9 milhões. Os dois maiores bancos estatais (Banco do
Brasil e Caixa Econômica Federal) são responsáveis por R$ 293,6
milhões em dívidas” (Folha de São Paulo de 17/05/2009).  

	Assim, o mercado para o plano de previdência privada a partir de
uma suposta falência da previdência pública é convenientemente
criado de maneira artificial pelo Estado. Feitas estas
considerações, passemos a estudar o plano de previdência privada.  

	Diferentemente da previdência pública, em que a geração de
trabalhadores que estão na ativa banca a aposentadoria da geração
anterior de trabalhadores que já estão inativos, no plano de
previdência privada o cliente banca a sua própria aposentadoria por
meio da formação de uma poupança de reserva. A reserva formada
pelos depósitos do cliente é investido pelos bancos, geralmente em
aplicações de longo prazo, como títulos públicos ou ações de
primeira linha. Os recursos depositados são administrados pelos
bancos de acordo com o permitido no contrato e com o gosto do cliente.


	Até o início da década de 2000, os planos eram de Benefício
Definido, isto é, os bancos se responsabilizavam por garantir o valor
da pensão contratado no final de um período longo (de 20 a 30 anos,
por exemplo). Depois, com a mudança muito conveniente em favor dos
bancos, só passou a ser oferecido o PGBL (Plano Gerador de
Benefícios Livres) e do VGBL (Vida Gerador de Benefícios Livres),
que se diferenciam entre si apenas pelo regime tributário. O termo
“Livre” significa “livre de responsabilidades com o cliente”.
Desde então, nestas novas modalidades de plano, a única coisa certa
é a contribuição do cliente, e os bancos não tem qualquer
responsabilidade de garantir a pensão do beneficiário caso haja
problemas de ordem conjuntural, como queda da bolsa, ou
desvalorização dos títulos públicos. Em outras palavras: os bancos
transferiram o ônus da administração dos recursos para os clientes.


	Diferentemente dos seguros, aqui os bancos têm que prestar contas
do dinheiro depositado pelos clientes. Ao conseguir o fim do modelo de
benefício definido, os bancos obtém liberdade para lidar com os
recursos e se desresponsabilizar por eventuais prejuízos. Via de
regra, os depósitos são aplicados em fundos de renda fixa, fundo de
ações, ou ainda em fundos mistos (mescla de renda fixa com ações).
Todo o dinheiro suado do trabalhador é torrado na especulação com
papéis do mercado financeiro. E por incrível que pareça, os bancos
ainda cobram uma taxa de administração por esse serviço, a qual é
descontada do patrimônio do fundo (que geralmente é milionário),
mas que é rateada entre os felizes poupadores dos planos. 

	Por ser um contrato de longo prazo, o título de capitalização é
um excelente produto para “fidelização” do correntista, isto é,
torna-se mais difícil a quebra do vínculo do cliente com o banco. Um
plano de 20 anos, por exemplo, garante que este mesmo correntista, ao
longo de todos esses anos, se endivide no cartão de crédito, no
cheque especial, faça financiamentos, etc, etc. O cliente pode até
optar por usar o montante do dinheiro depositado no plano de
previdência antes do vencimento do plano, ou seja, resgatar a reserva
antes da aposentadoria, mas as alíquotas de IR incidentes no ato do
saque desencorajam tais possibilidades. Ademais, o cliente não pode
fazer quantos saques forem necessários. Sempre há um período longo
permitido entre um saque e outro (6 meses, por exemplo). 
	3.6.Consórcio; 
	O consórcio não é uma fonte de captação tão interessante
quanto as opções anteriores, exceto pelo fato de também ser um
contrato de longo prazo. Consórcio nada mais é do que uma
associação de pessoas para adquirir um bem, de forma parcelada,
porém sem pagar juros. É isso que os administradores chamam de
“produto”. Tendo em vista que um grupo de consórcio autônomo é
inviável do ponto de vista legal e burocrático, os bancos cedem toda
a sua estrutura para formação mais prática e simplificada de grupos
e cobram uma taxa para isso. 

	As pessoas do grupo contribuem periodicamente até formar um
montante mínimo para aquisição do bem. A partir daí, o integrante
recebe o bem por uma das duas hipóteses: 1-por meio de sorteio, ou
2-por meio de um lance (tal e qual um leilão). Tanto num caso quanto
no outro, o consorciado, embora com o bem em posse, pagará o saldo
parceladamente sem juros. 

	Como visto, o consórcio é um contrato que a pessoa não tem pressa
para receber o bem. Na cabeça do cliente é como se estivesse fazendo
uma poupança vinculada à compra do bem desejado (um automóvel, por
exemplo) 
	3.7. Ainda sobre os serviços bancários 
	Acabamos de desdobrar em linhas gerais os “produtos” mais comuns
no meio bancário, mas explicá-las de forma sistemática ainda não
caracteriza os bancários como bancários. Nosso serviço, de maneira
simplificada, se resume a captar recursos para cedê-los cobrando o
juro. Agora veremos de forma mais inequívoca, que os ‘produtos”
não são produtos. A diferença entre um produto e um serviço é que
no produto a relação entre comprador e vendedor se encerra com a
transação de compra-venda. No serviço, há uma série de
desdobramentos práticos que seguem se desenrolando depois da
celebração do contrato, de modo que a relação se prolonga no
tempo. 

	No meio financeiro, cada “produto” vendido cria uma relação
que torna possível a prestação continuada de diversos serviços
para a manutenção de cada contratação específica. Ao “vender”
um título da capitalização, podem-se criar uma série de demandas
como saque parcial, encerramento prematuro do contrato, etc. Sobre os
seguros o cliente pode fazer endosso, pode aumentar ou reduzir a base
de cobertura, etc. Na previdência privada, o cliente pode aumentar ou
reduzir o prazo de contribuição, aumentar ou diminuir a
contribuição, fazer contribuição esporádica, pode até suspender
e sacar a reserva monetária, etc. Para cada conta aberta, haverá a
possibilidade de aumento ou redução de limite de cheque especial,
por exemplo, ou contratação de cartão de crédito, e assim por
diante, etc, etc... 

	Diante de todas essas possibilidades, a quem o cliente procurará
nas agências bancárias, senão o bancários para executar cada um
destes serviços? O “vendedor”? Não. O BANCÁRIO. Cada contrato
celebrado entre o banco e o cliente implica necessariamente numa
série de serviços que o circundam, serviços esses que terão que
ser prestados por uma categoria específica de trabalhadores, que são
os bancários. É necessário ter alguém de carne e osso para
executar esses serviços. Assim, cada contrato firmado implica mais
serviços a ser executados por nós, bancários. Significa que o ato
de assinar um contrato de seguro, abertura de conta corrente,
capitalização, etc... é, na verdade, o INÍCIO de uma relação
comercial-financeira com os clientes e não o seu final. Para cada
“produto” vendido surgirá um cliente que procurará a agência
bancária para executar algum serviço correlato com o contrato. 

	Certamente não é o empregado do comércio e/ou correspondentes
bancários que executará esses serviços. É justamente por isso que
os banqueiros e o governo se esforçam tanto para nos convencer que
somos vendedores, pois tal discurso esconde o fato de que cada
contrato firmado demanda uma série de serviços para a sua
manutenção, que justificaria a contratação de mais bancários e
redução da jornada de trabalho. 
	IV - CONCLUSÃO. 
	Como se nota, a idéia de que o bancário é vendedor e de que os
serviços prestados nos bancos são “produtos” não resiste ao
menor questionamento de seus fundamentos. Vimos que os trabalhadores
bancários são sim prestadores de serviços de intermediação
financeira, o que permite que os bancos captem recursos junto à sua
base de clientes (evidentemente que não computamos aqui os recursos
públicos jorrados do erário). Em outras palavras: é o bancário de,
um modo geral, que é a força motriz do movimento da mercadoria
dinheiro em DD’.  

	No entanto, os banqueiros e o Estado fazem uma verdadeira campanha
ideológica sobre a categoria para nos convencer de que bancário é
vendedor de “produtos”. Mais do que subestimar a nossa
inteligência, os patrões querem, pelo menos, três coisas: 1-que
percamos a identidade enquanto categoria para assim criar um cenário
subjetivo para: 2- retirar direitos, reduzir o nível dos salários; e
3-promover uma luta fraticida de todos contra todos, intensificando o
estranhamento entre os colegas de trabalho e a divisão da categoria. 

	Reconhecer esses pontos traz algumas conseqüências importantes
para nossa luta e organização: 

	A principal delas é a mudança no eixo das campanhas salariais.
Devemos lutar por salário, não por remuneração variável.  

	Nas últimas campanhas salariais o grande chamariz tem sido a PLR.
Merecemos uma fatia do lucro dos bancos que tanto trabalhamos para
construir, por isso merecemos a PLR, e lutamos que seja linear, ou
seja, para que a parcela do lucro do banco seja dividida em partes
iguais para todos os trabalhadores, da diretoria aos escriturários.
Mas a nossa campanha salarial não pode ser uma campanha por PLR. O
acordo da PLR deve ser negociado em separado e fora do período de
campanha salarial. A idéia de que o objetivo da campanha salarial é
uma PLR maior legitima o próprio discurso do banco: o trabalhador
deve vender mais, para que o banco tenha um lucro maior, para que o
próprio trabalhador tenha uma PLR maior... 

	Ora, como acabamos de ver, o lucro dos bancos não depende
necessariamente das vendas de produtos, mas de um relacionamento
continuado com os clientes, que requer um trabalho permanente e bem
feito de atendimento, o qual buscamos fazer, mesmo em péssimas
condições. Por isso merecemos salários maiores! 

	O índice que reajusta o salário é o mesmo que reajusta todas as
demais verbas e benefícios, como 13º, férias, FGTS, INSS,
vale-refeição e alimentação, etc. Além disso, por lei, o salário
não pode ser rebaixado: uma vez reajustado, não pode haver
redução. Ou seja, aquilo que conquistamos numa campanha salarial tem
resultados de longo prazo, com influência em toda nossa vida, até a
aposentadoria. 

	Por isso reafirmamos: nossa luta é por salário! 

	Além do salário, precisamos de outras conquistas que valorizem o
nosso trabalho: 

	- Garantia de emprego e estabilidade para toda a categoria; 

	- Plano de cargos e salários, que valorize a dedicação e a
permanência dos trabalhadores na empresa; 

	- Contratação de mais trabalhadores para atender a demanda; 

	- Fim das terceirizações e dos correspondentes bancários; 
	Chamamos todos os bancários do país a se organizar a partir dessas
idéias. Discuta com seus colegas, organize-se, movimente-se! 

	Junte-se a nós nessa luta!  
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