[Bancariosdebase] Contribuição para o Encontro Nacional das Oposições

Mÿffffe1rcio Cardoso da Silva marciocarsi em yahoo.com.br
Quinta Março 31 04:47:17 UTC 2011


Prezados companheiros, manos e minas.

Segue a Contribuição do Coletivo Bancários de Base para os debates do Encontro 
Nacional das Oposições na cidade de Natal-RN.Como é de nossa tradição, sempre a 
publicamos antes do Encontro para os trabalhadores de nossa categoria, embora 
não seja com tanta antecedência assim. Por outro lado sabemos que o conteúdo não 
pertence ao nosso Coletivo, mas a todos aqueles que queiram discutir, de forma 
organizada e coletiva, os rumos da categoria. E por isso pedimos a compreensão 
dos companheiros.

Além deste material, apresentamos uma proposta de uma cartilha de propaganda 
para a disputa ideológica contra o governo e a patronal. Trata-se do anexo, cujo 
título é "Bancário não é Vendedor" em que explicamos para o trabalhador o que 
está por trás da ideologia de que somos "vendedores" e que os serviços prestados 
por nós são "produtos". Denunciamos que o escopo disso é convencer o bancário 
para depois usurpar as conquistas históricas da categoria, como a jornada de 
seis horas, instituir expediente nos finais de semana...equiparando o bancário a 
comerciário. Propomos que o material seja trabalhado pelas oposições e pelos 
sindicatos em suas respectivas bases. 

Nesta mensagem mandarei apenas a "Contribuição....". Na próxima, envio a 
cartilha.

Bom encontro e bons debates para todos nós.

Um forte abraço.

Márcio
Coletivo Bancários de Base (BDB)

___________________________________________________________________
 
CONTRIBUIÇÃO DO COLETIVO BANCÁRIOS DE BASE
PARA O ENCONTRO NACIONAL DAS OPOSIÇÕES
NATAL 2011
 
            APRESENTAÇÃO
 
            A crise econômica iniciada em 2008 tem novos desdobramentos no 
início de 2011. Os povos árabes do norte da África e do Oriente Médio respondem 
com a derrubada dos governos aos sofrimentos agravados pela crise em países 
governados há décadas por servos do imperialismo. Desemprego para quase metade 
dos trabalhadores, falta de expectativa de uma vida melhor para a juventude, 
temperados pela xenofobia dos países da União Européia, que fecharam suas 
fronteiras para a imigração; são alguns elementos que contribuíram para onda da 
abertura democrática no mundo árabe. No plano mais geral, vemos a contradição da 
desvalorização do dólar empurrando o mundo lentamente para um cataclismo 
econômico.
            No plano nacional o “jeito PT de governar” é aplaudido pela 
burguesia nacional e internacional mas, ao mesmo tempo, já engatilhou uma 
possível substituta: Marina Silva do PV, que soube muito bem trabalhar o mote da 
ecologia entre os trabalhadores. Seria cômico se não fosse trágico e irônico, 
pois o PV apóia os transgênicos e também o aumento das áreas apara desmatamento 
nas propriedades na Amazônia prevista no projeto do Novo Código Florestal.
            Nesta conjuntura nacional e internacional está inserido o presente 
Encontro inspirado pelos ares de mudança que sopram do Oriente. Este é um 
momento muito importante para o sindicalismo bancário brasileiro, pois devemos 
discutir os meios de retirar o controle da campanha salarial das mãos da 
CONTRAF-CUT, o que só pode ser feito se anteciparmos a preparação da campanha. 
Precisamos derrubar a ditadura dos governistas da CONTRAF-CUT, que são os 
maiores obstáculos, a serviço do governo e dos banqueiros, para as conquistas 
dos bancários públicos e privados.  O maior exemplo disso é a tática “imexível” 
da mesa única.
            A finalidade da mesa única é evitar o questionamento do governo do 
PT, partido dos dirigentes sindicais cutistas, componentes da CONTRAF-CUT, e 
também responsável por cargos chaves nos bancos federais. E assim as 
necessidades da categoria são colocadas em último plano. É por isso que não se 
luta por estabilidade nos bancos privados; não se luta pela instituição do 
delegado sindical EM TODA A CATEGORIA; nem se cogita a reposição das perdas 
salariais experimentadas principalmente pelos bancários do setor público por 
conta de 10 anos de congelamento salarial; também pelo mesmo motivo os 
dirigentes cutistas não lutam pela isonomia de direitos entre os bancários novos 
e os antigos. Isso só para citar alguns exemplos...
            Se, por um lado, a mesa única é uma tática que se mostrou errada, 
por outro a oposição está dispersa em nível nacional. Em 2010 a oposição não 
teve uma ação coordenada. Cada oposição atuou sem considerar a categoria como um 
todo nacionalmente. O resultado disso é que ficou mais fácil para a Articulação 
e para os banqueiros poder desorganizar as campanhas salariais. Um exemplo disso 
é a indefinição da Oposição quanto à participação nos fóruns da CONTRAF-CUT: 
afinal, devemos ou não participar? Se sim, qual a política? Se não, qual é a 
alternativa colocada CONCRETAMENTE? É possível ter uma atuação de oposição, de 
acordo com as expectativas da categoria, nos fóruns da CUT? Para estas e outras 
perguntas procuraremos encontrar as respostas neste encontro coletivamente .
 
            Bom encontro para tod em s!
 
            Bancários de Base – São Paulo – abril de 2011.
 
            1. CONJUNTURA
 
1.1  Internacional
 
            1.1.1 Continuidade da crise e crise da alternativa socialista
 
            A crise mundial iniciada em 2008 ainda não está superada no plano da 
economia. Há sinais de recuperação da produção e do comércio nos Estados Unidos 
e na Europa, mas que ainda não chegaram aos níveis pré-crise. Além disso, a 
crise que estamos atravessando não é apenas uma crise econômica, mas uma crise 
societal, ou seja, uma crise do modo de produção social em suas várias esferas 
(ambiental, energética, alimentar, cultural, etc.), a qual se localiza num 
contexto geral de crise estrutural do capital. Os impactos sociais, políticos e 
culturais da crise econômica são por demais severos para que se possa dizer que 
o mundo retornou à “normalidade” pré-crise. Seguiremos convivendo com esses 
impactos no próximo período.
            A crise atual já fez com que, numa série de países fortemente 
afetados, o grau de insatisfação social chegasse ao ponto de colocar milhões de 
pessoas nas ruas para derrubar os governos. A diferença é que, desta vez, os 
povos se levantam contra governos muito mais duros, ditaduras que já duravam 
décadas, que pareciam sólidas e inquestionáveis, em países com uma enorme 
importância estratégica para o imperialismo
            Além disso, no próprio coração do imperialismo, o ataque às 
condições de vida dos trabalhadores, necessário para que os governos possam 
recompor os orçamentos dilacerados pelo salvamento da burguesia, colocou esses 
trabalhadores nas ruas também nos países centrais. A Europa já enfrentou greves 
gerais na França, Espanha e Portugal, mobilizações em diversos países, e um 
estado quase permanente de enfrentamento na Grécia, em que quase dez greves 
gerais fortíssimas se sucederam desde meados de 2010. Agora, a classe 
trabalhadora começa a se mover até mesmo nos Estados Unidos, que há décadas, 
desde o início do governo Reagan, não assistiam a processos de mobilização tão 
grandes como o que está acontecendo nos estados de Wisconsin, Minnesota, Ohio, 
Indiana e Pensilvania, com marchas de dezenas de milhares de funcionários, 
apoiados pela população.
            Assim, por mais que os lucros da burguesia tenham retornado, e que 
aos poucos, nos próximos anos, se reinicie um novo ciclo de crescimento, o que 
ainda não está claramente colocado, as conseqüências da crise continuarão 
provocando um acirramento da luta de classes, com dificuldades políticas enormes 
para a burguesia seguir administrando a crise estrutural. O mundo já não é o 
mesmo depois do retorno das lutas sociais nos países imperialistas e da colossal 
revolução democrática em processo por parte dos povos árabes. Houve uma mudança 
de qualidade importante, o retorno das mobilizações de massa dos povos e da 
classe trabalhadora, que derrubam governos e chegam a fazer tremer as estruturas 
do regime burguês em vários países.
            A questão fundamental, que apesar de estar presente, não foi 
devidamente considerada, e que determina a realidade mundial, é a contradição 
entre os elementos objetivos e subjetivos, materializada na crise de 
alternativa. A falta de resposta política revolucionária do proletariado 
permitiu que a situação se estabilizasse logo após a eclosão da crise, no marco 
de que a tendência à instabilidade confirmou-se nas lutas que começaram a 
espocar e no surgimento de movimentos/ações da ultra-direita.
            Desde a queda da URSS e dos Estados do leste europeu, o socialismo 
foi alvo de uma violenta campanha política e ideológica de desmoralização, de 
tal sorte que a idéia de uma alternativa socialista ao capitalismo está ausente 
ou desacreditada na consciência da maioria dos trabalhadores. Sem um projeto 
alternativo de sociedade a ser apresentado em substituição ao capitalismo, a 
luta acaba se limitando a medidas defensivas que não rompem com a ordem 
estabelecida. O discurso dos trabalhadores em mobilização na Europa, por 
exemplo, é tão somente contra a “injustiça” das medidas de austeridade, por meio 
das quais os governantes querem obrigá-los a pagar pelos “erros” dos 
especuladores. Esse discurso não se eleva ao nível da consciência de que não se 
trata de erros “acidentais” de gestores mal-intencionados e de injustiças 
eventuais, mas de uma lógica social capitalista que inevitavelmente produz 
crises. Essa lógica social não pode ser atenuada ou controlada por medidas 
parciais, nem muito menos “humanizada”, pois a alienação está na sua própria 
essência.
 
            1.1.2 As revoluções democráticas nos países árabes
 
            Está em curso no norte da África e Oriente Médio um processo de 
revoluções democráticas com a queda de ditaduras de décadas sustentadas pelo 
imperialismo e ao mesmo tempo seus agentes na região. Os elementos desse ciclo, 
com expressões mais ou menos avançadas de país para país, são: a) a queda brusca 
de ditaduras históricas a partir da ação direta e da organização das massas; b) 
participação dos setores da classe trabalhadora no processo; c) crise e divisão 
das forças armadas com a dificuldade para a repressão direta aos movimentos; d) 
a conquista de várias liberdades democráticas e de organização dos trabalhadores 
e das massas em geral; e) a transição mais ou menos rápida para regimes 
democrático-burgueses com a realização de eleições (mesmo no caso do Egito, em 
que as forças armadas assumem o poder político através da junta militar, estão 
marcadas eleições para a constituição de um governo civil e para o parlamento).
            Mesmo estando desprovido de uma consciência socialista e de direções 
revolucionárias, esse processo abre uma nova situação nesses países do Oriente 
Médio e Norte da África, com melhores condições para a luta e a organização dos 
trabalhadores, agora diretamente contra a burguesia e a dominação imperialista 
que tende a permanecer. Os problemas estruturais, contudo, não foram resolvidos. 
A partir de agora as lutas tendem a se travar entre os trabalhadores e a 
burguesia, com a polarização de classe tomando uma dimensão maior, que combinado 
às liberdades democráticas conquistadas, tende a desenvolver um processo de 
organização da classe trabalhadora e seus organismos de luta, como sindicatos, 
etc.
            No entanto, a caracterização de que se trata de revoluções 
democráticas ao mesmo tempo busca apontar os limites desse processo. Com a 
mudança para regimes democrático-burgueses combinada com a profunda crise de 
alternativas socialistas, tende a haver a divisão dos setores que protagonizaram 
essas revoluções democráticas, devido à capacidade da democracia burguesa de 
diluir, cooptar e se contrapor às necessidades de luta da classe trabalhadora 
contra a burguesia.
            As tarefas democráticas, apesar de conquistadas em boa medida, não 
estão consolidadas e nem foram plenamente atingidas, assim como outras 
revoluções democráticas na América Latina, por exemplo. Assim, colocam-se as 
seguintes tarefas para o próximo período: a) consolidar e expandir ao máximo o 
processo de conquistas democráticas a partir da manutenção da mobilização das 
massas; b) avançar num processo de lutas e organização independentes da classe 
trabalhadora por suas demandas direcionadas contra a burguesia e o Estado 
burguês; c) a necessidade de uma nova revolução, desta vez socialista, 
sustentada nos organismos da classe trabalhadora.
            As lutas dos trabalhadores contra o capitalismo em crise precisam 
passar da defensiva para a ofensiva. Os planos dos governos capitalistas 
precisam ser derrotados e revertidos pela ação organizada da classe 
trabalhadora. É preciso romper com os limites políticos e os obstáculos 
organizativos das atuais direções reformistas e burocráticas dos partidos e 
sindicatos. A luta em defesa das condições de vida e contra os ataques da 
burguesia precisa se desenvolver em direção a uma alternativa de poder dos 
trabalhadores, que apresente um projeto socialista de reorganização da vida 
social, contra a barbárie capitalista.
 
            1.2 Nacional
            
            A eleição de Dilma é a vitória do modo petista de governar, isto é, 
o governo em favor da burguesia, tendo o controle dos organismos de luta dos 
trabalhadores e outros setores oprimidos. O governo Dilma representa uma 
continuidade em relação aos dois mandatos de Lula, no sentido de que o PT segue 
sendo o instrumento político mais adequado para a aplicação do projeto da 
burguesia e do imperialismo para o país. O PSDB-DEM seguirá aparecendo como uma 
alternativa de direita e pressionando o PT a ser mais servil à burguesia, pois 
essa é a única forma de se manter no controle do aparato do Estado, vital para 
sua sustentação enquanto burocracia.
            No entanto, dentro dessa continuidade, manifestam-se alguns 
elementos de descontinuidade, que têm a ver com as necessidades do capital para 
o próximo período. Essas necessidades se organizam em torno de alguns eixos:
            - Aumento da competitividade da economia. Dado que o crescimento 
mundial deve seguir sendo lento no próximo período e a disputa de mercado mais 
acirrada (demanda frágil nos países imperialistas, guerra cambial, medidas 
protecionistas, etc.), o capital que opera no Brasil terá que aprofundar 
(contra)reformas no sentido de ampliar a competitividade da economia. Deve ser 
retomada uma ofensiva ideológica em torno de medidas como: a) ataque sobre a 
legislação trabalhista e sindical;         b) reforma da previdência; c) 
(contra)reforma tributária;
            - Cortes de gastos para reequilibrar o orçamento. O governo 
brasileiro também precisou jogar dinheiro na economia e agora terá que 
reequilibrar o orçamento, por meio de cortes nos gastos sociais, atacando o 
salário dos funcionários públicos e precarizando os serviços.
            - Reestruturação do Estado, enxugamento do quadro funcional, 
meritocracia e avaliações de desempenho como medida de achatamento salarial do 
funcionalismo, ataques à estabilidade, etc.
            - Desenvolvimentismo e incentivos às empresas. Com base no discurso 
de que “o que é bom para o capital é bom para o Brasil”, o governo deverá seguir 
dando incentivos para a burguesia, na forma de: a) renúncias fiscais; b) 
empréstimos a juros baixos; c) desregulamentação ambiental; d) grandes obras de 
infra-estrutura;
            Na prática trata-se de uma política semelhante à que acontece nos 
países imperialistas, em que o Estado transfere dinheiro para o capital, às 
custas de ataques sobre os trabalhadores. Mas aqui essa política aparece mediada 
pelo fato de que o processo da crise foi muito mais suave sobre o Brasil, e as 
medidas são de muito menor porte, tanto no plano dos ataques como no das 
concessões à burguesia. Essa política será legitimada pelo discurso de que o 
Brasil está no caminho certo, está crescendo de uma forma que beneficiará a 
todos, tende a ter um papel de destaque no mundo, o que será sacramentado pelos 
mega-eventos da Copa do Mundo e Olimpíadas.
            Esses elementos tendem a fazer com que o governo Dilma apresente um 
perfil mais à direita do que o de Lula, com um perfil menos político, 
demagógico-carismático como era o de Lula, e mais tecnocrático, gerencial, 
economicista. Isso se dará pela opção do próprio PT, que seguirá priorizando o 
controle do aparato do Estado, das empresas estatais, fundos de pensão, etc.; e 
desempenhando o papel de sustentar ideologicamente o governo através do controle 
do movimento e das organizações dos trabalhadores.
            Está em jogo uma grande operação política e sindical no sentido de 
construir-se a imagem de um país que caminha em direção ao futuro próspero e que 
para tanto é preciso apostar no crescimento econômico e na democracia burguesa. 
Esse projeto está sendo apresentado pelo PT a partir da exploração do petróleo 
do Pré-Sal, do crescimento econômico e de um maior peso do Brasil no plano 
internacional. Porém tudo isso é apresentado condicionado ao interesse do 
capital, ou seja, para que o país cresça, o capital tem que crescer.
            
            2. QUESTÕES GERAIS E ESPECÍFICAS DOS BANCOS
 
            2.1 Tendências de concentração do setor bancário
 
            Ao mesmo tempo em que a burocracia petista no governo manobrou os 
bancos federais como um dos seus instrumentos para a administração da crise, o 
conjunto do setor bancário avançou no seu processo de concentração e 
monopolização. Toda crise capitalista produz uma espécie de seleção em que 
apenas os capitais mais fortes sobrevivem e os menores são absorvidos. Esse 
processo se manifesta por meio de fusões de empresas, aquisições e 
incorporações.
            No setor bancário, tivemos a compra do Unibanco pelo Itaú 
(apresentada como uma fusão) e a compra do ABN Real pelo Santander. A 
concentração de capitais tem conseqüências trágicas para os trabalhadores, pois 
permite que os capitalistas dispensem mão de obra “excedente” nos setores em que 
passa a haver sobreposição de funções. A economia dos gastos com mão de obra e 
os ganhos de escala são os objetivos visados pela burguesia no processo de 
concentração, de modo que cada fração do capital possa se reposicionar mais 
favoravelmente no jogo da concorrência. Os bancos privados tiveram aumento de 
24% nos seus lucros em 2009, em pleno auge da crise.
            A novidade histórica do período recente foi a entrada dos bancos 
federais nesse jogo, com as compras do BESC e Nossa Caixa pelo Banco do Brasil 
(e de parte da BV Financeira) e a compra de parte do Panamericano pela Caixa 
Econômica Federal. Ainda no âmbito dos bancos federais, foi anunciada a 
construção da chamada “Cidade Digital” em Brasília, integrando os sistemas de 
informação do BB e da CEF. A integração criará uma plataforma comum para os 
setores de tecnologia dos dois bancos, o que nos permite vislumbrar no horizonte 
uma possibilidade de fusão entre os dois gigantes estatais como culminação desse 
processo de concentração.
            Ainda dentro deste processo de concentração de capital, destaca-se o 
movimento de extinção das áreas-meio dos bancos. Há uma orientação generalizada 
de fechar complexos e setores inteiros, demitindo o excedente, ou terceirizando 
os serviços. Exemplo disso é o que acontece com o serviço de compensações dos 
bancos.
            No Bradesco, os funcionários da compensação no complexo da Cidade de 
Deus, em Osasco (maior concentração de trabalhadores bancários do Brasil, com 
mais de 10.000 funcionários) já estão sendo deslocados para as agências, com a 
promessa (em acordo entre o banco e a burocracia do Sindicato dos Bancários de 
São Paulo, Osasco e Região) de que não vai haver demissões nem alteração de 
salários a curto prazo e de que vai ser mantido o adicional noturno. Os 
funcionários da compensação estão sendo forçados a se deslocar para as agências 
de toda Grande São Paulo para dar treinamento aos funcionários das agências no 
uso do sistema de compensação eletrônica. A longo prazo, conforme o serviço for 
incorporado pelas agências esse pessoal vai se tornar “supérfluo” para o banco. 
O serviço nas agências vai aumentar sem que haja o aumento no número de 
trabalhadores.
            No Banco do Brasil as agências já estão municiadas com “scanners” 
para digitalização dos documentos, para que seja possível, entre outras coisas, 
a compensação de cheques sem a cópia física de documentos. O banco estatal já 
sinalizou que pretende fechar o Complexo Andaraí, no Rio de Janeiro; e o serviço 
que não puder ser repassado para as agências será centralizado em São Paulo. Os 
funcionários teriam que escolher dois caminhos: procurar realocação na rede de 
agências, ou trabalharem na mesma função em São Paulo. 

            Essas medidas viabilizam a rotatividade da mão de obra, movimento 
pelo qual as empresas descartam os bancários com mais tempo de trabalho e 
melhores salários para contratar novos trabalhadores com salários menores. 
Funcionários qualificados que se dedicaram se dedicaram à empresa por muitos 
anos são friamente desprezados. Instala-se uma situação de permanente 
insegurança para os trabalhadores, que vão trabalhar de manhã sem saber se 
continuarão empregados à tarde. A digitalização da compensação e dos documentos 
em geral é mais uma medida do processo geral de automação bancária, que reduz 
custos e aumenta os lucros para os banqueiros. É preciso desfazer a ilusão de 
que medidas desse tipo podem de alguma forma beneficiar os trabalhadores, 
diminuir a carga de serviço, etc. Ao contrário, o que acontece é o aumento do 
volume de serviço e a diminuição do número de trabalhadores.
 
            2.2 Reestruturação dos bancos federais e privatização
 
            É nesse contexto que deve ser interpretado o processo de 
reestruturação da Caixa Econômica Federal, que está sendo desencadeado pelo 
governo cerca de 3 anos depois da reestruturação do Banco do Brasil (a qual por 
sua vez segue se aprofundando). A burocracia petista, em seu papel de ocupante 
do Estado, não se contenta em ser simples gestora dos interesses da burguesia, 
mas procura se comportar ela própria como burguesia, como empresariado, como 
ente patronal e personificação do capital voltada para a reprodução ampliada do 
valor. Desse modo, a gestão das empresas estatais subordinadas ao governo 
federal segue uma estratégia tipicamente empresarial de concorrência e 
maximização dos lucros a qualquer custo.
            A transformação de Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil em 
bancos de mercado deve ser chamada por seu nome, ou seja privatização. A 
privatização não consiste apenas numa simples mudança jurídica da propriedade. O 
Estado pode continuar sendo o acionista majoritário dessas empresas, mas o que é 
decisivo para caracterizar uma empresa privada é a sua forma de gestão, a sua 
lógica interna de funcionamento, o seu projeto essencial. E nesse aspecto, os 
bancos federais caminham para se transformar em empresas puramente privadas, 
desprovidas de qualquer função social. Isso é inteiramente compatível com a 
concepção ideológica da burocracia petista e seu projeto geral de administração 
do capitalismo brasileiro.
            Cabe ainda o adendo de que, em relação ao aspecto da propriedade 
jurídica, o governo anunciou a oferta pública de mais um lote de ações do Banco 
do Brasil, ou seja, um avanço na sua privatização formal. Esse anúncio foi feito 
um dia antes do Congresso dos Funcionários do Banco, um Congresso em que a 
burocracia sindical da Articulação aprovou o apoio à candidatura de Dilma 
Roussef-PT, precisamente sob a alegação de que em seu governo não haveria 
privatização...
            Definido esse caráter geral do projeto de privatização em curso, 
resta ulteriormente determinar o encaminhamento objetivo que terá o processo, ou 
seja, por quanto tempo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal vão concorrer 
entre si (com as suas respectivas camadas gerenciais querendo mostrar ao 
patrão-governo quem é mais eficiente no mercado e a burocracia petista 
assistindo de camarote), quanto tempo vai transcorrer até que sejam fundidos num 
só empresa, se vai haver desmembramento da Caixa Econômica Federal e repartição 
de suas funções sociais, etc.
            Qualquer que seja o formato objetivo do projeto, os trabalhadores 
dos dois bancos precisam ter consciência do que está em jogo e organizar uma 
luta de resistência contra a privatização. Não há qualquer aspecto positivo 
possível nas reestruturações dos bancos federais, não há o que negociar e muito 
menos o que especular em relação a esse projeto, que precisa ser combatido 
duramente em sua totalidade. Com ou sem transferência jurídica formal da 
propriedade, a privatização trará mudanças negativas em todos os aspectos da 
vida dos trabalhadores, desde as demissões, descomissionamentos, fechamento dos 
setores, transferências forçadas, aumento da exploração e da carga de trabalho, 
assédio moral sistemático, obstrução da organização no local de trabalho.
 
            2.3 O funcionalismo do Banco do Brasil
 
            Ano após ano o funcionalismo do BB sofre diversos ataques do governo 
federal por meio da direção do banco. É bom lembrar que há diretores do Banco 
oriundos do movimento sindical, que nada fizeram para melhorar as condições de 
trabalho. Pelo contrário, implementam uma política que deteriora ainda mais as 
condições de trabalho via medidas como o avanço da terceirização, com as 
conseqüentes fraudes aos direitos trabalhistas.
            Em 2007, o governo aplicou uma reestruturação administrativa no 
banco que:
            - provocou o desligamento de mais de 7.000 funcionários por meio do 
PAA;
            - impôs a “lateralidade”, acabando com a remuneração das 
substituições, o que na prática significa o império o desvio de função, já que 
os Assistentes de Negócios, que não são administradores, passaram a ter 
responsabilidades de gerente, sem, no entanto, ganharem para isso;
            - deteriorou o ambiente de trabalho dos Caixas Executivos ao reduzir 
pela metade a quantidade destes profissionais na rede de agências nas grandes 
cidades;
            - fechou prédios inteiros do banco, como a GERIE Campinas, cujos 
funcionários trabalham na capital, a 100 km de seus lares (o Banco se recusa a 
pagar vale-transporte para os companheiros);
            - precarizou as relações trabalhistas através da terceirização das 
atividades-fins do Banco, como é o caso do processamento de envelopes e de 
malotes (USO-PSO); e das transações no cartão de crédito via central de 
atendimento telefônico, e também (pasmem) abertura de contas. Destacamos aqui a 
luta dos companheiros trabalhadores da Central de Atendimento de Cartões da 
empresa terceirizada “Montana” de São Paulo, que fizeram greve no início de 2009 
pelo recebimento de seus direitos;
            - implantação do “Projeto BB 2.0”, que nada mais é do que mais um 
plano de reestruturação (privatização) do BB, que visa, entre outras coisas, o 
fechamento e redução de pessoal na área meio e realoca-los na rede de 
atendimento ao público; reconfigurar a ambiência das agências com o absurdo da 
retirada da porta giratória; além de submeter o funcionalismo ao terror do 
descomissionamento nas dependências em que ficou com dotação excedida.
            Todas essas medidas da reestruturação foram implantadas com a 
chancela dos nossos sindicatos, da CONTRAF e da CUT. Não podemos esquecer o 
lamentável papel destas mesmas entidades sindicais na campanha pelo “sim”, para 
a aprovação da proposta do Banco e do governo de mudança estatutária da CASSI 
(Caixa de Assistência dos Funcionários dos Banco do Brasil). O governo queria (e 
conseguiu) com isso transferir o ônus das péssimas condições de trabalho (fonte 
de doenças ocupacionais) para os trabalhadores, por meio da co-participação nos 
exames, da contribuição para a CASSI sobre o 13º salário e do não questionamento 
dos mais de 500 milhões de reais de dívidas que o Banco tem junto à CASSI por 
conta do calote que o governo FHC deu em nossa Caixa de Assistência em 1998 (na 
ocasião, o governo contribuía com 4,5% sobre a folha de salários e depois passou 
a recolher apenas 3 %), e principalmente pela política de congelamento salarial 
de 10 anos do funcionalismo enquanto as despesas médicas não pararam de crescer. 
O argumento que a direção sindical utilizava para “convencer” os bancários (que 
foi o mesmo usado pelo governo) era de que se o estatuto não fosse alterado, o 
Banco acabaria com a nossa Caixa de Assistência, e de que Banco se comprometeria 
a liberar 300 milhões de reais para a CASSI sair do colapso financeiro.
            Na PREVI, são cada vez mais freqüentes as ingerências do BB nos 
recursos dos funcionários. Em 2010 o governo abocanhou R$ 7,5 bilhões da PREVI 
numa “ação entre amigos”, ou seja, entre o governo e as entidades sindicais 
ligadas politicamente à CUT. Nos últimos anos veio se consolidando tal “tungada” 
como forma do BB maquiar o seu balanço para estar entre os bancos que mais 
lucram no país. Por “ironia”, os funcionários do BB são responsáveis por duas 
vezes pelo lucro. Uma vez com as suas forças e outra com a poupança que o 
funcionalismo faz para garantir uma velhice segura. Os diretores da Previ 
oriundos do movimento sindical não organizaram a base para lutar contra mais 
este abuso do governo. Não há lutas para acabar com o Plano 2 e unificar todos 
os funcionários no Plano 1.
            A PREVI tem assento de decisão em diversas empresas, entre as quais, 
a EMBRAER, e também não fez nada no sentido de evitar os cortes de pessoal 
naquela empresa. Fica aqui mais uma vez a evidência de que lado o movimento 
sindical cutista está.
            Não podemos esquecer a condução pela CONTRAF-CUT do processo de 
incorporação do BESC e da Nossa Caixa ao BB. No primeiro caso, os funcionários 
foram obrigados a optar pelo plano de carreira do BB, pior que o do banco 
catarinense, como condição para continuar empregados no BB, e a confederação 
nada fez para evitar o assédio. No caso da Nossa Caixa, a atuação do sindicato 
foi ainda mais vergonhosa, pois o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e 
Região fez campanha pela incorporação do banco estadual paulista ao BB, ao invés 
de organizar os bancários da Nossa Caixa para lutar pela manutenção do último 
banco público paulista e pela manutenção de seus empregos. 

            Em 2010, as entidades sindicais ligadas à CUT aprovaram uma espécie 
de “indenização” aos funcionários egressos da Nossa Caixa pelo fato de terem 
prejuízo por optarem pelo plano de carreira do Banco do Brasil (que não existe). 
Porem tal pagamento só se refere aos últimos 5 anos de serviço. Assim, quem 
optou pela carreira do BB e tem mais de 5 anos na categoria ficou no prejuízo 
com relação ao saldo acima dos 5 anos.
 
            2.4 A Caixa Econômica Federal e o papel de um banco público
 
            A Caixa Econômica Federal vem implementando diversas políticas, na 
mesma linha dos bancos privados, para otimizar seus recursos (inclusive humanos) 
e obter lucros estrondosos, com a vantagem de utilizar o marketing de banco 
público e social.
            As estratégias para promover a lucratividade da empresa extrapolam o 
discurso ético que o banco imprime, por exemplo, em suas “belas propagandas” 
exibidas nos horários nobres. Os funcionários se desdobram para dar conta do 
atendimento ficando expostos, por um lado, à justa indignação da população e, 
por outro, ao descaso da empresa. A organização dos trabalhadores na base tem 
sido o principal alvo das políticas de “recursos-desumanos”. A punição dos que 
lutaram para a melhoria deste quadro vai além da ameaça de desconto dos dias de 
greve. Algumas “conquistas” das lutas dos trabalhadores são revertidas de acordo 
com os interesses da empresa gerando consequências ainda não previstas.
            A antiga estratégia de dividir para dominar implantada com o 
consentimento das entidades sindicais que não se dão ao trabalho de consultar a 
base antes de assinar em baixo do que a empresa quer, em nome dos trabalhadores. 
Ao banco público cabe um papel diferenciado junto à sociedade. Não se pode 
cobrar deste banco a mesma prática e resultados dos bancos privados. O trabalho 
do banco público tem que estar calcado na tarefa de possibilitar desenvolvimento 
econômico com o foco no social. Não se pode exigir do Banco Público critérios de 
desempenho e atuação calcados nas “Leis de Mercado”. E também não podemos abrir 
mão do debate com a classe trabalhadora e a sociedade em geral sobre a 
estatização do sistema financeiro.
            A mudança nas regras de funcionamento e principalmente a defesa e 
aplicação da substituição do caráter de benefício definido proporcionaram ao 
governo-patrão, no caso dos associados da Funcef, a migração “espontânea” 
daqueles que optaram pelo saldamento do Reg-Replan para o novo plano. E como não 
conseguiram acabar com o plano antigo, passaram a ter um discurso contrário à 
discriminação dos associados do Reg-Replan não saldado, mas na prática nada 
fizeram  para mudança real neste tratamento e conjuntamente com a direção da 
empresa, estimulam e defendem novas aberturas de saldamento em ressonância com a 
CAIXA. Aos associados do plano não saldado oferecem aumento indiscriminado das 
contribuições, impossibilidade de acesso ao novo PCS, assédio continuo para 
saldamento/mudança do plano antigo e impossibilidade de participação em PSI(s).
            Infelizmente para os bancários e bancárias da CAIXA, no final dos 
anos 90, o setor que ainda hoje dirige formalmente o movimento sindical, 
defendeu e assinou Acordos Coletivos, que previam o fim da paridade entre ativos 
e aposentados. Junto houve a institucionalização dos empregados de segunda 
linha, com a introdução da “carreira’’ de Técnico Bancário na empresa. A criação 
da chamada Tabela Única do PCS, vendido como virtual solução para a questão da 
tão sonhada Isonomia, não trouxe sequer a incorporação das VPs (vantagens 
pessoais) como no caso dos escriturários, o que reduziria a perda dos novos 
colegas.
            O cotidiano de trabalho nas agências e departamentos que sempre foi  
extenuante para a grande maioria dos bancários da CAIXA tornou-se ainda mais 
nocivo após reestruturação e novo modelo de atendimento.  Como sempre, a empresa 
se diz com autoridade para promover as mudanças necessárias, mas não possui 
planejamento adequado e, novamente, lesa  seus trabalhadores. Com a 
reestruturação, centenas de bancári em s ficaram sem local de trabalho e muitos 
deles precisaram se auto realocar, pois a empresa não estava fazendo sua parte 
que era realocar os funcionários das áreas reestruturadas. Vários trabalhadores 
precisaram mudar de cidade diante da necessidade de manter seus cargos e 
salários. Funções importantes e cruciais para a transparência dos processos 
bancários foram, simplesmente, extintas. O novo modelo de atendimento, outro mal 
planejado, não levou em consideração o prévio treinamento, a precariedade de 
sistemas e a falta de funcionários para o correto desempenho das novas tarefas. 
Nós, bancários e bancárias da CEF carregamos o peso da incompetência dos 
gestores, extrapolando ordinariamente a jornada de trabalho afim de dar conta do 
recado.
            A segmentação nos moldes dos bancos privados é tratada naturalmente 
pelo banco que ironicamente enfatiza seu caráter público e voltado às demandas 
da sociedade nos seus pronunciamentos oficiais e propagandas corporativas, 
televisivas e outras mídias. Os atendimentos sociais são empurrados para fora 
das agências, difundindo-se uma cultura de hostilidade ao cidadão comum que 
necessita dos serviços do banco público. De acordo com um estudo geral do 
Dieese, exposto para os delegados sindicais na ocasião de um encontro ocorrido 
na sede do Seeb-SP em 2008, revelou-se ínfimo o impacto da venda desses produtos 
no balanço da empresa. No 26º Congresso Nacional dos empregados da CEF (que é ou 
deveria ser a instância máxima de deliberação dos bancari em s da Caixa) foi 
deliberado a implantação de auditoria independente para mensurar o real impacto 
da parceria CAIXA/GRUPO CAIXA SEGUROS E FENAE-PAR CORRETORA no resultado 
contábil-financeiro da CAIXA e não implementado. As nossas entidades sequer 
tocam no assunto.
            A sobrecarga de trabalho, o stress, a falta de contato humano e 
solidariedade, a fragmentação do trabalho, a pressão dos gestores por um lado e 
dos clientes por outro, criam um ambiente de trabalho insalubre que condena 
grande parte dos bancários a perda de saúde e qualidade de vida. Tudo somado; 
intensificação do assédio moral, cobrança descabida de metas com imposição de 
vendas casadas, situações crônicas de insalubridade, jornadas expandidas e 
inclusive sem marcação correta da jornada de trabalho. Doentes potenciais (os 
novos, bem novos na empresa) e doentes crônicos. Os aposentados de hoje passam o 
seu tempo “livre” em consultas e tratamentos médicos.
            Os trabalhadores da CAIXA tiveram grande derrota ao perder por 
iniciativa da empresa e sem força do conjunto da categoria para responder. É 
necessário que conquistemos a supremacia do cuidado com a vida e impor ao banco, 
cuidados com a pessoa (seqüestros, mortes, seqüelas, punições por ocasião de 
sinistros) acima do cuidado com o patrimônio do banqueiro, ainda e 
principalmente se este banqueiro é o governo. 2010 foi propagado como o ano da 
Isonomia pelas entidades que dizem nos representar, não podemos deixar esta 
bandeira de lado. Todos os anos será “O Ano da Isonomia” até que esta seja 
conquistada!
 
            2.5 Campanha ideológica: bancário não é vendedor!
 
            Entendemos que essa situação geral demanda um tipo de atuação mais 
ideológica e estrutural. Para além da defesa das reivindicações específicas que 
devemos sustentar em cada campanha salarial, mantendo as pautas históricas da 
categoria que são sistematicamente rebaixadas pela Articulação, devemos estar 
atentos para uma disputa ainda mais difícil, que é a disputa contra a ideologia 
que a patronal lança cotidianamente sobre os trabalhadores (com a conivência ou 
mesmo a colaboração da burocracia sindical, é claro), por meio do discurso dos 
gestores nas reuniões, nos informativos, nos cursos de formação (deformação), 
nos processos de integração e admissão, etc. 

            Trata-se da ideologia de que bancários são vendedores. Os 
trabalhadores são convencidos pela patronal de que devem trabalhar mais (ou 
seja, vender mais), para que as empresas tenham resultados melhores, para que a 
parte que toca aos trabalhadores seja maior. Essa parte que toca aos 
trabalhadores não é necessariamente o salário, mas costuma ser mais tipicamente 
a PLR (participação nos lucros e resultados). Em outras palavras, querem 
convencer os trabalhadores a trabalhar mais por PLR do que por salário. Essa 
ideologia, por sua vez, não provém apenas dos banqueiros, mas do conjunto da 
burguesia, e coincide com o discurso do governo Lula-Dilma-PT (e da burocracia 
sindical petista), conforme vimos na seção de conjuntura, de que o Brasil 
precisa crescer para que todos se beneficiem.
            Do ponto de vista da estratégia da campanha salarial, esse 
comportamento da burocracia sindical se manifesta na mudança do eixo da campanha 
da luta por salários e direitos para a luta por PLR. Isso acontece quando o 
elemento que é trazido como conquista para legitimar o encerramento de cada 
campanha e a aceitação do acordo é justamente a concessão de uma PLR maior. A 
cada ano que passa, os trabalhadores são educados a considerar que a conquista 
fundamental de uma campanha salarial é a PLR e não o aumento do salário e 
melhoria das condições de trabalho.
            Isso tem uma série de conseqüências nefastas. Pois para o 
trabalhador o fundamental para que uma campanha seja considerada vitoriosa não é 
o índice de reajuste, mas o tamanho da PLR. E o tamanho da PLR não depende do 
tamanho e da força da greve, mas do tamanho do resultado do banco. E o tamanho 
do resultado, por sua vez, segundo o discurso da patronal e da burguesia, 
depende do empenho e dedicação do próprio trabalhador. Isso faz com que o 
trabalhador internalize o discurso da patronal, de que deve vender mais, e o seu 
sucesso pessoal depende do seu desempenho. O trabalhador se torna o fiscal da 
superexploração de si mesmo.
            Para combater esse elemento ideológico estrutural, uma das 
estratégias que nós do coletivo Bancários de Base estamos lançando é um material 
de formação que contesta precisamente esse discurso de que bancário é vendedor. 
Fazemos o estudo do funcionamento do negócio bancário e dos chamados “produtos 
bancários”, do ponto de vista da teoria econômica marxista. Esse estudo foi 
acrescentado como um texto anexo à presente contribuição.
            A distinção entre “produtos” e serviços é um ponto de partida para a 
luta por melhores condições de trabalho. Pois um produto é um objeto cuja venda 
encerra a relação entre comprador e vendedor, ao passo que um serviço demanda um 
atendimento continuado do prestador para com o cliente. O atendimento continuado 
significa uma carga permanente de serviço. Ou seja, o trabalhador precisa vender 
e atender os clientes, mas o banco o pressiona a apenas vender e faz de conta 
que o atendimento não existe. O volume de serviço é subestimado e a quantidade 
de mão de obra é subdimensionada. Os bancos têm cada vez menos funcionários, os 
quais precisam atender uma quantidade maior de clientes.
            Diante da insatisfação dos trabalhadores, os bancos respondem que a 
saída é a busca individual por melhores cargos e comissões. Nós respondemos que 
a saída é a luta coletiva de todos  aqueles que sofrem com a constante 
degradação das condições de trabalho.
 
            3. UNIDADE DE AÇÃO E CAMPANHA SALARIAL 2011
 
            3.1 Reafirmar a pauta de reivindicações históricas da categoria
 
            O primeiro ponto que precisamos estabelecer nesta discussão é a 
reafirmação da pauta histórica de reivindicações da categoria. Itens como 
reposição de perdas, isonomia, PCC-PCS, saúde, previdência, fim das metas e do 
assédio moral, etc.; com as devidas adaptações e complementos decorrentes das 
especificidades de cada banco, são as reivindicações, que correspondem às 
verdadeiras necessidades da categoria, as quais de ano para ano são colocadas em 
segundo plano pela burocracia sindical da Articulação. Os grupos de oposição têm 
a tarefa fundamental de manter essas reivindicações em discussão, pois elas são 
o conteúdo de nossa luta. A unidade de ação que buscamos deve se dar em torno de 
pontos comuns que partem dessas reivindicações. Estabelecidos esses pontos 
comuns, a pauta de reivindicações deve ser defendida por todos os grupos em 
qualquer base e em qualquer fórum.
            Posto isso, precisamos discutir de que forma cada agrupamento da 
oposição deve encaminhar a luta por essas reivindicações. Pois a oposição se 
compõe de uma série de agrupamentos com diferentes concepções, vindas de 
diferentes tradições do movimento sindical e político, e sobretudo, que atuam em 
bases com diferentes características, seja em termos de amplitude numérica, grau 
de organização, etc. A tática de campanha salarial a ser levada pelas oposições 
varia, portanto, de acordo com as características das bases em que essas 
oposições se localizam, dentro de uma estratégia comum de luta pelo resgate das 
reivindicações históricas.
            Um elemento que julgamos que não apresenta maiores dificuldades 
entre nós é a  participação nos congressos de bancos, ou seja, no CONECEF e no 
Congresso dos Funcionários do Banco do Brasil. As oposições têm participado 
desses congressos e têm buscado apresentar e defender resoluções em comum, na 
luta contra os setores burocratizados que hegemonizam o movimento. Consideramos 
que isso deve se manter em 2011, ou seja, as oposições devem participar desses 
congressos e defender neles uma pauta unificada.
            Seguem alguns dos itens que pensamos que devem fazer parte da pauta 
comum de reivindicações das oposições:
            - Plano de reposição de perdas;
            - Estabilidade para os trabalhadores de bancos privados;
            - Isonomia entre funcionários antigos e novos;
            - Fim das metas e do assédio moral;
            - Piso salarial do DIEESE;
            - Plano de carreira e plano de cargos e salários;
            - Delegados sindicais em todos os bancos;
            - Fim das terceirizações e dos correspondentes bancários;
 
            3.2 A questão dos fóruns da campanha salarial
 
            O que julgamos que demanda maior discussão é a participação nos 
chamados fóruns da Contraf/CUT, ou seja, a Conferência Nacional dos Bancários. 
Um amplo setor das oposições adotou há alguns anos a estratégia de não 
participar da Conferência Nacional dos Bancários, apresentando o próprio 
Encontro Nacional das Oposições como alternativa, muitas vezes realizando-o na 
mesma data.
            Consideramos que se trata de duas questões separadas. Somos a favor 
de um Encontro Nacional das Oposições que discuta uma estratégia comum de 
campanha salarial. Mas esse Encontro não é um obstáculo para a participação na 
Conferência Nacional dos Bancários. A não participação nos fóruns da Contraf/CUT 
não é para nós uma questão de princípios, é uma questão tática. Em determinadas 
circunstâncias é legítimo participar de tais fóruns, desde que dadas certas 
condições, conforme discutiremos logo abaixo.
            Dizer que é legítimo não significa que consideramos possível 
disputar esses fóruns. Não temos a menor ilusão de que se possa disputar um 
fórum totalmente controlado pela burocracia. Não achamos que a oposição deva 
disputar cargos num comando de campanha constituído a partir de tais fóruns. 
Sabemos que o objetivo desse fórum é rebaixar a pauta de reivindicações e 
apresentar aos bancos uma pauta rebaixada. A pauta da burocracia está em 
contradição com a nossa e devemos seguir defendendo a pauta da oposição.
            A grande questão é que na base de São Paulo somos oposição e não 
direção. A direção da Articulação realiza apenas uma assembléia antes da 
campanha salarial: precisamente aquela em que se elegem os delegados para a 
Conferência Nacional dos Bancários da Contraf/CUT. Realizada a Conferência e 
definida a pauta, não há outro fórum em que se possa referendar essa pauta. A 
deliberação dos burocratas da Contraf/CUT é imposta sobre os trabalhadores da 
base de São Paulo sem que se possa discutir em nova assembléia uma pauta 
alternativa. Em seguida, depois que a pauta rebaixada é entregue à patronal, a 
próxima assembléia a ser realizada é somente aquela em que se discute a 
aceitação ou não da contra-proposta patronal e a deflagração da greve.
            Dadas essas circunstâncias, a assembléia em que se elegem os 
delegados para a Conferência Nacional dos Bancários da Contraf/CUT é a única em 
que temos a oportunidade de apresentar uma pauta alternativa aos trabalhadores 
da base de São Paulo. Não está em nosso poder realizar outra assembléia para 
discutir a pauta, nem muito menos temos a correlação de forças para realizar 
assembléias paralelas por fora do sindicato. Por isso, tudo o que nos resta 
fazer é defender a pauta da oposição no nossos locais de trabalho, fazer a 
agitação dessa pauta no conjunto da base e defendê-la em assembléia de tirada de 
delegados. Na hipótese de que seja eleito algum delegado de oposição para a 
Conferência Nacional dos Bancários da Contraf/CUT, a função desse delegado será 
denunciar a burocracia pelas suas traições à categoria, sem qualquer ilusão de 
disputar a Conferência, aceitar cargos no comando de campanha, etc. Passado esse 
momento, o que nos cabe fazer é exigir a realização de novas assembléias e 
denunciar a burocracia por não fazê-lo.
            Dessa forma, a estratégia da campanha salarial, na nossa concepção, 
teria o seguinte formato: 1) o Encontro Nacional das Oposições define uma pauta 
unificada de todos os agrupamentos de oposição; 2) nas bases onde a oposição 
está na direção dos sindicatos essa pauta é discutida em assembléia e tem 
melhores condições de ser aprovada; 3) nas bases onde somos oposição defendemos 
a pauta da oposição em assembléia, com menos chance de tirar delegados; 4) os 
sindicatos dirigidos pela oposição apresentam a pauta alternativa aos bancos; 5) 
nas demais bases exigimos a realização de novas assembléias para referendar a 
pauta e denunciamos a Articulação por não fazê-lo.
 
            3.3 As verdadeiras dimensões e tarefas do Encontro das Oposições
 
            Conforme discutimos acima, o Encontro Nacional das Oposições vinha 
sendo realizado na mesma data que a Conferência Nacional dos Bancários da 
Contraf/CUT, para se apresentar como alternativa ao fórum da burocracia. Achamos 
que há um problema nessa concepção. O Encontro Nacional das Oposições sem dúvida 
é a alternativa política para a categoria, pois reúne os únicos setores que 
estão dispostos a levar adiante as reivindicações que atendem as necessidades 
históricas dos bancários. Mas o Encontro ainda não é um espaço organizativo 
reconhecido pelo conjunto dos bancários. Não podemos alimentar a ilusão de que 
isso seja verdade. Não podemos suprir a inexistência desse fórum de organização, 
hoje usurpado pela burocracia, por um Encontro de vanguarda, que é o que hoje 
somos capazes de reunir.
            Os rumos da campanha salarial são definidos, infelizmente, na 
Conferência Nacional dos Bancários da Contraf/CUT. Essa é a realidade, queiramos 
ou não. A burocracia define não apenas a pauta, mas o calendário de 
“mobilização”, data de greve e componentes da mesa de negociação. Esses 
elementos não estão em nosso poder. Vamos repetir mais uma vez para que fique 
bem claro o que estamos dizendo: não estamos reivindicando a Conferência 
Nacional dos Bancários da Contraf/CUT, não consideramos que aquele é “o fórum 
legítimo da categoria”, não achamos que se possa disputar os rumos da 
Conferência, não achamos que se possa “empurrar a pauta da burocracia mais para 
a esquerda”, não achamos que se deva disputar cargos no comando de campanha ali 
constituído, etc.
            O que estamos fazendo é reconhecendo a correlação de forças hoje 
existente. O Encontro Nacional das Oposições é um encontro de vanguarda, que não 
substitui o espaço de organização com o qual a categoria deveria contar para 
realizar uma campanha salarial de verdade. Seria preciso que houvesse um 
processo de organização por local de trabalho, que formasse comandos de greve 
por região, que elegesse representantes para um comando nacional, legitimado em 
assembléia e com mandatos revogáveis. O Encontro Nacional das Oposições ainda 
não tem esse caráter, e não podemos fingir para nós mesmos que já o tem. O que 
devemos é construir um lento e paciente movimento que caminhe, ano a ano, nessa 
direção.
            Dito isso, há uma outra concepção que julgamos equivocada e 
precisamos discutir. Trata-se da idéia de que a diferença entre a pauta da 
oposição e a pauta da burocracia está meramente no índice de reajuste a ser 
reivindicado. Com base nessa idéia, faz-se a propaganda de que o Encontro 
Nacional das Oposições é melhor, porque reivindica um índice melhor para os 
bancários.
            Essa concepção está equivocada e não serve para organizar a 
campanha, pois os bancários sabem que o que faz diferença numa campanha salarial 
não é o índice mais ou menos alto que se reivindica, mas o grau de organização 
da categoria para lutar por esse índice. Não basta a oposição aparecer a cada 
ano dizendo “nós somos mais combativos porque reivindicamos “X” % a mais que a 
Articulação!” Sem que a categoria se sinta com forças para lutar, o índice pode 
ser X, Y ou Z, pois não vai fazer diferença. O que faz diferença é justamente o 
fato de que a categoria não confia na direção da Articulação e não se sente 
disposta a participar mais intensamente da campanha.
            Diante disso, o fundamental deve ser não apenas agitar um índice 
melhor, mas tomar medidas concretas para tirar a campanha do controle da 
Articulação. Podemos discutir um índice político num momento mais avançado, 
quando estivermos mais próximos da data-base e forem fechados os números da 
inflação, sem abrir mão da reivindicação de um plano de reposição de perdas. O 
que devemos discutir neste momento é a organização da campanha e formas de 
romper o controle da Articulação sobre a campanha salarial.
 
            3.4 Romper o controle da Articulação sobre a campanha salarial
 
            Apresentamos aqui duas propostas:
            1º) Antecipar a preparação da campanha salarial. Todos os anos a 
Articulação adia a preparação da campanha salarial, não realizando reuniões nos 
locais de trabalho, plenárias por banco e por região, reuniões de delegados 
sindicais e representantes dos locais de trabalho, assembléias preparatórias, 
mobilizações de “aquecimento” na forma de “venda zero”, operação padrão, 
paralisações de 24 horas, agitação, atos e passeatas para criar o clima de 
campanha, etc. Assim, a campanha é conduzida “a frio” até chegar o momento de 
discutir a contra-proposta da patronal. E como se trata evidentemente de uma 
contra-proposta rebaixada, a única saída é uma greve. Mas se trata de uma greve 
natimorta, sem força, sem organização, sem condições de afetar o lucro dos 
bancos e de dobrar a patronal. Como a greve é fraca, qualquer avanço 
infinitesimal na contra-proposta patronal é apresentado como uma “vitória” da 
mobilização da categoria e defendida pela burocracia como suficiente para 
encerrar a campanha.
            Precisamos fugir desse roteiro e iniciar a preparação da campanha 
salarial desde já. Precisamos colocar no centro de nossa agitação a necessidade 
de medidas organizativas para que a campanha salarial seja bem-sucedida 
(comandos de greve paralelos, mobilizações de “aquecimento” na forma de “venda 
zero”, operação padrão, paralisações de 24 horas, agitação, etc.). Precisamos 
discutir essas medidas com a nossa base. Lançar o debate na categoria. Criar a 
discussão boca a boca, sem esperar pelo “momento apropriado”. Com isso, a 
própria Articulação terá que responder, e estará lançado um clima de campanha 
salarial “antes da hora”, que na verdade é a hora necessária.
            2º) Lutar por democracia na condução da campanha. Além de não haver 
preparação adequada para a greve, a condução da campanha também é feita de 
maneira burocrática, de modo a afastar os bancários. Não são convocadas 
assembléias, e quando acontecem, as assembléias são ultra-burocráticas, pois 
apenas a diretoria do sindicato fala, e quando se abrem falas, não se permite 
fazer propostas, e quando se vai votar propostas, não se permite a defesa 
daquelas opostas à diretoria, e quando uma proposta da oposição vence, não é 
encaminhada pela diretoria, etc. Tudo isso faz com que ano a ano os bancários 
desacreditem no sindicato e não se engajem na greve. Pode até haver boa adesão 
numérica, com um grande número de bancários que não vão trabalhar, num 
determinado ano ou outro, mas não há participação real, não há presença maciça 
nas assembléias e piquetes. Anos de seguidas traições estão esvaziando a 
entidade sindical e deixando a burocracia cada vez mais livre para manobrar a 
seu bel-prazer.
            A alternativa contra isso é lutar por medidas democráticas mínimas, 
que são o “be-a-bá” do movimento sindical, mas que foram postas de lado pela 
Articulação. Precisamos resgatar medidas elementares de democracia operária, 
tais como: reuniões abertas de comando de greve antes de cada assembléia, 
eleição da mesa na instalação da assembléia com representação proporcional das 
correntes, abertura de inscrições para fala dos trabalhadores que não são 
militantes organizados, abertura de propostas com direito de defesa, ratificação 
dos representantes da base para a mesa de negociação  a cada assembléia, podendo 
ser dirigentes sindicais ou não, etc.; 

            Esses procedimentos foram “esquecidos” pela Articulação, mas são 
essenciais para que os bancários possam se sentir estimulados a participar das 
assembléias. Os bancários não podem comparecer apenas para levantar o crachá, 
precisam sentir que sua participação é importante e decisiva para o sucesso da 
campanha, como de fato é. Por isso, a luta pelas medidas elementares de 
democracia operária deve estar no centro de nossas intervenções nas assembléias. 
Mais do que aparecer como “os mais combativos porque pedem um índice maior”, 
devemos ser aqueles que fazem com que os bancários realmente se interessem e se 
sintam capazes de participar.
 
            4. ELEIÇÕES SINDICAIS 
 
            4.1 Situação da base de São Paulo
 
            Em 2011 teremos eleições para os Sindicatos dos Bancários de São 
Paulo e Porto Alegre e o plebiscito para desfiliação da CUT do Sindicato dos 
Bancários do Maranhão. Nos propomos a discutir aqui a eleição de São Paulo, cuja 
realidade conhecemos.
            A base sindical de São Paulo, Osasco e Região reúne cerca de 115 a 
120 mil trabalhadores, praticamente ¼ dos bancários existentes no país (não 
considerando os terceirizados). Desse total, pouco menos de 20 mil pertencem aos 
bancos públicos (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal), e o restante aos 
bancos privados.
            Esses números são importantes para determinar as condições da 
disputa política. Os trabalhadores de bancos privados, por omissão deliberada da 
própria Articulação, não possuem organização suficiente para participar das 
campanhas salariais. Não há defesa do emprego, não há luta pela estabilidade, 
não há organização no local de trabalho, não há defesa contra demissões e 
perseguição aos ativistas, não há defesa contra o arbítrio e o assédio moral por 
parte da patronal. Nessas condições, os trabalhadores de bancos privados 
participam das campanhas salariais de forma totalmente dependente, ou seja, não 
podem se mobilizar espontaneamente, de dentro para fora, e dependem de que os 
piquetes venham de fora para que haja paralisações. Os trabalhadores de bancos 
privados também não comparecem em assembléias e atividades do sindicato, pelo 
temor de perseguição.
            Por todos esses motivos, os trabalhadores de bancos privados têm uma 
relação alienada com a vida política da entidade, ou seja, não têm condições de 
avaliar politicamente o desempenho de uma determinada diretoria. Sua avaliação 
se baseia apenas nos resultados das campanhas salariais. E a cada campanha 
salarial, mesmo sem a sua participação, têm havido ao menos a reposição da 
inflação. Logo, o raciocínio que predomina neste setor é de que a diretoria tem 
feito seu papel. Some-se a isso a atuação assistencialista da diretoria, o 
trabalho com os afastados por problemas de saúde, os convênios e serviços, etc., 
de modo que o sindicato parece ser ativo. Além disso, o sindicato conta com uma 
poderosa máquina de propaganda, através da Folha Bancária (distribuída duas a 
três vezes por semana em toda a base), revistas, site, mensagens SMS, etc., a 
qual veicula apenas a sua versão da história, com um alcance infinitas vezes 
maior que os panfletos esporádicos da oposição.
            Considerando a alta rotatividade da categoria (muitos trabalhadores 
ficam no banco enquanto fazem faculdade, ou seja, três ou quatro anos), há ainda 
maiores dificuldades para que sejam capazes de distinguir uma diretoria sindical 
de outra. Há ainda a relação promíscua da diretoria com os bancos. No Bradesco, 
a sindicalização é feita juntamente com a assinatura do contrato de trabalho dos 
ingressantes. O sindicato ganha uma base social cativa, e em troca, não incomoda 
o banco. Nas eleições, essa base social invariavelmente vota na chapa da 
diretoria. Os gestores assediam os trabalhadores para que votem com a diretoria, 
por ordem do banco. Quando tudo isso não é suficiente, apela-se para a fraude, 
na lista de votantes, na coleta de votos, adulteração das urnas, apuração, etc.
            Por todos esses motivos, a correlação de forças é extremamente 
desfavorável à oposição. Ainda que todos os trabalhadores de bancos públicos 
fossem sindicalizados (e uma grande quantidade não é) e ainda que todos os 
sindicalizados votassem numa chapa de oposição, isso ainda assim seria 
insuficiente para ultrapassar a esmagadora superioridade numérica do setor de 
bancos privados. O desafio, portanto, não é apenas construir um movimento capaz 
de organizar os trabalhadores de bancos públicos, mas forte o suficiente para se 
tornar referência também para um amplo setor dos trabalhadores de bancos 
privados.
            Este movimento ainda não está dado na realidade. Não podemos ter 
nessa eleição a ilusão de que podemos disputar a diretoria. O único sentido de 
participar da eleição é usar a campanha para avançar na organização da base na 
construção desse movimento. Entendemos que não é possível pensar na constituição 
de uma chapa capaz de derrotar a atual diretoria sem realizar um trabalho prévio 
de organização nos locais de trabalho, fortalecimento da participação e dos 
espaços democráticos. O sindicato não é a sua diretoria, é o conjunto da 
categoria.
 
            4.2 Pontos para uma plataforma de renovação do sindicato
 
            Nós do coletivo Bancários de Base estamos abertos a discutir o 
processo de constituição de uma chapa de oposição, que para nós deveria ter como 
método uma série de reuniões abertas a todos os trabalhadores que queiram mudar 
os rumos da entidade, que discutam os pontos de um programa para reconduzir o 
sindicato para a luta.
            Mais do que isso, passada a campanha eleitoral, estando ou não na 
chapa, ganhando ou perdendo a eleição, estamos dispostos a seguir batalhando 
pelo programa de mudança nos rumos do nosso sindicato, pelo resgate da nossa 
entidade para a luta nas campanhas salariais e na resistência cotidiana, pela 
reformulação do funcionamento da entidade, pela participação da base e 
organização nos locais de trabalho, etc. Propomos para isso os seguintes pontos:
            - Resgate das assembléias e fóruns de base como organismos supremos 
de deliberação dos trabalhadores, contra a usurpação de todas as decisões pelas 
cúpulas dirigentes.
            - Proporcionalidade direta nas eleições para todos os fóruns, como 
diretoria do sindicato, comando de campanha, comissões de negociação, etc.
            - Composição de chapas através de convenções abertas e prévias 
eleitorais para escolha das candidaturas, por bancos e por região.
            - Revogabilidade dos mandatos por meio de decisão em assembléia.
            - Limitação do número de mandatos, com proibição de mais de dois 
mandatos consecutivos e obrigatoriedade da renovação de pelo menos metade da 
diretoria.
            - Fim dos privilégios para dirigentes sindicais, que devem receber o 
mesmo salário de antes da liberação, sem jetons, ajuda de custos, etc.
            - Escolha dos dirigentes liberados em assembléia, com controle das 
tarefas e horários.
            - Auditoria nas contas da Bancoop, Bangraf, Bancredi e outros 
“empreendimentos” do sindicato.
            - Transparência na gestão financeira e prestação de contas regular 
das finanças da entidade
            - Decisões sobre contratações e despesas extraordinárias em 
assembléias.
            - Reuniões periódicas de delegados sindicais e representantes de 
base com caráter deliberativo.
            - Eleição da mesa dirigente das assembléias, plenárias, congressos 
ou qualquer fórum no momento de sua instalação, com proporcionalidade, bem como 
votação da pauta.
            - Repúdio à contratação de seguranças para impedir a livre 
manifestação dos trabalhadores nas assembléias, plenárias, congressos ou 
qualquer fórum do movimento.
            - Garantia do direito à palavra para qualquer trabalhador, 
independentemente da sua filiação ou não a correntes políticas e sindicais, em 
assembléias, plenárias, congressos ou qualquer fórum do movimento.
            - Garantia de espaço nas publicações dos sindicatos e entidades para 
manifestação dos trabalhadores de base, independentemente da sua filiação ou não 
a correntes políticas e sindicais.
            - Suspensão dos pagamentos à CUT e plebiscito sobre desfiliação da 
central.
 
 
Coletivo Bancários de Base
 
Abril de 2011
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