[Bancariosdebase] rascunho artigo degradação jornal abril

Daniel tzitzimitl em terra.com.br
Quarta Março 30 15:28:18 UTC 2011


  Segue texto para o próximo jornal do Bancários de Base, sobre a
degradação do trabalho bancário.
 Daniel
 "A sociedade que aboliu a aventura tornou a abolição dessa
sociedade a única aventura possível” 
 anônimo, pichado nos muros de Paris no maio de 1968 

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	A DEGRADAÇÃO DO TRABALHO BANCÁRIO 
	Os estudos de sociologia do trabalho dividem as formas de
organização da produção em dois estilos, vigentes em diferentes
períodos históricos. 

	No início do século XX surge o taylorismo-fordismo, que predominou
na maior parte do século passado. Nessa forma de organização as
tarefas eram divididas em seus mínimos movimentos e cada trabalhador
se especializava em um único desses movimentos, tendo seu ritmo de
trabalho rigorosamente controlado pelas máquinas e pela gerência. O
exemplo clássico desse período é a cena do filme "Tempos Modernos"
em que o personagem de Chaplin sai da fábrica em movimentos
espasmódicos, como se ainda estivesse apertando parafusos. 

	A partir da década de 1970, generalizou-se o chamado toyotismo, em
que as tarefas se tornam mais flexíveis, os trabalhadores ganham mais
responsabilidade, mas a mão de obra é drasticamente reduzida. A
expansão do toyotismo coincide, no campo da política, com o
neoliberalismo, que se caracteriza por uma ofensiva da patronal e dos
governos pela retirada de direitos dos trabalhadores. Coincide também
com a mundialização do capital (cujos defensores chamam de
globalização) e com uma revolução tecnológica em que se destacam
a robótica, a informática, as telecomunicações e a internet. 

	Essas mudanças dão origem ao discurso do "fim do trabalho", "fim
da lei do valor", substituição do trabalho material pelo “trabalho
imaterial”, entre outras bobagens. Diz-se que a revolução
tecnológica libertou o homem de trabalhos penosos e lhe deu a
oportunidade de se dedicar a trabalhos intelectualmente estimulantes. 


	Na verdade, mesmo os trabalhadores empregados nos ramos que
mobilizam as novas tecnologias estão sujeitos a intensa exploração.
Neste início do século XXI, a mundialização neoliberal criou uma
situação de desemprego estrutural, em que um número cada vez maior
de trabalhadores, tanto materiais quanto imateriais, concorre por um
número cada vez menor de vagas, que oferecem salários menores, menos
direitos e exigem um trabalho mais intenso. 

	No livro "Infoproletários - a degradação real do trabalho
virtual", coletânea de ensaios organizados por Ricardo Antunes e Ruy
Braga, descreve-se a situação dos trabalhadores desses novos ramos.
A maior parte do livro é dedicada aos trabalhadores de telemarketing
ou "call centers", mas muitos dos conceitos ali tratados se aplicam
também a nós bancários. 

	Vivemos hoje o que se pode chamar de "neotaylorismo informacional".
Nesse sistema de organização, um setor numeroso de trabalhadores
assalariados, tais como bancários, escriturários, atendentes,
vendedores, teleoperadores, etc., emprega as novas tecnologias
(informática e telecomunicações) em trabalhos automatizados,
repetitivos, estressantes e pouco criativos. 

	As características desse neotaylorismo informacional, são:  

	- tendência para a remuneração variável, ou remuneração por
produção, ou trabalho por comissão; 

	- alta rotatividade da mão de obra, com os trabalhadores
permanecendo poucos anos em cada emprego, geralmente até concluir a
faculdade; 

	- concentração do capital em grandes empresas que empregam
milhares de trabalhadores; 

	- ausência de organização sindical, especialmente nos locais de
trabalho; 

	- desrespeito sistemático aos direitos trabalhistas relativos à
duração da jornada, trabalho em fins de semana, licenças médicas; 

	- “epidemia” de doenças funcionais, ou adoecimento em massa de
trabalhadores por stress e LER-DORT; 

	- estímulo ao individualismo e à competitividade; 

	- isolamento entre os trabalhadores de cada equipe e cada local de
trabalho, impedidos de se comunicar e criar laços coletivos; 

	- controle rigoroso do tempo, dos horários de chegada e saída,
intervalos de almoço, pausa para banheiro, etc.; 

	- cobrança constante de metas; 

	- autoritarismo no local de trabalho, arbítrio da patronal e abusos
constantes de poder; 

	- assédio moral como instrumento de gestão; 

	- ameaça constante de demissão e insegurança permanente no
trabalho; 

	- monitoramento permanente e “on-line” dos trabalhadores por
parte dos supervisores, que acompanham o tempo de atendimento, o
“script” do diálogo com os clientes, a produtividade e as vendas,
etc.; 

	- formas precárias de contratação, como terceirização, trabalho
temporário, estágio, menores aprendizes; 

	- emprego de mão de obra de jovens, mulheres, negros, homossexuais,
portadores de necessidades especiais, obesos, etc.; 

	Essas características são mais comuns em algumas categorias
profissionais do que em outras. Mesmo assim, podemos dizer que
configuram tendências que em maior ou menor medida se abatem também
sobre a categoria bancária. Atendemos clientes em grande quantidade,
como peças numa linha de montagem, com a pressão permanente da
gerência, monitorando o tempo de atendimento e a performance, como um
“Grande Irmão” digital onisciente. 

	Recentemente o Bradesco iniciou a digitalização da compensação,
que passará a ser feita nas agências, as quais vão acumular
serviço, sem a contrapartida de mais contratações. No Banco do
Brasil, a plataforma de atendimento vigente desde o início de 2010
já monitora o tempo de atendimento dos caixas e escriturários,
exercendo uma pressão constante para que os trabalhadores sejam mais
rápidos. São alguns dos exemplos de como o uso de novas tecnologias
não necessariamente beneficia os trabalhadores, ou na verdade os
prejudica, se não houver formas coletivas de organização e de luta
para preservar nossos direitos e melhorar as condições de trabalho. 

	Para concluir, lembramos que durante o século XX, foi a
mobilização das massas de operários do sistema taylorista, através
de greves e outras lutas, que garantiu no Brasil direitos como
férias, 13º, descanso semanal, redução da jornada,
licença-maternidade, etc. No século XXI, cabe aos trabalhadores do
sistema “neotaylorista”, ou seja, nós bancários e outros
setores, retomar essas lutas, defender nossos direitos e avançar para
novas conquistas. 
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